Maldade

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Por Ana C. Domingues

Ele estava embaixo de mim enquanto minhas mãos apertavam o seu pescoço magro. Suas mãos com dedos finos seguravam meus pulsos, primeiro com força, depois sem tanta força assim.

Enquanto o castanho dos seus olhos ia perdendo o brilho, o branco passava do tom de rosa claro para um vermelho intenso.
Quando suas mãos se soltaram dos meus pulsos e seu corpo parou de se mexer eu soube que ele havia ido embora e levado toda a maldade consigo.
Mais uma vez eu tinha vencido, a maldade fora embora daquele corpo, eu a havia tirado de lá. Estava orgulhoso de mim mesmo e sei que haveria mais orgulho pela frente.
O mundo era mal, mas eu daria um jeito nisso.


Era um dom, um presente dos céus, e eu tinha sido o presenteado. Que honra.
Eu olhava nos olhos das pessoas e enxergava a maldade. O mal possui várias formas para se disfarçar, mas os olhos mostram a alma, e ali disfarce nenhum chega.
Eu tinha 16 anos quando me deparei com ela pela primeira vez. Os lábios dele, do garoto, sorriam para mim, mas seus olhos diziam outra coisa, e aquela era uma mensagem tão forte que eu não tive escolha. Eu o ouvia falar mal da própria mãe que, com o maior sacrifício, o criava. A ingratidão é uma das piores formas de maldade e eu precisei pôr um fim naquilo. Planejei tudo com o maior cuidado. José era seu nome e ele havia recém chegado na cidade.
Fomos até o bosque e foi lá que tirei a maldade dele. Eu sabia que os lobos que apareciam durante a noite fariam o restante do trabalho então foi tudo muito fácil.
Primeiro a gente brigou, eu parti pra cima dele e descobri uma força que não sabia ter, mas ele também era forte, forte e cínico, a cada “o que você está fazendo?” gritado por ele, mais evidente ficavam seus olhos.
A ajuda sobrenatural que eu tinha era tão grande que uma pedra foi colocada ali, bem próximo de mim, e eu juro que ela não estava ali antes.
Ele tentou se afastar quando me viu com a ela na mão, mas eu estava obstinado e nada me faria mudar de ideia. Ele tentou correr, mas eu fui mais rápido, mais ágil. A pedra não serviu para matá-lo, mas o derrubou. Do chão ele pedia para que eu parasse, dizia não entender o por quê de eu fazer aquilo, mas seus olhos diziam tudo, absolutamente tudo. Peguei a pedra e bati em seu rosto até que o que restasse fosse apenas uma gosma nojenta e vermelha. Fiquei sentado ao lado do corpo até ouvir os primeiros barulhos. Estava na hora. Os lobos estavam a caminho.
Corri até minha casa aos prantos, afinal de contas, os lobos tinham pegado meu novo amigo. Claro que aquilo tudo permaneceria em segredo, se soubessem que eu estava incumbido de tirar a maldade do mundo, haveria perseguições contra mim.
Disse a todos que ele entrou no bosque e eu fui atrás para impedi-lo, mas quando o alcancei já era tarde demais, os lobos já o rondavam. Chorei ao relatar o seu pedido de socorro e a minha incapacidade para salvá -lo.
Agradeço aos lobos por existirem e por não me abandonarem naquele momento.
Me senti aliviado, era como se o mundo tivesse ficado mais leve.
A segunda vez que me deparei com ela eu já estava um pouco mais velho, tinha 23 anos.
Ela, a mulher, era casada e tinha um casal de filhos, tinha um bom emprego e uma boa vida, e um excelente marido, mas sempre que tinha a oportunidade levava outro homem para sua casa. Má, ela era má. Adúltera.
A peguei no parque, a coloquei no meu carro enquanto ela gritava para que eu não a estuprasse. Estuprá-la? Eu nunca me colocaria dentro daquele poço de maldade e traição. Amarrei suas mãos, seus pés e permaneci olhando em seus olhos, tentei ver resquícios de bondade, mas não consegui, por mais que ela chorasse, o mal já havia tomado conta e ali, no meu porão, eu o mandei embora. Foi bastante rápido, na primeira martelada ela não respirava mais.
Coloquei seu corpo numa vala próxima ao parque e, novamente, me senti aliviado.
É complicado saber que a aniquilação da maldade está em suas mãos, mas é gratificante quando você consegue fazer algo a respeito disso.
E eu conseguia. Eu podia.
Eu estava além de tudo o que é bom, por isso eu podia ver através do olhar, por isso esse dom foi dado pra mim.
Todo o resquício de maldade seria eliminado pelas minhas mãos.
Na minha segunda vez eu criei uma sede de justiça que só uma pessoa boa como eu poderia ter.
Desde então minha missão se multiplicou.
Os bandidos estavam por minha conta.
Os mentirosos estavam nas minhas mãos.
Os sonegadores não mereciam minha piedade.
Os pecadores mereciam a morte. E dia após dia eu ia tirando a maldade das pessoas e, consequentemente, desse mundo injusto.
Dia após dia a mágica ia acontecendo.
Eu tinha um facão que era meu grande aliado nessa batalha, nós dois adorávamos cortar as fontes de maldade.
‘O bandido do facão’ eles diziam e, nós estávamos ali sem ninguém desconfiar.
Perdemos as contas de quantas pessoas nós tiramos das garras da maldade.
Homens, mulheres, crianças, ninguém estava isento, todos tinham um coração podre e não passavam de lixo.
Eu estava feliz por estar cumprindo a minha missão com maestria. Minha vontade era de espalhar o meu empenho para o mundo, mas o mundo é um lugar tão indigno que as pessoas não me entenderiam, afinal, o mundo não via o que eu via, ele não sabia o que eu sabia.
Acordei me sentindo esperançoso, aquele dia seria a minha cartada final. Eu havia planejado tudo sozinho, e seria o maior ato de toda minha existência.
Me olhei no espelho e gostei do que vi, um homem de 30 anos, forte, independente e com dons que qualquer pessoa mataria para ter. Matar, soa até engraçado.
Não entendo os que fazem isso sem motivo, já eu tiro a vida das pessoas com uma justificativa, na verdade eu estou fazendo um favor para elas.
Preparei minha mochila com tudo aquilo que eu iria precisar.
Caminhei pela rua me sentindo forte, limpo, puro.
As pessoas que passavam por mim me olhavam de forma estranha, mas elas não entendiam a magnitude de tudo o que estava prestes a acontecer.
Cheguei ao meu destino. Respirei fundo e agradeci, novamente, pelo dom concedido a mim. Ah, como eu estava feliz.
Entrei em silêncio, ninguém olhou para trás.
Fechei a porta com o menor barulho que pude e a tranquei com meus cadeados, pelo jeito eu consegui, já que ninguém notou a minha presença.
Sentei-me no último banco e parei para ouvir toda hipocrisia que saía da boca daquele homem.
Deus? – Eu pensei – que deus era aquele que o fazia roubar em seu nome, que deus era aquele que permitia que tantas pessoas se sentassem e pregassem o amor quando, na verdade, eram tao cheias de ódio?!
Deus?! Eu era meu próprio deus, eu era dono do meu próprio destino e mostraria a todos eles o que um deus era capaz de fazer.
Eles fecharam os olhos para uma oração, peguei minha mochila e caminhei entre os bancos. Quando eles abriram os olhos tiveram um pequeno momento de choque e logo começou a gritaria.
Ah, aqueles olhares. Todos maus, todos cheios da mais pura maldade e eu ia acabar com cada um deles.
Os coloquei lado a lado encostados na parede abaixo da cruz, foi uma cena linda de se ver.
OREM AO SEU DEUS, eu gritava, E DE NADA ADIANTARÁ. O VERDADEIRO DEUS ESTÁ AQUI E É ESSE QUE VOS FALA.
A gargalhada que saia de mim era regada a cuspes e eu percebia o olhar amedrontado de cada um deles. Aquela era a cara do mal quando se deparava com o bem, porque ele sabia que perderia.
Um por um!
Eu atirei em um de cada vez.
Todos bem no meio dos olhos.
As 26 pessoas que estavam presentes naquele salão caíram uma por uma abaixo da cruz que tanto adoravam.
ONDE ESTÁ O SEU DEUS?! Eu gritei, mas não tinha mais ninguém para me responder, apenas minhas risadas.
O chão estava inundando de sangue e meus olhos inundavam gratidão.
Sentei-me no chão e me lavei com todo aquele sangue. Eu estava em outro mundo, mas as sirenes me trouxeram de volta.
Juntei as minhas coisas para sair pelos fundos da igreja.
Me deparei com um espelho que ocupava a parede toda e algo chamou minha atenção, aquele corpo sujo de sangue era o meu. Aquele rosto feliz era o meu, mas aqueles olhos não pertenciam a mim.
Enquanto as sirenes ficavam mais altas aos meus ouvidos, mais estranhos a mim meus olhos pareciam.
Larguei minhas coisas no chão e me toquei através do espelho, tentando me reconhecer.
As sirenes pararam e o som da porta sendo forçada começou.
Eu tinha um riso falso, que não pertencia aqueles olhos.
Meus olhos se escureceram, o brilho havia mudado.
Quanto mais a porta era forçada, menos real aquele momento parecia.
Ali, olhando naquele espelho, eu soube o real significado de tudo.
Eu havia me transformado naqueles que jurei aniquilar.
Eu agora era o mentiroso, o adúltero, o estuprador, o bandido, o traficante…
Eu havia me tornado em tudo aquilo que nasci para matar.
Eu era o mal.
O mal era eu e o mal estava em mim.
As portas da igreja se abriram e tudo aconteceu em câmera lenta.
Eu abaixei, peguei a arma e atirei.
Primeiro no espelho, eu não aguentava mais ver aqueles olhos no meu rosto.
Depois em mim. Na minha própria cabeça.
Quando a polícia entrou na igreja se deparou com 26 corpos.
Quando caminhou um pouco mais percebeu que eram 27 mortos.
O assassino se foi.
O homem que passou a vida toda tentando eliminar o mal das pessoas acabou por eliminar a si próprio, pois percebeu que, com a existência de um Deus ou não, com a existência do bem ou não, o único responsável pela maldade era o próprio homem e ninguém estava isento disso.
Nem mesmo aqueles que olhavam a maldade nos olhos, nem mesmo aqueles que lutavam com ela de igual para igual…

 

FIM?

 

 

 

 

 

 

 

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