A Moira de Guadalupe p. 5

A Moira de Guadalupe

Por Raven Ives

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A mochila fora arrumada pouco antes do entardecer. Sob o olhar preocupado do amigo, Cibrán guardou as garrafas d’água e barras de cereais para a caminhada até o Cromeleque. Não pretendia passar o aperto do dia anterior. Gaspar insistiu para acompanhá-lo, mas o professor não queria correr o risco de a presença desconhecida afastar a moira. Não acredito que estou fazendo isso, pensou de braços cruzados, verificando se estava tudo em ordem.

— Não acredito que fará isso — disse Gaspar, como se lesse a mente do amigo. — Ainda está sob efeito da bebida ou enlouqueceu de vez? Não sabe que é perigoso andar à noite por um lugar como aquele? Você não terá a quem pedir ajuda.

— Não precisarei pedir ajuda — rebateu, sentando-se na cama para calçar os tênis. — Só preciso dessa noite para confirmar se foi invencionice da minha cabeça ou não. Voltaremos amanhã a Lisboa. Se não for… — Ele parou, respirando fundo.

— Será. Coloque isso na sua cabeça dura enquanto caminha até o Cromeleque.

Cibrán ignorou o mau-humor de Gaspar, saindo do quarto o quanto antes em busca de sua moira. A caminhada lhe pareceu mais rápida do que o normal, acostumando-se ao trajeto. Chegou a encontrar alguns turistas no caminho, que pretendiam assistir ao crepúsculo do Cromeleque. Reunidos por entre as pedras, não notaram a paciência do professor, afastado de todos. Tinha certeza que com todas aquelas pessoas por ali, não conseguiria entrar em contato com a moira.

Mesmo assim esperou, sob a sombra da mesma árvore do dia anterior, verificando as horas no relógio de bolso. Com a ansiedade, devorou todas as barrinhas que levara consigo antes que a última pessoa deixasse o Cromeleque. Olhando em volta para se certificar de que estava sozinho, foi até o ponto central do local e se ajoelhou, tirando a mochila das costas. De dentro dela, tirou uma toalha, uma garrafa de leite e um bolo, ajeitando tudo como se fosse um piquenique.

Se o recepcionista do hotel estivesse certo, aquilo poderia chamar a atenção da moira. Caso ela desejasse as oferendas, Cibrán conseguiria libertá-la e, quem sabe, faturaria o tesouro que a jovem guardara ao longo dos séculos. Enquanto a esperava, pensou em como sua vida melhoraria com um tesouro gordo em mãos. Poderia saldar suas dívidas, sair da casa da mãe para um apartamento só seu. Isso se for um bom tesouro de verdade, mas se a moira foi mesmo uma princesa, com certeza terá muita coisa, ele alisou a barba, alheio ao que se passava ao redor.

— Você veio mesmo.

A voz doce da noite anterior adentrou seus ouvidos como a melodia delicada de uma harpa. Cibrán se virou, encarando a moira do chão. O vestido branco cobria boa parte de seu corpo como um manto. As mangas se abriam em bocas largas, por onde as mãos dela passavam. Como se estivesse salpicado de estrelas, o pano brilhava nas últimas luzes do anoitecer.

— Pensei que não viria — disse ela, dando-lhe um sorriso discreto enquanto brincava com uma mecha dos cabelos ondulados.

— Então você é mesmo real — murmurou Cibrán, levantando-se. — Pensei que estivesse sonhando.

O rosto redondo da moira se iluminou sob o olhar encantado do professor, mas logo a atenção dela se voltou ao bolo e ao leite no chão.

— Pelo visto o senhor andou se informando. — Cibrán levou um tempo para compreender que ela se referia à comida, inebriado pelo perfume de canela que a moira exalava. — Uma pena que eu não deseje nada disso. Caso encontre uma moira no futuro, espere até que ela lhe diga o que deseja.

— Não foi minha intenção ofendê-la. — A moira assentiu. — Me chamo Cibrán, e a senhorita?

— Meu nome pode esperar. Acredito que, no momento, seja mais interessante que eu lhe diga o que desejo.

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