BR 153

camaro1

Por João Lessa 

A imensidão da noite ainda podia ser sentida a 220km/h. O maverick 1975, mesmo engolindo a estrada a sua frente como um raio riscando o céu, não era capaz de aplacar a dor que Inácio sentia. A dura traição de Paula o tinha abalado de um jeito que ele nunca imaginou. Mas ele focava a estrada, debruçado sobre o volante, acelerando e pedindo tudo que o carro tinha pra dar e o Ford não desapontava. A estrada estava deserta e o seu coração destroçado. E assim como as corujas piavam e os lobos uivavam agitando a noite, ele também tinha tamborilando forte uns pensamentos que queria esquecer e botava tudo no acelerador, deixando a estrada pra trás, junto com sua dor. A Avenida Cento e Três, tão precária quanto ele, era a lembrança do que estava querendo deixar e tinha de vencê-la. Já prestes a entrar na BR-153 diminuía a velocidade. Desviou a atenção uns segundos para observar o trajeto no gps do celular, ao voltar topou com uma figura estranha que vinha atravessando a estrada. Reduziu a velocidade até parar. O homem o encarava imóvel, impassível. Tinha as mãos sobrepostas na altura do umbigo e se curvava com aquele nariz adunco farejando o ar. Os cabelos louros molhados caindo sobre os olhos, torcendo a boca num sorrisinho debochado. Inácio sentiu um calafrio e desejou não estar ali, fechando os olhos na convicção animadora que ao reabri-los não veria nada a sua frente. Mas não, ele estava lá claro, tão imóvel e impassível quanto antes, até que desfez o silêncio: – Pode me dar uma carona? Vou pra qualque lugar. Só quero uma pousada pra dormi. Tô cansado. Percebe? Inácio riu sentindo graça do jeito de falar e dos gestos de matuto do homem. O pavor foi dando lugar ao alívio e aos poucos foi-se formando alguma simpatia.
– Entra aí. Já vou parar num dormitório logo ali na frente. Não é nada demais, na verdade o lugar é horroroso, mas é só dormir mesmo, quem se importa?
– A moço, eu não. Isso eu garanto pro sinhô. Eu já dormi em árvore, dormi inté em lombo de cavalo. Pra mim tá tudo bom. Vou com o sinhô pra onde for.
– Então, você é o que? Algum tipo de peão, alguma coisa assim?
– A não sinhô. Eu não sou nada não. Sabe, não sou especialista em coisa nenhuma, mas nessa vida aprendi a fazer de tudo e o que aparece eu pego. Eletricista, encanador, mecânico, já fui até coveiro.
– Coveiro? Nossa, que coisa! Inácio ficou impressionado com esta última habilidade do seu mais novo amigo carona, mas tudo bem, já estava até se divertindo com as histórias. Percebeu que o homem tinha umas manias meio irritantes, uma delas era arranhar a unha do indicador esquerdo na sua calça jeans imunda, unhas aliás que ele notou estarem grandes e sujas, bem sujas.  Mas isso nem era o pior porque ele ainda ficava passando a língua pontuda no canto da boca como um lagarto faz e isso era ruim de olhar.
– A não sinhô, isso é bem comum aqui, sabe? Todo mundo faz de tudo um pouco. Mas pro sinhô talvez possa parecê estranho. É um moço fino de cidade grande. Não é não? E nesta última indagação, quando virou a cabeça mais para o lado direito, Inácio pôde ver uma coisa que antes não tinha visto e ficou intrigado. Seu cabelo estava sujo de sangue, emplastrado como tufos de cabelo retirados de um ralo. O homem, cujo nome era Anselmo, mas que Inácio não soubera ainda, percebeu a estranheza dele, mas fez que não era nada. Inácio ainda impressionado, considerando comentar sobre o sangue, hesitava em responder. – Quanto ao moço fino eu deixo com você, mas sim, sou de cidade grande, do Rio de Janeiro, estou aqui pra esquecer. É; esquecer, tem coisas que não valem a pena comentar. É só que, tô procurando aventura. Esportes radicais, canoagem, rapel, motocross, coisas assim. E sabe que o senhor tem aí uma, uma… – dizia apontando para o sangue na cabeça do homem, mas vacilava de novo. – O que foi moço? O que eu tenho? – o silêncio, o espanto por perceber que o homem não sentia ou não entendia o que ele estava querendo dizer. Preferiu se calar. – Uma mosca, bem ai, no canto dos olhos, viu? E tinha mesmo a tal mosca, ele não mentiu. Saiu voando, circundando a cabeça de Anselmo, depois que a enxotou, mas ainda por ali.
– Mas moço, eu vou te contar, acho que o sinhô tá é fugindo de uma mulhé. Isso mesmo! Não se invergonhe de fala isso, porque home tudo sofre por mulhé nessa vida. Coisa mais comum. Elas não dexo a gente em paz não é mesmo? E nem nós queremo. Corremo atrás que nem coelhos.
– É. Tô vendo que essas férias vão ser bem divertidas. Chegamos, senhor. O senhor se chama? Não fomos apresentados. – indagou Inácio oferecendo a mão num cumprimento, mas Anselmo, que já tencionava sair do carro, virou as costas pra ele e já do lado de fora, inclinando-se disse: – Que descortesia sinhô. Verdade. Eu mesmo não posso dizer o meu nome e a razão pra isso é uma promessa. Tivesse com meu chapéu aqui lhe mostrava, que tem bem escritinho ali na aba, do lado. Mas tive um acidente na estrada de chão lá da fazenda e perdi ele, o chapéu se foi e com ele o nome e não carrego nenhum documento. Mas apertêmo as mão sim. Um prazer conhece o sinhô.
Naquela noite Inácio mal conseguiu dormir. Tudo aquilo tinha o deixado muito intrigado, tanto que vigiava acordado, em parte por desconfiar ainda do homem. Até ter dito que já foi coveiro, tudo bem, é uma profissão, alguém tem que fazer, por mais bizarra que possa parecer. Mas aí o sangue seco cobrindo aquele lado da cabeça e o homem sem comentar nada a respeito. Lembra dele dizer que houve um acidente na estrada da fazenda, que foi como perdera o chapéu, quem sabe fosse isso. Bom, tá, ainda passa batido, mas não poder dizer o próprio nome por causa de uma promessa? Achou aquilo um pouco demais. Pra não dizer louco. Pensou em sair bem cedo pela manhã e enquanto ainda estava mergulhado em pensamentos ouviu os passarinhos cantarem e os primeiros raios do sol iluminarem a janela. A cortina rosa, tingia a luz que entrava com sua cor e a sombra do ventilador de teto que agora alongava-se parecia garras. O bater das hélices soava seco e mais demorado em seus ouvidos do que parecia, pela velocidade que giravam e isso o deixou com um mal-estar terrível. Enfim levantou-se, tomou um banho, arrumou suas coisas e fechou a conta do dormitório. Não sem antes, claro, alertar o dono do lugar: – Escuta, esse rapaz que veio comigo ontem à noite, sabe? Foi só uma carona. Não quero que o acorde. Vou sem ele, deixa ele dormir, tudo bem? – Não entendi, senhor. O senhor se hospedou sozinho. Eu e minha esposa o recebemos e o acomodamos no seu quarto, estava sozinho. Não tinha ninguém com o senhor.
Enquanto tentava assimilar aquilo Inácio agradeceu e logo saiu. Pôs as malas no porta-malas e arrancou com o carro depressa. Pegava a BR-153 agora, bem movimentada, principalmente caminhões. Mas mantinha a velocidade e acelerando, acelerando – 120, 160, 180km/h. Pena não poder correr mais, como na noite passada na Avenida Cento e Três. Todas as ultrapassagens e os carros não permitiriam. Mas se parte de Paula foi deixada para trás lá naquela Avenida remendada, porque não tentar deixar um pouco de Anselmo pela BR-153 também? Ainda mais quando descobriu, ao parar num posto de gasolina a muitos quilômetros dali, que o seu carona misterioso tinha sido atropelado por um cavalo que se soltou de uma carroça e desembestado partiu para cima dele esmagando sua cabeça e sua coluna. Isso foi no mesmo dia, naquele mesmo dia em que lhe ofereceu a carona e antes de dobrar o jornal em que lera a notícia ainda deu mais uma olhada: A carroça virada, o corpo estendido no chão como uma saca de arroz, sangue ao redor da cabeça e nas costas e o detalhe ínfimo no canto, que anteriormente não percebera. De um canivete suíço que tirou do bolso projetou uma lupa que usou para ler. Era o chapéu de Anselmo e estava ali, visível o seu nome na etiquete conforme o própria tinha dito. Achou que deveria se abalar, mas não conseguiu deixar de achar graça e quando a garçonete perguntou se queria mais café ele aceitou e acomodou-se mais confortavelmente no banco. Via a paisagem lá fora, era só o estacionamento, carros, caminhões, a rodovia. As pessoas dentro da lanchonete, toda a agitação. Observando tudo em volta ele sorria lembrando de uma frase que escutara um dia e não sabia onde: “Pois os mortos viajam velozmente.” E quando chegou o café, ainda lembrando disso ele piscou para garçonete, sem nem perceber o que fazia e ela retribuiu com um sorriso.

FIM…

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