Donna – Reviravoltas (Pt. 7)

Donnacap7

Donna

Capítulo 7 – Reviravoltas

Escrito por: Lua Morgana

*

Depois de uma longa noite de conversas, risadas, confissões e conhecimento a cerca um do outro, acabei passando a noite na casa de Heitor. Não aconteceu nada entre nós dois, no máximo um abraço e um beijo no rosto de boa noite. Ele me respeitava muito, coisa que nunca recebi de um homem, geralmente só me procuravam para sexo e, como eu era muito nova e burra, achava que essa era a ordem natural da vida. Depois que amadureci, conheci outras pessoas e me ferrei com Hernando, aprendi que na vida nem tudo era baseado em uma transa casual. Não serei hipócrita de dizer que sou santa e não gosto de sentir prazer, não é apenas isso… Aprendi a me dar valor e quero que outra pessoa me dê também!

Fui acolhida em um quarto lindo, claro e iluminado, aqueles quartos dignos de capa de revista. Eu moro em um prédio de frente pro mar, meu apartamento é lindo sim, porém é algo que todos estão acostumados a ver – quase todos – é casual, comum. Porém, a casa de Heitor era digna de realeza. A cama que dormi era tão macia, cheia de travesseiros de plumas, com lençóis que pareciam nunca ter sido usados. Não estava a fim de ir embora tão cedo, queria dormir ali por mais umas horinhas, “o sono dos justos”.

Fui acordada pela tarde, não lembro de ter dormido tanto tempo assim desde a minha adolescência, me sentia segura naquela casa. Alguém bateu à porta do quarto… Levantei rápido e minha cabeça girou, cai na cama sentada, igual um saco de batatas… “Bebi demais ontem a noite” – pensei. Pousei a mão sobre a cabeça, até que ela parasse de girar e levantei novamente… Com um esforço me arrastei até o roupão, que estava perfeitamente colocado em cima de uma cadeira, e vesti. Era seda pura e de um dourado magnífico. Abri a porta e semicerrei os olhos para ver quem era e não tinha ninguém ali, a não ser um carrinho, igual aqueles de hotel onde levam as comidas… Estava com uma bandeja cheia de coisas maravilhosas de café da manhã. Seja quem for que tenha deixado aquilo ali, não queria me incomodar e conhecia muito bem meu paladar.

Olhei para os lados e não tinha ninguém no corredor, os empregados da casa eram silenciosos, quase nunca ouvia-se barulhos ali. Peguei a bandeja e levei para dentro do quarto, coloquei em cima de uma mesa em frente a janela, abri as cortinas e dava para ver o pátio lá embaixo, cercado de árvores bem cuidadas e uma piscina enorme. Tinham alguns empregados trabalhando na jardinagem e outros na limpeza, tudo coordenado, como um balé.

Sentei-me e comecei a me deliciar com aquele café da manhã maravilhoso, claro que não era tão cedo ainda, mas eu havia acabado de acordar com uma bela ressaca e precisava daquilo mais do que nunca. Tinham umas flores amarelas em um jarro de vidro na bandeja, fiquei observando os cuidados com que tinha sido preparado aquela refeição… Provei cada coisinha que ali estava, um croissant, um bolo de morango, chá de camomila feito na hora, sem ser industrializado, um café bem forte… tudo bem preparado. Notei que tinha um bilhete escondidinho ali na bandeja. Peguei-o e abri:

Querida Donna,

Quero que sinta-se em casa. Pedi para que minha cozinheira prepara-se este café da manhã para você e que deixasse em sua porta, assim que você acordasse. Não se assuste com a hora, pode dormir o quanto quiser! Na minha casa você estará segura sempre. Tive que sair para resolver uns negócios pendentes, espero que não tenha problema em tomar o café da manhã sozinha, me desculpe pela falta de cavalheirismo. Aproveite o dia, volto para o jantar. Não vá embora, não ainda.

Ps: Tem algumas roupas femininas no closet, neste quarto, são do seu tamanho.

Com amor, Heitor.”

Esse homem existe? Me perguntei. Como ele sabia do meu amor infinito por roupas… Corri para o tal closet e me embasbaquei. Primeiro com o tamanho e o luxo daquele lugar e segundo com a quantidade de roupas, sapatos e maquiagens! Era natal e eu não sabia.

Abri cada gaveta, olhei cada cabide. Até que vi um botão… curiosa que sou, apertei-o. A ilha no meio do closet se abriu e levantou uma espécie de compartimento escondido! Tinham relógios caríssimos, joias e mais joias. “Meu deus do céu!” – disse para mim mesma, em alto e bom tom.

Ok, é tudo muito lindo e caro – super caro – mas é errado. Ele está tentando me comprar, isso não é legal. Se eu queria ser uma mulher de respeito, queria conquistar meu espaço sem precisar de futilidades para isso, não deveria aceitar de bom grado esses presentes.

Tomei meu banho, pensei por horas e horas dentro daquele quarto… vesti uma roupa mais simples daquele closet imenso, não mexi nas joias, deixei do jeito que estava. Nenhum homem colocaria preço em mim, por mais lindo e brilhante que seja, nada compra a moral de uma dama. Não mais.

Fiquei sentada na cama esperando a hora que Heitor chegaria, até que ouvi um carro se aproximando da casa. Era ele. Levantei e me ajeitei, ele ouviria algumas poucas e boas, era gentil da parte dele se preocupar com a minha estadia, mas era grosseiro achar que me compraria fácil assim.

Desci até o andar principal… usava um vestido marrom e uma sandália simples, nada muito luxuoso. Não queria que ele pensasse que aceitei ser comprada.

Ele abriu a porta da frente e atrás dele estavam dois seguranças – que sempre andavam com ele – Heitor fez um sinal para que eles ficassem lá fora. Eu estava descendo a escada de cabeça erguida, ele sorriu ao me ver e me cumprimentou:

Olá, Donna. Boa noite! Vejo que está bem descansada… Fico feliz que não tenha ido embora ainda. – Ele me pegou pela mão para me ajudar a descer o último degrau e deu um beijo em seguida.

Olhei-o diretamente nos olhos, seriamente.

Boa noite, Heitor. Obrigada pela estadia. Estava esperando você chegar para ir embora, queria agradecer-lhe pessoalmente pela noite maravilhosa. – Sorri levemente.

Ah, que isso, minha querida! Não precisa agradecer… e não quero que você vá embora agora, quero jantar contigo. Sua companhia é agradabilíssima. – Ele abriu um sorriso enorme, aqueles encantadores que a gente se derrete toda, mas me mantive firme.

Eu preciso ir, Heitor. Já não passei a noite em casa… o que você pensará de mim? Não quero que você pense que sou aproveitadora ou fácil. – Encarei-o.

Quem disse que pensarei isso de você? Já passei a noite com milhares de mulheres de todo lugar do mundo, não falo isso pra me gabar… Mas você, Donna… – Ele fez uma pausa e alisou meu rosto com as costas da mão – é diferente.

Se eu caísse naquele papo, tenho certeza que comprovaria que eu não sou nem um pouco diferente. Seria apenas mais uma.

Desculpa, Heitor, mas tenho algumas coisas para fazer, alguns amigos para visitar e preciso REALMENTE ir. – Peguei minha bolsa e minha dignidade e saí.

Pedi um táxi pelo aplicativo do celular e fui para casa.

Assim que cheguei em casa, recebi uma mensagem no celular de Heitor:

Eu sabia que você era diferente. Espero vê-la em breve.

Sorri para mim mesma. Fazia tempos que eu não me sentia tão bem.

“Pelo fogo
Transmutação
Sem afago, lapidando o aprendiz
O que sobra é cicatriz
A sustentação é que a manhã já vem
Logo mais a manhã já vem

Chega dessa pele, é hora de trocar
Por baixo ainda é serpente
E devora a cauda pra continuar”

(Serpente – Pitty)

CONTINUA

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s