A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt. 13) – Miragem

 

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Capítulo 13 – Miragem

Escrito Por: Alfredo Dobia

 

Sasha abriu os olhos vagarosamente, levantando da cama confortável da Lúcia. Avistou por ela, mas não a viu. Tirou seu telefone da estante pequena do quarto para ver a hora. Eram quase oito e meia e sua mente ainda estava turva, como se estivesse passando no processo de ressaca para nitidez.

Apesar dos Anderson a terem contado a verdade sobre suas identidades. Ela percebeu que seu cérebro precisaria de mais tempo para processar toda aquela alucinante informação sobre os bruxos.

Atirou o telefone na cama e caminhou em direcção ao banheiro. Seus passos eram longos. Por algum estranho motivo, ela sentia que tinha de falar com os Anderson novamente. Sentia-se diferente. Parecia que alguém ou algo estava tentando se comunicar com ela.

Ao passar pelo grandioso armário de roupa, ela parou, reparando-se no espelho comprido da porta. Havia uma carta colada nela. Era a caligrafia irreconhecível da Lúcia. Ela tirou a carta e começou a ler:

‘’Oi bom dia! Espero que estejas mais calma em relação ao dia de ontem. Desculpa por não estar aí. Tive de vir trabalhar e não quis interromper o teu sono. O café está na mesa da cozinha. Nos vemos mais tarde. Beijos. Lúcia Wayler’’.

Seus lábios abriram um curto sorriso. Ficou parada por alguns segundos e logo depois sentiu uma pequena dor nos olhos. Levou as mãos até eles, esfregando-os de seguida. Logo que tirou-as, ela viu-se de vestes escuras. Suas vestes reflectidas no espelho eram totalmente distintas de como ela via-se longe dele.

Atónita, voltou a esfregar os olhos novamente, e assim que baixou os braços, tudo voltou ao normal. Soltou um suspiro, em alívio.

‘’Nossa! Que interessante, agora estou delirando’’ disse, pra ela mesma.

O espelho vibrou e sua imagem reflectida nele mudou novamente. Seus cabelos negros e soltos, estavam presos a um rabo-de-cavalo e fios prateados cintilavam em seu pescoço. Ela quase congelou de medo.

‘’Mais o qu…’’

Interrompeu suas palavras ao ver que o espelho movia-se como gelatina. Sua imagem desapareceu — ela estava extasiada. A vontade de tocar no espelho era poderosamente inelutável. Levantou os braços e com um dos seus dedos, tocou de leve no espelho, cedendo. O espelho vibrou com mais intensidade.

Sasha abriu a mão e conduziu ela para tocar novamente, mas dessa vez ela nem teve tempo de o fazer. O espelho puxou-a. Ela gritou assustadamente. Seu corpo todo adentrou no espelho como se estivesse atravessando um portal.

Já em outro lugar, ela se virou pra trás, na tentativa de atravessar o espelho novamente. Ela só queria escapulir daquele lugar, mas seu esforço foi inutilizado. O espelho havia desaparecido. Olhou a sua volta e o panorama não lhe agradava em nada. O lugar era sinistramente ermo. Corpo nenhum se fazia presente e a angústia crescia em seu coração.

‘’Onde estou?’’ ela disse.

Baixou a cabeça e se viu descalça, pisando em chão de vidros frios e transparentes. Lançou seus olhos para cima, observando nuvens negras se formando por cima de sua cabeça.

Voltou seus olhos para frente.Uma estranha criatura miriápode, vinha em sua direcção, com dentes pontudos no lugar das pestanas. Ela começou a correr com toda força que seu corpo podia oferecer, mas acabou tropeçando em algo que não sabia o que era.

A besta ficou bem próximo dela, cheirando-a.

Seu coração começou a arder, sua pele transpirava medo, sentindo-se agonizada. Quando a criatura finalmente decidiu ataca-la, o chão de vidro se partiu. Ela podia sentir seu corpo caindo. Seus olhos escuros testemunhavam os cacos de vidros rasgando seu braço, podia ver seu sangue escoando pelos ares, até que por fim acabou por cair no meio de uma mata.

Ela levantou, tremendo.

Levou os olhos pra cima novamente — para conferir se o antes chão e agora teto de vidros quebrados ainda era visível, mas apenas conseguiu ver os raios de sol banhando sua face. Olhou ao seu redor e não viu nenhum pedaço de vidro no solo florestal. Sacudiu-se, notando que o ferimento forte em seu braço havia desaparecido.

‘’O que está acontecendo comigo?’’ — disse em sua voz interior.

Levantando apenas uma de suas pernas, o sol desapareceu. Uma lona enorme de escuridão cobria aquela perturbadora mata.

Começou a chover em todos os lugares, menos onde ela estava.

‘’Será que tem como isso piorar?’’

Não demorou muito para ele perceber que as palavras têm força. Um espectro com um bastão luzido na ponta se aproximava dela. A luz era tão forte que adentrava em seus olhos de forma ardil.

‘’Droga! Porque fui dizer isso logo agora?’’— murmurou.

Começou a correr novamente, olhando repetidas vezes para trás. Parou, ofegante. Fez uma última revisão, constatando de seguida que o misterioso ser não a seguiu. Suspirou em alívio. Ao voltar a olhar para frente, Sasha pode sentir o espectro parado a pouquíssimo metros de seu corpo trémulo. Tentou gritar, mas sentia-se sufocada e paralisada. Sua garganta doía e parecia que o oxigénio havia abandonado seus pulmões.

— Obrigado por me mostrar a chave — disse o espectro, em apoquentação.

Sua gélida respiração fez o coração da Sasha ganhar aquela estranha sensação de que estava prestes a sair pela boca.

O espectro fez uma breve pausa, depois continuou:

— Graças a você, estou muito próximo de traze-la ao meu mudo.

Após suas últimas palavras, ele desapareceu, deixando o eco de sua assustadora voz brincando nos ouvidos dela.

Ela correu, ainda mais assustada, e acabou tropeçando mais uma vez.

Novamente em um piscar de olhos, se viu parada no quarto da Lúcia, observando-se no espelho. Olhou a sua volta e tudo havia desaparecido, como se si tratasse apenas de uma miragem. Voltou a tocar no espelho e nada incomum aconteceu.

‘’O que aquela coisa queria dizer com traze-la ao seu mundo?

Ela disse, caminhando para o banheiro com monte de perguntas sem respostas nascendo de sua mente.

 

 

— Então, alguma coisa sobre a planta? — perguntou Lúcia.

Os Anderson sentavam numa das cadeiras do bar, vasculhando informações sobre a planta no livro de gerações.

O tempo passava muito rápido, e eles temiam que Cyrius voltasse para pegar sua resposta, e que dessa vez não seria tão cordial como na primeira vez.

Chris se levantou irritadamente e chutou uma das cadeiras que estava a sua frente. Lúcia estremeceu de susto por uns poucos segundos.

— Nós já vasculhamos todos os cantos desse livro e em nenhuma parte ele mostra como encontra-la — essa planta é completamente insondável.

O tom de sua voz era alto e impaciente.

— Você tem que ter calma irmão — aconselhou Valter. — Estarmos simplesmente nervosos não nos vai ajudar a achá-la.

Naquele instante, Sasha entrou o bar, caminhando para junto deles.

— Bom dia? — ela disse.

— Bom dia. — Lúcia respondeu.

Chris torceu o nariz e afastou-se para outro lado do bar, com o semblante de quem não estava tendo um bom dia.

— O que tem ele?

— O meu irmão está tendo uma de suas Chrises de impaciência. — Valter respondeu. — Não ter o controlo de tudo não é algo que ele gosta muito. O moralismo é uma das suas características chatas.

Sasha abriu um leve sorriso, ela queria contar sobre o que vira a algumas horas atrás, mas decidiu não faze-lo. O momento não parecia ser oportuno. Logo a seguir, juntou-se a Lúcia.

Ela olhou para o Chris, enquanto limpava o balcão do bar e comentou num tom baixo:

— Ele é lindo de todas formas. Principalmente quando está nervoso.

Lúcia acenou a cabeça em sinal de concordância.

— Infelizmente é sim. Já te disse que odeio quando você está totalmente certa.

Sasha riu

— Porquê infelizmente?

— Acontece que existe uma regra estúpida que impede os bruxos de namorar pessoas normais como nós, e Chris — elas viraram os olhos pra ele —, não parece muito o tipo de cara que quebra as regras.

Sasha arregalou os olhos, notando a tristeza na voz da amiga ao pronunciar aquelas palavras. Se virou e viu Valter lendo o livro de gerações. Assim como Lúcia, ela também se encantou com a capa linda do livro.

Se aproximou dele, curiosa para ver o titulo.

— Que livro é esse? —  indagou, recebendo o livro das mãos do Valter.

— Este é um livro dos bruxos onde contem todas as informações da minha família.

Sasha folhou o livro intrigadamente, como se entendesse as informações contidas nele.

Eu me lembro dessa planta — ela disse.

— Que planta? — Lucia perguntou, atónita.

— Essa aqui.

Sasha caminhou para mostra-la.

Lúcia lembrou das palavras que Chris a dissera. O livro de gerações só poderia ser lido por pessoas com poderes sobrenaturais.

Valter levantou e Chris caminou para junto deles.

— Acho que algo de errado deve estar se passando com vosso livro, pois a Sasha consegue ver o que está nele.

Sasha estranhou o comentário da amiga.

— O que você vê nele? — Chris quis saber.

— Vejo tudo. Principalmente essa planta aqui, ela me lembrou minha infância — ela fechou o livro. — Mas vem cá. Porque tanto mistério em volta dele. Por acaso isso é mais um segredo macabro dos bruxos?

Valter soltou um suspiro antes de responder.

— Isso está ficando estranho. Você não deveria ver absolutamente nada desse livro. Só eu e o meu irmão podemos fazer isso, ou melhor, só pessoas como eu e o meu irmão podem fazer isso.

Sasha largou o livro, com medo.

— Que papo louco é esse gente? O que vocês querem dizer com isso? Por acaso não estão pensando que sou uma bruxa ou estão?

— Se acalma Sanha! — pediu Chris respeitosamente. — A gente não está pensando que você seja uma bruxa, mas considerando o fato das coisas que tens vistos ultimamente, deixa tudo isso um pouco preocupante. E mais sério do que pensávamos — ele a encarou — precisamos saber o que esta se passando contigo — mas antes disso, sente e diz-nos o que você sabe sobre esta planta.

Ela respirou fundo tentando se acalmar. Lançou uma mecha de seu cabelo escuro para trás, e disse:

— Bem, está é uma planta muito rara. Ela só existe em dois países do mundo, e os mesmos se encontram na África. Ela é comummente chamada de Welwitschia Mirabilis. Meu pai me falava dela quando eu era mais pequena. É uma das riquezas do país onde nasce.

— Como assim? — Valter quis saber. — Você não nasceu aqui na América?

Em resposta, Lúcia disse:

— Desculpem, eu esqueci-me de vos dizer que Sasha não é americana, ela nasceu na África — em Angola propriamente — esclareceu. — Ela veio pra América para estudar, e acabou sendo matriculada na mesma escola que eu frequentava, quando tinha oito anos de idade. No mesmo ano que aconteceu o acidente dos meus pais.

Ela olhou para Sasha, sorrindo e continuou:

— Foi assim que a gente se conheceu. Eu estava triste por perder os meus pais e ela por ter deixado seus amigos pra trás.

— Isso significa que você sabe onde encontrar a planta? — perguntou Chris.

— É claro. Ela se encontra no Deserto do Namibe. Mas alguns acreditam que animais perigosos vivem naquele lugar, o que faz com que muitas pessoas sintam medo de ir até lá — parou para respirar — embora na verdade eu sempre achei que isso não passasse de meras invenções dos sobas das redondezas, para evitar que jovens chegassem perto dela por motivos frívolos.

Os Anderson olharam-se, felizes e esperançosos com a informação da Sasha.

— Então a malta vai pra África amanhã mesmo — Chris disse.

Deny acabou por entrar, ouvindo as palavras do Chris. Ele colocou sua pasta por cima de uma das mesa do bar. Caminhou para junto deles e disse:

— Uau, isso vai ser de mais. A gente vai pra África. Puxa vida, eu já disse que amo vocês?

Ele se curvou para os Anderson, com um largo sorriso entre os lábios.

Valter bufou e Chris voltou para o outro lado do Balcão.

— O que você está fazendo aqui? Não deverias estar na universidade? — Sasha quis saber.

— Sim, mas daqui a pouco será inaugurado uma loja nova de quadrinhos e livros. Eles farão um monte de promoção — e você sabe como eu adoro coisas em promoção. Principalmente quando essa coisa se chama livro.

Sasha riu.

— Bom, adoraria estar com você e falar de quadrinhos e…

— Não adoraria nada — Lúcia disse, interrompendo do outro lado do balcão, em zombaria.

— Não dê ouvidos a ela — Sasha se inclinou para lhe dar um beijo no rosto. — Mas agora eu tenho de ir, tenho algumas coisas a acertar com o pessoal do teatro, além de arranjar uma boa desculpa para justificar a minha ausência.

Ela se despediu da Lúcia e dos Anderson, e ambos abriram um sorriso pra ela.

Continua

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