Os Selvagens Vermelhos

* Inspirado em fatos históricos.

Por: Natasha Morgan

Eles ouviram falar sobre o navio naufragado na costa do rio Coruripe. O estrangeiro que se deitava com as índias havia cochichado nas orelhas das jovens mulheres da tribo a e notícia correu, incitando os guerreiros.

A costa da foz do rio se encontrava profanada pelos destroços do navio português, pedaços de madeira e couraça boiavam nas águas turvas. E uma infinidade de corpos humanos se estendia pela areia granulada, criando uma trilha macabra.

Os nativos se aproximaram com curiosidade, avaliando o estrago. Fuxicavam objetos estranhos que estavam soterrados pela areia, remexiam em pedaços de pano e cutucavam o corpo do homem branco com os pés. Havia poucos sobreviventes, a maioria morrera afogada.

Um corpo na costa, a cintura submersa na água no meio dos escombros, se mexeu. Um gemido rouco se fez ouvir e os indígenas se aproximaram com curiosidade.

O homem era rechonchudo, velho e calvo. Suas vestes estavam rasgadas e encardidas, mas dava para ver que ostentavam elegância antes do navio afundar. Nos dedos ossudos, ele carregava um anel de ouro na forma de uma cruz.

Debilitado, não sentiu a presença hostil dos nativos. Apenas quando eles faziam um círculo a sua volta se atentou para eles, arregalando bem os olhos e tentando formular uma frase.

Eles o observavam, grandes selvagens de pele acastanhada, vestidos em pintura de urucu e ostentando uma penugem vermelha. Os olhos objetivos numa carranca severa. Era uma simples questão de curiosidade a princípio. Até os guerreiros terem visto o lapso de altivez nos olhos daquele homem. Ostentava uma postura tão imponente, era dotado de tanto poder e coragem que imediatamente despertou o desejo dos guerreiros selvagens.

Queriam aquela coragem viril que fez o homem branco se agarrar a vida depois de um naufrágio violento.

Aquele homem tinha muito a oferecer.

Yakecan bradou um grito ao qual o restante dos guerreiros acompanharam. Imediatamente o homem foi atado com uma corda, amordaçado e arrastado pela mata silenciosa, junto aos outros noventa sobreviventes.

Pela floresta os guerreiros marcharam, levando os cativos. Seus corpos acastanhados e besuntados com a pasta de urucu os protegia das influencias maléficas e demônios que rondassem aquelas florestas, suas lanças afiadas eram heroicamente empunhadas. Os cocares de penas vermelhas lhe enfeitavam a cabeça e o som ululante de suas canções ecoava pela mata conforme marchavam para seu ritual antropofágico.

Era comum aos colonos recuarem diante daquele canto que profetizava o profano. Os selvagens vermelhos, eles diziam, e corriam apanhar seus arcabuzes para proteger as feitorias.

O céu escuro, turvado de pequenas nuvens que se condensavam próximas à lua pressagiava bons ventos. Nhanderuvuçu lhes conferiria um banquete próspero. A floresta silenciosa recebeu os guerreiros em seu seio, abrindo alas para sua marcha vitoriosa.

As mulheres os esperavam na aldeia, o corpo também pintado de urucu. Os sacerdotes tocavam os tambores, encorpando o canto que se aproximava. E o cacique cutucava a fogueira, atiçando as chamas agressivas que ali se projetavam.

Ao prisioneiro foi reservado uma tenda recheada de comida, bebida e uma bela mulher. Os guerreiros o empurraram para dentro e o trancaram ali, rodeando a tenda com seu som ululante. As mulheres os imitaram e também as crianças enquanto o tambor ecoava e o cacique chacoalhava seu chocalho num ritmo sagrado.

Aos outros náufragos foi dada uma oca apertada onde tiveram que se aglomerar e calar. Alguns choravam, outros lutavam e praguejavam ao que os indígenas riam e assumiam carrancas ameaçadoras.

O canto ululante e a dança sagrada se estenderam pela noite majestosa, pela madrugada fria até ser recebido e abençoado pelos primeiros raios de sol.

O prisioneiro escolhido pela tribo foi convidado a se retirar de sua tenda pelas mulheres de olhares maliciosos. Foi despido, lavado, seus pelos raspados e sua pele besuntada com uma estranha tintura cinza.

O tempo todo elas cantavam. O som ululante ecoando dos lábios da tribo.

O cativo tremia, olhos arregalados, debatia-se tentando se libertar.

A que os índios riam, as mulheres dançavam, os sacerdotes tocavam e o Cacique orava a seus deuses.

Deus

Era o que escapava dos lábios amordaçados do homem branco, numa lamúria balbuciada.

Os sacerdotes continuavam a tocar, as mulheres continuavam a dançar e o os guerreiros cantavam, rodeando o cativo em sua dança selvagem.

O Cacique se aproximou, balançando seu chocalho. O tacape se ergueu ameaçadoramente e, diante de algumas palavras sussurradas em honra a Nhanderuvuçu, o cativo foi golpeado.

O corpo pendeu, moribundo, e foi acolhido pelas mulheres.

O anus foi tapado com um pedaço grosso de madeira para que nada lhe escapasse por ali, o corpo disposto na pedra besuntada e ao Cacique foi dada a honra de partilhar a carne.

O cativo foi despedaçado. Primeiro os pés, as pernas, as coxas, as mãos, os antebraços, os braços e, por fim, a cabeça. As mulheres apanharam os pedaços sangrentos e iniciaram sua corrida pela aldeia, cantando e dançando ao troar dos tambores.

Ao lado da fogueira, o Cacique as esperava com os grandes caldeirões de ferro onde a carne seria disposta para assar.

A noite caiu e o dia chegou, ao som da cantoria ululante e o estalar da carne nas chamas furiosas da fogueira. O banquete foi disposto numa esteira e a tribo inteira se aproximou para a partilha da carne.

O coração foi dado a Yakekan, para que os sentimentos nobres do cativo fossem absorvidos pelo guerreiro.

O cérebro foi dado ao Cacique, para que a inteligência, coragem e astúcia fossem absorvidas pelo chefe da tribo.

Os genitais foram entregues a Topã, para que a virilidade fosse absorvida pelo jovem imberbe que estaria se iniciando na guerra dali a três luas.

As vísceras foram dadas as velhas para que preparassem o mingau.

E a cabeça e o restante dos miúdos foram dados às mulheres, para a sopa que seria dividida entre elas e as crianças.

Ao restante da tribo foi permitido se juntar ao banquete aproveitar o restante da carne, a qual devoraram com sorrisos satisfeitos e uma fome selvagem. Essa era a lei dos selvagens vermelhos, sua cultura, o ritual sagrado da antropofagia.

Ele foi acordado pelos homens naquela manhã nublada.

Seu homem de confiança trouxe a notícia de que o navio que levava o bispo Dom Pero Fernandes Sardinha naufragara na costa de Coruripe.

Sua primeira reação foi pesar. O bispo era um homem decente, um amigo confidente ao qual podia expor seus problemas e pecados sem esperar por um olhar aborrecido e vinte Pais Nossos como penitencia.

Mem de Sá assoou o nariz numa bacia d’água, lavou o rosto, as mãos e se secou com uma toalha de linho, convidando o homem a se sentar.

– A equipe de busca fora reunida? – perguntou o Governador Geral.

– Não há sinal de corpos na baía.

Mem de Sá arqueou as sobrancelhas.

– Os Caetés chegaram primeiro. – explicou o homem.

– Os adoradores de franceses?

Ainda não lhe descia o fato de aquela tribo indígena ter confraternizado com o inimigo e se declarado hostil para com os portugueses – os legítimos conquistadores daquelas terras.

– Sim, meu senhor.

Mem de Sá deu as costas ao seu homem de confiança.

– Sardinha. Levado por uma tribo hostil.

– É provável que tenha sido devorado. Conhecemos o costume indígena.

-Ele era o bispo! O primeiro desta terra selvagem.

– Os selvagens nunca esboçaram importância com os protegidos da Santíssima Igreja, Senhor.

Sá soltou uma enxurrada de injúrias.

.Fora-lhe dado, generosamente pelo Rei, o posto de Governador Geral no intento de levar ordem para aquelas terras, administrar as feitorias e governar os colonos. Ele se lembrava perfeitamente de ter garantido a Vossa Majestade melhorar as relações dos colonos com os indígenas. O Rei confiara nele.

E tudo o que conseguira até agora fora empenhar batalha contra malditos intrusos franceses, pacificar algumas aldeias hostis e incitar os mamelucos da bandeira de apresamento aos Tupinambás.

Lidar com aqueles selvagens nunca foi uma tarefa fácil. Não era a toa que seus colegas, antigos Governadores Gerais, haviam fracassado em sua missão. E ainda havia os padres. Aqueles malditos padres!

A companhia de Jesus era responsável por suas dores no testículo esquerdo.

Sempre querendo salvar os pobres e ignorantes selvagens, levar a eles a palavras de Deus. A toda aldeia massacrada, lá vinham aqueles padres imberbes elevando a voz contra tal barbárie, tentando proteger os poucos sobreviventes e amenizar os castigos dos indígenas que aceitavam se converter à fé cristã.

Sá tinha ciência da importância da catequese, da palavra de Deus e da propagação da fé católica. A Reforma Protestante quase acabara com o glamour da Santa Igreja e Deus sabe o quanto aqueles selvagens precisavam ser civilizados.

Mas já estava cansado daquela terra profana e toda selvageria nela contida.

E agora mais essa estapafúrdia!

A Santíssima igreja não perdoaria um ato tão vil cometido contra um dos seus. Nem a inquisição.

– Como sabe que foram os caetés?

O homem mexeu-se inquieto.

– Diga-me, maldito homem!

– Os catecúmenos mencionaram algo sobre o garoto Álvaro, Senhor. Os curumins da missão próxima ao rio o viram se aconchegar nos braços das índias caeté.

Mem de Sá estreitou os olhos.

– O filho de Duarte da Costa?

– Acho que ele pode ter armado uma emboscada para o bispo, Senhor Governador Geral. Sabemos a hostilidade entre eles.

Sá se lembrava.

O apetite sexual de Álvaro pelas índias causou repulsa em Dom Pero Fernandes, levando-o a iniciar um monólogo repreensivo ao filho do antigo Governador geral. Isso elevou os ânimos e causou uma hostilidade ferrenha entre eles. Foi preciso Mem de Sá assumir o cargo de novo Governador Geral para amenizar a antipatia.

– O garoto não poderia ter algo a ver com o naufrágio.

– Eu não sei, Meu Senhor. Mas acho provável ele ter sabido que Dom Pero Fernandes estava na costa e alertado os selvagens para concluir o serviço por ele.

– Bastardinho!

Sá socou a mesa de mogno, fazendo voar seus pertences no chão.

– Meu Senhor, aguardo suas ordens.

O Rei queria ordem, disciplina. Nomeou-o pessoalmente para cuidar de tais assuntos. E era seu dever levar civilização e ordem àquela terra.

Seus olhos tempestivos fitaram o homem a sua frente.

– Traga o garoto para mim. E que ninguém saiba disso. Que os colonos, a Corte e o Rei pensem que foi devorado pelas índias a quem tanto ama.

– Meu Senhor. – o homem fez uma mesura, dirigindo-se a porta.

Parou, cauteloso.

– E quanto aos caetés, Senhor? Os colonos estão cochichando.

– Mande Romário atrás deles. Queimem as aldeias, matem o líder e tragam os que sobreviverem para as feitorias. Que trabalhem nas plantações de Açúcar para compensar o crime que cometeram contra Deus. A Igreja não vai perdoá-los, nem a Inquisição. Essa tribo selvagem é, a partir de agora, inimiga da civilização. Que seu sangue aplaque a ira de Deus.

Sá deu as costas ao homem, dispensando-o.

A manhã era nublada naquele dia e poupou o Deus Sol de ver seus filhos serem massacrados, castigados e escravizados. O mameluco, líder da bandeira de apresamento liderou os colonos pelas matas, seguindo as pistas deixadas pelos caeté até sua aldeia escondida. E lá se abateu sobre eles, sem qualquer traço de piedade ou misericórdia. Mestiço de índio com o homem branco, o mameluco pouco tinha sentimentos para a parte materna de seu sangue. Era o homem branco que obedecia e o dinheiro ou status que ele lhe conferisse. Pela terra em que fora gerado, nada sentia além do desejo de encontrar ouro. E assim marchou pelas florestas, escravizando, espancando, chacinando tribos inteiras. Deixou para trás corpos mutilados e um rastro de sangue que enojou aquelas terras profanadas pelo europeu.

Ao indígena, nativo daquela mata verde e selvagem restou o lamento e lutar com a coragem recém absorvida do prisioneiro devorado. Acreditavam em sua cultura, na natureza e em deuses antigos. Acreditavam no poder da antropofagia.

E aos colonos, restou lutar em nome da civilização a qual conheciam.

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