A Queda

Um Conto de A.J. Perez

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O gigantesco cruzador Thunder-Flame de 5ª Geração da A.G.F. irrompeu na órbita do planeta Khaidenar VI no sistema Obalarion segundos depois de ter alcançado aceleração FTL.

Tamanha velocidade na resposta do pedido de socorro da colônia veio graças ao cruzador estar em translado a poucos milhares de quilômetros dali. Caso estivesse muito distante, precisaria se utilizar de um dos portais de transdobra-temporal para romper o espaço-tempo e chegar ali o mais rápido que pudesse como os protocolos de segurança mandavam.

Assim que a espaçonave desacelerou, os computadores de bordo trataram de liberar a crioestasis da tripulação. As comportas se abriram no instante em que a descarga de adrenalina foi injetada remotamente em todos os tripulantes, os acordando aos solavancos. Aquela era a única maneira de viajar a velocidades próximas ou superiores
à da luz e sobreviver uma vez que a radiação no espaço era demasiadamente alta.

Em baixa velocidade era aceitável, mas, quanto mais rapidamente as espaçonaves viajavam, mais radiação as atravessava. Acelerações surpreendentes como as de FTL seriam mortais a qualquer espécime biológico conhecido na galáxia até o momento. Para isso serviam as câmaras de crioestasis, que eram blindadas contra a temível radiação
que poderia aniquilar a vida em milésimos de segundo fora delas. Cogitaram blindar naves inteiras contra a radiação, porém os custos eram inviáveis e o peso dos materiais empregados as tornaria um alvo fácil em velocidade de combate. Assim, optaram por uma quantidade de câmaras de crioestasis (ou cápsulas de suspensão, como alguns preferiam chamar) suficientes para a tripulação e mais alguns passageiros extras, fora delas tudo morreria, com exceção da ala médica, que era a única zona blindada da nave fora as capsulas, por motivos lógicos.

“Atenção tripulação dirija-se aos postos de combate, frota x’henosgra’al detectada. múltiplos inimigos. sistemas de armas estão travados e prontos para dispa…”

Antes que a IA da nave pudesse terminar a mensagem, o cruzador foi atingido abruptamente, sacudindo de forma violenta. As luzes piscaram segundos antes de explodir, liberando uma chuva de fagulhas pelos corredores da Thunder-Flame. Os trezentos e quarenta e sete tripulantes foram jogados contra as paredes de forma violenta. Luzes vermelhas se acenderam e o alarme se iniciou.

Quatro toques rápidos de uma buzina eletrônica, pausa, dois bipes estridentes. O significado era claro para eles: “estamos sob fogo inimigo, o casco está avariado”.

Os soldados rapidamente se organizavam em meio ao caos dentro dos estreitos corredores, a equipe médica tentava preparar a enfermaria para receber os feridos, mas, a cada novo impacto que a nave recebia, os utensílios eram lançados com força para os lados. As luzes do complexo já não funcionavam, apenas a iluminação vermelha de emergência permanecia ativa.

O cabo Vann Greysson avançava com seus companheiros em direção à ponte de controle em meio aos corredores rubros, tentando chegar até a sala de comando. Ele era o responsável pelo sistema de escudos da nave, e, pelos repetidos sons de alerta, estava mais do que claro que eles não estavam funcionando.

Ele corria em meio à tripulação quando um duto gás no teto explodiu, lançando chamas com violência pelo corredor matando dezenas de pessoas. Ele se lançou para o corredor da esquerda quando as chamas passaram varrendo tudo que encontravam no caminho, quando acreditou que o pior havia passado, o cruzador mais uma vez foi atingido, Vann caiu e em seguida uma viga de sustentação despencou sobre ele.

Em um movimento rápido, estendeu os braços para amortecer o impacto. O peso esmagaria uma pessoa normal, porém ele não era qualquer pessoa, era um militar da A.G.F., equipado com um Suit-War, um traje de combate projetado para multiplicar a força, resistência e velocidade dos soldados. Ele usou a habilidade complementar da armadura para retirar a travessa de metal de cima de si.

Assim que se ergueu, olhou a destruição ao seu redor e todos os mortos jogados pelo chão. Procurou rapidamente com os olhos o corpo de uma jovem entre eles e ficou feliz em não encontrá-la ali. Ele mal podia acreditar que alguns minutos antes se encontrava no seu turno de folga, bebendo cerveja arguiliana e flertando com a mecânica novata que concertava um canhão de gauss.

Greysson sempre admirou mulheres que não se importavam em sujar as mãos, elas não eram do tipo “cheias de frescuras” como as demais garotas. A novata se chamava Freyah e tinha crescido em uma colônia Hasghtyana, nos limites do sistema Tounex, quase fora da jurisdição da A.G.F. Ela se orgulhava de ter seguido os passos do pai, que também havia sido mecânico da Aliança Galática Federativa, assim como ela era agora.

Enquanto o cabo e a jovem conversavam ela contou como o pai dela um antigo habitante da Velha Terra havia conseguido fugir com ajuda de contrabandistas para a colônia onde conheceu a sua mãe. Uma mercenária a serviço dos Hasghtyanos. Contou que a mãe havia morrido no parto, e quem a criara foi o pai, que para garantir um futuro seguro para ela se alistou da A.G.F. trabalhando de mecânico para a frota. Ele serviu por dezoito a bordo da Hancarock-VI até cinco anos antes, quando ele foi morto junto com toda a tripulação da espaçonave, em um devastador ataque x’henosgra’al.

A nave guinou de forma brusca. Vann foi lançado violentamente contra o teto do corredor quando a nave pareceu despencar, ele afastou os pensamentos sobre a garota de sua mente. Tinha uma missão a cumprir, ele precisava alcançar o seu posto o mais rápido que pudesse. Sua vida e de seus camaradas dependia disso.

O metal rangia, então houve um abalo seguido de um estrondo tão alto como se um raio tivesse atingido a própria cabeça dele, que imediatamente percebeu que o ar começava a ficar rarefeito. Repentinamente Vann se viu sugado por um turbilhão de ar, instintivamente ativou o elmo pressurizado para conseguir respirar. Suas mãos rasparam pelas paredes lisas do caminho que ele seguia até que ao se aproximar de uma
porta ela se abriu permitindo que ele se agarrasse com toda sua força ao marco dela.

Os músculos sintéticos da armadura rangiam como se fossem ser rompidos a qualquer momento, enquanto era sugado de forma indiscriminada para alguma fenda na fuselagem. Se não estivesse com a armadura de combate possivelmente não teria a força para se agarrar, e mesmo que tivesse era bem possível que fosse desmembrado segundos depois. Aos poucos a sucção parou e ele caiu no chão ofegando enquanto olhava ao redor, e via que todo o fogo que antes se espalhava ao redor estava apagado.

O sistema de IA era responsável por selar as anteparas e vedar áreas de descompressão, mas estava aparentemente destruído ou havia sido desativado pelo inimigo.

Greysson acreditava na primeira hipótese. Os x’henosgra’al baseavam sua tecnologia em uma energia desconhecida e ultra potente, eram de fato a raça mais evoluída que se tinha conhecimento, uma das poucas que não fazia parte de A.G.F. Os pulsos de energia eram letais a formas biológicas e eletrônicas de qualquer tipo, não havia defesa eficaz contra aquele tipo de armamento. Nem mesmo as capsulas de crioestasis seguravam as partículas dos disparos. A cada nova carga de energia disparada pelos seus cruzadores, pulsos eletromagnéticos fritavam as redes neurais artificiais nas espaçonaves da
Aliança Federativa Galática.

Eram formidáveis inimigos, temidos aonde quer que houvesse vida inteligente, suas motivações ainda eram desconhecidas, suas atitudes confusas.

Eles jamais conquistavam os planetas que atacavam, não matavam civis desarmados ou atacavam fragatas médicas. Os alvos sempre eram bases e naves militares, nos poucos combates físicos entre soldados, se algum soldado da aliança soltasse as armas eles
simplesmente o ignoravam como ignoravam os civis. Apesar desse estranho comportamento, o pânico ao ver uma frota deles eram comum.

Uma única coisa certa sobre os x’henosgra’al era uma; em combate eles quase nunca eram vencidos.

A respiração estava acelerada e densa dentro do capacete. Quando ele finalmente chegou ao elevador que levava a ponte de comando seus temores se concretizaram. Havia uma imensa fenda onde antes estava o elevador. Ele se aproximou da borda e pode ver o espaço pelo enorme rombo, agora protegido por uma especie de campo de força e logo depois dele a gigantesca esfera azul que era o planeta Khaidenar VI. Ele estava com riscos vermelhos e incandescentes em vários locais em toda sua extensão. A visão era aterradora, Greysson podia ver uma frota enorme de destroyers de guerra x’henosgra’al. Eles pulverizavam as naves inimigas e bombardeavam qualquer cruzador delas que se desacelerar próximo ao planeta.

Ficou claro que eles já estavam esperavam uma resposta, o planeta nunca havia sido o alvo primário, o verdadeiro objetivo era aniquilar as frotas da A.G.F. a frota havia caido em uma armadilha.

Ele tentou visualizar a ponte de controle, e conseguiu. Estava completamente destroçada ao menos o que restara dela.
Ele esbravejou e finalmente quando recobrou a sanidade decidiu correr de volta ao setor de carga, ele precisava dar o cair fora dali o mais rápido que pudesse. Sem a ponte de controle a nave estava perdida.

Se dirigiu pela escaria ao sul, podia sentir a espaçonave se inclinando cada vez mais. As vezes ele notava a gravidade artificial oscilando. Tinha de chegar a zona de carga e usar um dos módulos médicos para escapar com vida. Com a ponte de controle totalmente destruída ele não tinha outra saída além dessa, o cruzador estava sobre fogo inimigo
a deriva, orbitando um planeta sitiado e possivelmente logo seria atraído pela gravidade dele e mergulharia em chamar se colapsando e desfazendo até atingir o solo em um colossal impacto gerando uma explosão nuclear de proporções titânicas. Eles estavam condenados.

Depois de cruzar pelos tortuosos corredores da nave encontrou a entrada da área de carga colapsada, mesmo com o Suit-War seria muito demorado transpor a barreia. Greysson retornou um andar a cima e seguiu pelo túnel baixo, até chegar ao poço de um elevador eletrônico, a mão envolta na manopla tecnológica agarrou a grade de segurança e a lançou dentro do fosso, ele viu o elevador em chamas dezenas de metros acima. Ele acessou o painel de controle da armadura e aumentou a potência do salto, conseguiu pular do outro lado e se agarra a parede usando as vigas internas como apoio. Olhando alguns metros a baixo se lançou no vazio caindo abaixado no fundo do fosso.

As armaduras possuíam um sistema antisinético que não lesionava os usuários até certos
graus de impacto.

Outra explosão se ouviu e toda a nave estremeceu, em seguida outra e mais outra, o ataque aparentemente havia recomeçado por algum motivo, os ruídos dos disparos de energia penetrando a nave dissolvendo tudo em seu caminho, como uma sinfonia macabra de morte e metal derretido.

Ele disparou em uma corrida frenética da área do elevador a tempo de ver a caixa metálica se chocando contra o fundo e explodindo em seguida.

A estrutura estalou alto dando outro solavanco e a nava começou a se inclinar, mas dessa vez, Vann percebeu que não haveria retorno. A gravidade do planeta os havia pegado.

Correndo entre o imenso setor de carga e descarga ele olhou ao redor, várias naves e módulos já haviam decolado, provavelmente alguns teriam conseguido se livrar dos disparos da frota inimiga, e explosões. Ele pensou em Freyah, e se agarrou a ideia de que ela havia conseguido escapar, embora tivessem passado alguns poucos dias juntos ele realmente tinha gostado dela.

Houve um estrondo, o chão inteiro trincou, e começou a se partir, explosões violentas tomaram a nave, destroços voavam em todas as direções quando ele finalmente alcançou um modulo de fuga médico que havia ajudado a garota a concertar naquela mesma manhã. Ele o ativou, e antes mesmo de o fechar ou colocar o cinto o portão do convés se rompeu e tudo foi sugado com violência para o vazio do espaço. Ele se
agarrou a única cadeira da cápsula individual ainda do lado de fora dela, enquanto a estrutura girava em alta velocidade saindo da espaçonave direto para a zona de combate.

Um Goliahs, uma unidade de combate terrestre blindada, acertou-o  em cheio quase o lançando para longe do módulo.

Os nervos do braço esquerdo dele se distenderam, e a armadura cibernética foi avaria com o impacto, tamanha havia sido a força dele. Com um esforço final ele conseguiu entrar e se amarrar com o sinto no modulo o fechando.

Pelo visor oval do modulo ele viu o cruzador Thunder-Flame se partir ao meio explodindo assim que entrou na atmosfera do planeta Khaidenar VI. Ele já começava a sentir o tremor da reentrada quando o vidro foi recoberto pela capa de blindagem ativada automaticamente pelo detector de calor.

Greysson usou os instrumentos para manobrar o melhor que pode, dentando deixar o modulo na posição correta, as luzes do painel acenderam, e ele puxou a alavanca abrindo os flapes de freagem, em seguida outra luz verde se acendeu e ele liberou a carga da turbina reduzindo violentamente a velocidade, ao final com combustível automaticamente o paraquedas se abriu. E depois alguns segundo veio o choque contra o solo. A capsula rodou, e se bateu dezenas de vezes até parar, os exaustores e braços mecânicos se moveram deixando ela na posição ideal em comparação ao terreno para que ele pudesse sair.

Não havia detecção de água ao redor do modulo. Ele estava em terra.

Assim apertou o botão de saída e a parte superior da capsula se abriu. Cinzas desciam do céu, ele surgiu de dentro do modulo e observou em volta, quilômetros ao longe uma imensa detonação nuclear podia ser vista no horizonte.

Uma pequena cidade próxima estava igualmente em ruínas, uma grande nave de combate da A.G.F. havia caído sobre ela a pulverizando. Acima dele onde se podia contemplar o céu haviam inúmeras explosões. O resto da frota da A.G.F. Havia chegado, agora era esperar pelo fim do combate. Ele estava salvo, então se pegou pensando na jovem Freyah, e aonde teria sido sua queda.

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