Dia 23… – Amigos

23

Por L. Orleander

Confesso que fiquei tentada a dar um passo adiante, mas J. P parece ter tido a mesma idéia.

Os lábios dele tocaram os meus e algo em mim rugiu ferozmente, gritando para fugir dali e correr o máximo que eu podia, era a sua sombra se avolumando sobre mim novamente. Me afastei delicadamente e ele apenas sorriu um riso confuso, me pedindo desculpas.

Eu acariciei o rosto dele de leve, enquanto ele deitava a cabeça na minha mão, me lembrando Netuno, de olhos fechados, a mão sobre a minha, ali ele repousou um beijo. Me perguntei quantas vezes desejei que você tivesse feito isso, mas não fez.

Eu vou embora, já está meio tarde…” – sussurrou ele como se contasse um segredo.

João Pedro se levantou e fiquei ali ainda alguns segundos tentando realocar as coisas em seu devido lugar.

Fica…” – foi a única palavra que saiu da minha boca, ele não pestanejou. Sentamos na cama e assistimos um filme que eu se quer lembro ou sobre o que era e acho que ele também não, contamos das mudanças, dos novos e velhos amigos, dos amores mal fadados, (ele quase se casará no ano anterior, mas a noiva desistiu), da perca de contato, ( a mãe dele era a responsável, pra variar).

Ela ainda não gosta de você.” – ele me disse rindo.

O frio da noite começou a se fazer presente e já era tarde quando ele se levantou pra sair, eu cochilava ao som de alguma sonata antiga que tocava na televisão, embrulhada no edredom.

Segurei a ponta dos dedos dele e me lembrei de quando dormíamos um na casa do outro, o pai dele sempre deixava, apenas pra contrariar a mulher, a qual ele chamava carinhosamente de “jararaca”, eles se separaram logo após a formatura de J. P.

Uma noite quando estávamos na casa dele começou uma tempestade e o raio acompanhado do trovão o fez correr para a cama do lado, junto comigo. Ele deitou – se de costas pra mim e entrelaçou os dedos nos meus, eu sentia falta dessa parte da minha vida, dos segredos compartilhados, das experiências absurdas e dos romances que sempre terminavam mal, afinal de contas a maioria era platônico.

J. P deitou ao meu lado exatamente como fazíamos quando criança, e ali eu me senti protegida, ele tinha essa aura. Sempre teve. Meu porto seguro.

Bons sonhos, Mari…” – não demorou muito para que meus olhos se fechassem.

Acordei com uma claridade ínfima adentrando o quarto, ao lado da minha cabeça, uma ramo de lavanda e o sorriso dele me vigiando.

Bons tempos aqueles…” – eu apenas balancei a cabeça em concordância.

Nos dias que se seguiram, todas as vezes que me foi solicitado comparecer a empresa, além das reuniões e das explicações sobre o layout e como ele poderia atingir o público e o trabalho na pesquisa física, ele me acompanhava, dizia que não estava fazendo nada mesmo.

Sr. Halliwell foi muito cortês quando nos conhecemos e me disse ter uma filha na minha idade, ele me lembrava um Papai Noel fora de época, e todos pareciam gostar dele, a educação e o bom  humor em pessoa. Ele me mostrou os números esperados com a venda do produto, e como manteria o foco na propaganda para que ela atraísse devidamente o público alvo. Phil, como preferia ser chamado, tinha ideias brilhantes e fez mais alguns esboços sobre o layout que acabou ganhando uma nova forma, e tudo foi feito lá mesmo com o matéria que nós levamos do Brasil, um pouco do meu conhecimento e o pessoal do Phil, que assistia a cada parte do processo como uma criança esperando um presente.

Tinha ficado lindo, e eu me senti realizada. A parceria deu muito certo e como ele mesmo disse, nos veríamos em breve, a nossa empresa havia conseguido realizar pra ele algo que outras já haviam tentado, mas sem sucesso.

J. P estava radiante por mim, que finalmente começava a desfrutar em partes dos pontos turísticos da cidade. Por Cambrigde eu já havia passado assim como pelo Boston Commom. Agora eu iria ao Prudential Observatory, indicação de Hortência, e honestamente não me arrependi.

Vi a noite chegar em seus tons arroxeados e era um encanto tudo aquilo, estávamos no 50°, no Skywalk e a visão de uma Boston ao anoitecer se estendia diante de mim como um tapete multicolorido de luzes, era um sonho. João Pedro nada falava, apenas colocou as mãos no bolso e sorriu, seus olhos brilhavam. Dei – lhe o braço e ficamos ali, calados. Assistindo o que para mim foi o pôr de Sol mais lindo que eu já havia visto.

Por mais incrível que pareça só passei a dar atenção á esses pequenos detalhes quando iniciei a terapia. Fiquei me perguntando naquele momento quantas coisas lindas eu já havia deixado passar diante de meus olhos.

No dia seguinte fomos ao New England, o aquário, me apaixonei pelo hospital de tartarugas e o tanque com águas – vivas, elas podem sim ser traiçoeiras, mas sempre tive esse amor por esse animal, acho que nunca mencionei isso. J. P havia se apaixonado pela Biologia Marinha, curioso nato, lia cada placa, cada especificação de espécie, fosse com os peixes ou com os pinguins, ele me fazia sorrir o tempo todo e não pedia nada em troca, era maravilhoso ver toda aquela beleza com alguém que eu amava.

Contei para minha mãe a noite, e ela ficou muito feliz, eles conversaram por um bom tempo e vi que acabou a conversa quando ele disse que cuidaria de mim.

O beijo não aconteceu mais, embora tenhamos criado o hábito de dormirmos um no quarto do outro, nós sabíamos que não era nada de mais e que aqueles hábitos eram nossos, sempre nossos, por toda vida e além dela, e era isso que nos importava, sanar o tempo que ficamos longe.

Ana quase pirou quando viu as fotos no Insta.

João era o meu melhor amigo e isso ninguém podia mudar…

A viagem de volta foi marcada, eu voltaria ao Brasil sozinha, ele ainda ficaria mais uns dias, mas prometeu me visitar assim que saísse do avião e então poderíamos sair com Ana e reunir o trio novamente, para tristeza da mãe dele… Rs

Cheguei em casa no Sábado a noite e não avisei a ninguém que estava de volta. Fui recepcionada por ninguém menos que Netuno, sentado em meu sofá, para minha alegria ele veio se enroscar nas minhas pernas,

Molhei a orquídea e olhei nossa foto na mesinha, acariciei a foto como se ali ainda existisse algum pedaço seu e me senti apenas passando os dedos num pedaço de papel, abri o porta retrato e tirei – a de lá, coloquei – a na caixa de lembranças e liguei o rádio, precisava de um banho.

Pensei sobre tudo o que havia acontecido e me lembrei daquele fatídico dia, meu coração doeu e chorei como a muito tempo eu precisava ter feito.

Depois de sair da minha casa naquele dia, você desligou o celular. Eu tentei sem sucesso e pensei em ligar para sua mãe, mas optei por desistir dessa ideia. Algo em mim dizia que estava errado, que alguma coisa ruim ia acontecer. Acordei na manhã seguinte com o lençol sujo de sangue, por causa do dedo cortado e o celular tocando.

Era sua irmã, ainda me lembro de ouvi – lá me pedir calma e o celular cair ao chão, eu não queria ouvir e nem acreditar que a noticia que ela me dera era verdadeira. Era alguma brincadeira de mal gosto para me punir pelo excesso de raiva da noite passada, só podia ser.

Sai de casa feito louca para o hospital, cheguei a tempo de ver os médicos tentarem te reanimar. Lembro da sua mãe cair de joelhos e Tânia, sua irmã consola – lá, as lágrimas verteram dos meus olhos, enquanto ela voltava a se reerguer e apontar o dedo na minha direção. “- é sua culpa, vadia!”. As palavras dela me soaram feito um tapa, eu sequei o rosto e saí de lá, como se você nunca houvesse existido. Aquele não era o meu lugar. Não fui ao enterro e os únicos que se preocuparam foram Ana e Paulo, que me disse que a culpa não era minha, você havia bebido e tinha causado o acidente”.

Passei a mão pelo cabelo algumas vezes e senti minha alma lavada em meses, minha vida estava seguindo em frente e agora eu percebia isso. Eu tinha amado você, da forma errada, mas tinha, agora era hora de te dar adeus, o celular tocou longe e pelo som era Carlos que ligava.

Em minha cabeça ainda soava o eco da voz de Tânia, “preso as ferragens, o estado dele é grave, ele pode morrer…”

 

21:33 Hs – Sábado – São Paulo – SP…

Mari…

CONTINUA…

 

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