Morgen – Fantasma do Passado

morgen12

Por L. Orleander

Eu não sei o que fiz de errado… Nunca entendi.

Algumas pessoas dizem que é karma de outras vidas,  e por um tempo essa me pareceu a justificativa perfeita para o que acontecerá.

Eu teria filhos, talvez filhas e se há algo que eu não iria querer para eles ou elas, seria um fardo desses para carregar por toda vida.

Imagine alguém com suas feições infantis, um você mais novo, um pedaço seu andando pelo mundo, querendo e tendo sonhos.

Imagine alguém conspurcando esses sonhos…

Ma afastar da minha família não foi a decisão mais difícil de se tomar, eu já levava nome de anti – social com onze anos, mas ninguém nunca tentou saber o real motivo.

Deus! Eu nunca me senti tão segura quando me livrei de tudo aquilo, pela primeira vez em anos eu não me sentia acuada por aquela ameaça.

No começo, me lembro de levar broncas e surras por querer me ausentar das reuniões de família, da visita aos Domingos e das idas sozinhas na casa de minha tia. Crianças não tinham vontade, não tinham voz e nem vez, e ninguém notava a mudança de comportamento ou o medo aparente de estar próximo de determinada pessoa.

Lembro – me de sentar como boa menina e calar, evitar estar só com ele e correr para longe quando ele se aproximava.

Ainda vejo aquele desejo podre e insano estampado na face dele, um bêbado velho, e me pergunto se ele tentará fazer algo com as filhas, as outras sobrinhas ou as netas, não o vejo mais e quando isso ocorre apenas aceno a distância por que  não posso evitar.

Aprendi a ter nojo de mim mesma, do meu corpo e das formas que eu ganhava com cada passar de ano, disso nasceram as mutilações, os cortes nos pulsos.

O primeiro namorado achava divertido e audaz de minha parte, as outras pessoas, que viam de fora me chamavam de estranha ou “rebelde sem causa”, acho que ali era meu primeiro pedido de socorro, mas nem eu notei.

Por causa dele, por anos, eu desejava a morte por companheira noite e dia acreditando que aquilo pararia, enquanto em minha mente bailava a lembrança da barba por fazer roçando em meu pescoço, em abraços forçados por trás.

Me lembrava das mãos entrando dentro da minha camiseta enquanto eu tentava me soltar, eu era uma criança e aquele maniaco, me roubava a inocência, eu era a culpada e deveria pagar.

Vinham os dias em tristeza e pensamentos de fuga, cartas escondidas nas gavetas dando adeus á todos. Eu era um lixo.

Não havia ninguém que pudesse me livrar ou me ajudar a apagar aquela fase, ou mesmo o agora.

Em minha mente não há amor, há apenas um interesse pelo corpo o qual corto vez ou outra na esperança de deixa – lo feio, ninguém olharia um rosto ou um corpo mutilado.

Eu vi o sangue correr pela primeira vez e a ardência me fazer parar com o corte no primeiro pulso, usei blusas para esconder e chorei me sentindo fraca e covarde por não conseguir concluir o planejado.

Era frustante acordar na manhã seguinte e saber me viva, era terrível querer gritar para a porcaria do mundo que eu estava exausta, mas eu colocava o sorriso nos lábios e olhava – me diante do espelho.

Colocava a máscara de “boa menina” uma vez mais e escondia os meus piores pesadelos das pessoas que meu coração jurava amar, enquanto o meu “eu” frágil, chorava baixinho atras da porta do banheiro ou abafava os gritos no travesseiro…

Foi só a água do chuveiro…”

Foi o fim do filme que me emocionou…”

Quantas vezes você ouviu essas desculpas e aceitou?

Esse não é o roteiro de 13 Reasons Why, é apenas a vida real que te cerca e você nunca vê…

“I’m only a man
In a funny red sheet
And it’s not easy

It’s not easy to be 
Me…”¹

 

 

 

 

¹ Superman – Five For Fighting
Sou só um homem numa capa vermelha engraçada
Não é fácil.
Não é fácil ser eu…

 

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