Um Vulto na Água

51Por Gabriel Antoun

Muito pouco se sabe sobre o caso. Uma infinidade de perguntas sem respostas envolvem o que muitos consideram meramente um devaneio. O pouco que se sabe é considerado lenda e é contado e repetido pelos cantos mais remotos dos vilarejos sem que nenhum crédito devido seja dado.

Ao me mudar para o vilarejo de São Jorge, interior de Goiás, há aproximadamente 4 anos, percebi que a monotonia do lugar sempre fazia com que os moradores procurassem motivos para se encontrar e debater as mais recentes fofocas. Isso era o que os mantinham próximos e entretidos. Além dos rotineiros e frequentes viajantes que eram atraídos para os espetaculares pontos turísticos e que sempre causavam risadas, entre um trago de cachaça e outro, por possuírem hábitos, sotaques e principalmente roupas tão diferentes dos que ali moravam.

Ao longo dos anos escutei incontáveis vezes as mesmas piadas, nem sempre engraçadas, mas que quando se escuta dezenas de vezes, acabei aprendendo a rir. Causos de brigas, cobrança de dívidas, caçadas e excessos de álcool também faziam parte do repertório. Mas nenhuma história era mais contada que a do vulto de Santa Rosa.

Sabe-se que, dentre todos os contos folclóricos da região, o mais repetido é sempre esse, que é contado em volta de fogueiras ou atrás de pesadas mesas de madeira nos bares da redondeza.

Apesar do tom quase sempre não-sério, nada removia o olhar grave quando o assunto surgia na presença de algum dos mais antigos moradores. Independente de como a história era contada, e/ou o tom empregado, as feições graves e preocupadas dos avôs e avós fazia com que os que contavam em tom de comédia sentissem vergonha de estar fazendo pouco caso de um acontecimento tão marcante na vida dos moradores do vilarejo e toda a região ao redor.

Inúmeras vezes participei de conversas onde a história foi narrada e presenciei o deboche de muitos e olhar de reprovação de poucos.

Eu, apesar de muito apegado ao materialismo, considero com crença vigorosa a possibilidade quase comprovada da existência de um universo extra, inexplicável e incompreendido por mentes meramente humanas. Dezenas de casos que sempre são encarados como crendices, desde sempre levantaram meu interesse e, sempre que possível e quando existe algum viés que possibilite uma pesquisa, procuro explicações que, em sua esmagadora maioria, apontam para o lado científico e pragmáticos.

Essa história em particular me levantou acentuado interesse pelo misto de verossimilhança e mistério que carrega.

Não quero aqui ser juiz de nada, nem muito menos expressar qualquer tipo de opinião. Pretendo simplesmente reproduzir a história e os acontecimentos, me atendo somente aos fatos e nada mais.

A lenda local aponta a existência de uma cachoeira maldita no vilarejo de São Jorge em Goiás, onde há aproximadamente meio século atrás, banhistas sistematicamente começaram a desaparecer após visita-la. Nunca houve uma prova concreta nem relação direta entre a dificuldade de cursar a trilha, a cachoeira e os desaparecimentos. Mas o sabido é que pessoas a visitavam e não voltavam. Todo o assunto sempre fora abafado pela ausência de rastros que comprovassem a tese e pela polícia, que nunca encontrara nenhum vestígio sequer dos visitantes. O mais crível era que os turistas que desapareciam tenham se aventurado para fora da trilha e acabaram se perdendo, andando quilômetros para longe do caminho, apesar de claramente demarcado.

A ideia de que a culpa era dos turistas ousados era firme e factível. Se sustentou por muito tempo. O suficiente para que os moradores mais experientes tomassem coragem de voltar a guiar turistas até lá. Foi assim até o dia em que um experiente guia local, conduzindo um grupo de 3 estrangeiros, prestou uma visita à tal cachoeira e não voltou. Nenhum deles.

O choque do desaparecimento do guia foi grandioso para o vilarejo. O que até então era considerado meramente um descuido dos visitantes passou a ser encarado com muito mais seriedade. Jamais imaginariam que um antigo guia poderia se perder de forma tão leviana.

O sumiço fez com que a cachoeira fosse dia a dia menos visitada. Sozinhos ou conduzidos por um guia, seja esse novato ou experiente, as visitas foram reduzidas a quase zero. Mesmo assim, a descrença e teimosia dos ainda frequentes visitantes, fez com que a trilha que levava à fatídica cachoeira continuasse a ser percorrida eventualmente. Inevitavelmente, esses visitantes nunca retornaram.

Ao todo já eram mais de uma dezena de desaparecidos. Dentre estes um antigo e experiente guia.

Ainda assim a vida seguia rotineiramente como sempre, mesmo tempos depois de o boato da existência da cachoeira que “quem vai não volta” ter se espalhado para fora do vilarejo.

Certo dia, alguns moradores de São Jorge que ocupavam mesas do lado de fora de um bar próximo ao armazém local, percebem uma pessoa cambaleante e trôpega vindo na direção deles. Tratava-se de um andarilho. Claramente um turista. Sua roupas estavam imundas e seus pés descalços carregavam os diversos ferimentos que são causados em quem anda por muitas horas na mata sem proteção. Tremia muito e mal conseguia formar uma frase de tão assustado. Após ser convidado a se sentar para se acalmar, começou a relatar o que houve. Contou que estava percorrendo uma trilha e que se perdeu. Ficou horas andando em círculos até se declarar perdido. Seus chinelos arrebentaram e sua água acabou. Andou por cerca de 8 horas ininterruptas. Até que finalmente encontrou um caminho um pouco mais demarcado, um resquício de trilha. Seguiu por ela e chegou numa clareira, às margens de um grande poço de uma cachoeira. Pela descrição, os locais imediatamente reconheceram como a cachoeira de Santa Rosa. O alarde foi imenso. Tratava-se da primeira pessoa que tinha visitado a tal cachoeira e voltado, mesmo que sem intensão e seguindo a trilha no caminho oposto. Graças ao que os moradores consideraram misericórdia divina, conseguiu completar a travessia em relativa segurança. Uma enxurrada de perguntas foram feitas em vozes cada vez mais altas. Todos queriam entender como tinha sido possível e o que o andarilho tinha visto que o assustou daquela maneira. O falatório foi tamanho que o dono do estabelecimento, senhor Odair, sai dos fundos da mercearia e se aproxima do grupo. Rapidamente, percebendo que o rapaz estava a beira de desfalecer, dá fim àquele interrogatório descabido e, passando os braços sobre os ombros do rapaz, o leva para um lugar mais reservado, longe daquela turba inquisidora. Após alguns copos de água com açúcar e uma boa dose de aguardente, o rapaz começa a descrever o que viu. Disse que o torpor pela falta de água e o alívio de encontrar uma cachoeira tão farta o fez sair da trilha em direção às margens sem nem pensar. Porém, ao se aproximar, percebeu que havia alguma coisa se movendo nas águas. Ficou alguns segundos tentando focalizar para tentar identificar o que era. Não tinha plena certeza se realmente via alguma coisa ou se era algum devaneio causado pela desidratação. Olhou ao redor para ter certeza que ainda possuía todas as faculdades mentais necessárias para poder identificar o que era real e o que era delírio. Contudo, a nitidez do que estava vendo, somada à estonteante translucidez das águas, não permitiram lugar para dúvidas, independente do surrealismo que aquela forma em movimento pudesse sugerir. Contou que era uma figura comprida e larga, que nadava com muita desenvoltura por debaixo das águas. Era branca como leite e possuía uma comprida cauda, similar a uma nadadeira traseira para auxiliar no deslocamento aquático. Mais parecia um enorme peixe, com uns três metros de comprimento. Nadava despretensiosamente como que por entretenimento. Ao perceber que aquilo não era similar a nenhuma espécie animal que tenha visto, mesmo que por fotos, foi tomado por um medo congelante que o paralisou. Sua dormência só teve fim quando percebeu que o ser nadou em sua direção e desapareceu debaixo da pedra onde o rapaz estava. Imediatamente virou as costas e correu trilha abaixo, só parando quando estava de frente para o bar onde foi acolhido pelos moradores.

Senhor Odair ouviu cada palavra sem interromper o relato. Seu olhar enigmático assumiu um misto de surpresa e certeza. Convidou-o para pernoitar em sua casa. O jovem aceitou de imediato agradecendo muito e prometendo que no dia seguinte, assim que o galo cantar, partiria.

Muito se falou sobre o acontecido no dia seguinte. E o fato de que tenha acontecido novamente com um turista fez com que alguns poucos moradores se munissem da certeza de que não era nada, que se tratava de mais um viajante tolo que apalermadamente se perdeu e que por frouxidão começou a ver coisas.

Dois dias depois, um jovem morador inflado de parva coragem pelo “sucesso” do andarilho, decide, por conta própria, visitar a cachoeira. Mesmo após todos os amigos declinarem a juntar-se a ele nessa empreitada, ele segue rumo em direção ao local dito como maligno, contrariando todos os alertas. Algumas horas depois ele retorna. Ofegava muito como se tivesse corrido por muito tempo sem descanso. Estava em um estado letárgico similar ao do andarilho, porém ainda mais perturbado. Ao contrário do andarilho, que tinha a capacidade de fala bloqueada pelo medo, este falava profusamente, absolutamente sem nenhum nexo. Suas frases não se completavam. Só era possível captar palavras soltas como “monstro”, “bicho descorado” e “olhando”. Dessa vez não houve perguntas. Tudo que fizeram foi chamar novamente senhor Odair para cuidar do rapaz.

O rapaz contou ter visto um vulto esbranquiçado como leite se movendo pelo fundo das águas do poço da cachoeira e que fugiu correndo quando o vulto parou relativamente perto. Dizia ter certeza que a coisa estava olhando pra ele. A conversa com senhor Odair foi curta. Um olhar severo e grave toma conta de seu semblante e ele quase que imediatamente se levanta e, sem falar nada, sai do quarto, deixando o rapaz sentado sozinho na mesma cadeira que dois dias antes tinha sido ocupada pelo turista perdido.

Na mesma tarde Odair prepara sua caminhonete e parte sem dizer onde ia sob o olhar amedrontado de todo o resto do vilarejo. Ele era sem dúvida nenhuma um dos mais antigos moradores do vilarejo. Sua família tinha sido uma das fundadoras da vila. Por esse motivo, sua reação preocupou os outros moradores.

Ao chegar próximo da placa que indicava Alto Paraíso, a caminhonete vira a esquerda e segue a estrada que liga Brasília a Tocantins em alta velocidade. Uma outra placa enferrujada com uma seta indicava o caminho para o vilarejo de Cavalcante. A caminhonete então via à esquerda e segue.

Fundo no interior do vilarejo de Cavalcante, quase oculto pelo serrado e estradas esburacadas, fica o quilombo Kalunga. O povo Kalunga vive naquelas terras há séculos. Seus ancestrais chegaram ali após milhares de quilômetros percorridos a pé, há muitos e muitos anos atrás. Se havia alguém que pudesse dar luz ao que estava acontecendo, era o ancião Kalunga Joseli, mais velho de todo o povoado.

A chegada repentina de uma caminhonete em alta velocidade sobressalta a todos mas rapidamente percebem não haver nenhum perigo ao avistarem o velho no volante. Odair solicita a presença de Joseli que, acompanhado de outros líderes Kalunga, prontamente atende ao chamado.

Após esclarecida a visita repentina e contada a história nos mínimos detalhes, os Kalunga mais velhos contaram sobre as lendas antigas de seres que rondavam toda a região da chapada. Não se sabia de onde vieram nem onde se escondiam. Havia até quem duvidasse que os seres fossem desse planeta. Outros diziam ser uma mutação ou algo do gênero. A figura já tinha recebido alguns apelidos como “o desbotado”, “diabo-pálido” e “verme descorado”. Diversas foram as situações onde eles foram avistados. Quase sempre nos arredores de alguma grande cachoeira ou catarata, com grande volume de água em queda livre e amplo poços.

Ninguém sabia por que razão esses seres vagavam pela região, de cachoeira em cachoeira. Eram sempre vistos de longe pelos moradores que, ao relatarem o que viam, viravam motivo de piada ou ganhavam a alcunha de “pau-d’água” ou “bêbado”. De fato os Kalunga eram grandes apreciadores da água-ardente que eles mesmos produziam com primor e qualquer comportamento fora do padrão, como avistar grandes seres esbranquiçados nadando no poço das cachoeiras, era imediatamente atribuído à ingestão excessiva de álcool.

Os mais místicos diziam saber o porque da presença dessas anomalias nos arredores do quilombo. Explicaram que todo o povoado Kalunga, assim com as vilas de Cavalcante, Alto Paraiso, São Jorge e outros povoados, foram construídos sobre uma enorme placa de cristal. Uma gigantesca chapada sobre um maciço de pedra translúcida e cristalizada. E, segundo os Kalunga mais espiritualizados, essa região emana uma grande quantidade de luz e energia que não podiam ser captadas e compreendidas por nenhum ser humano, mas que por alguma razão levantou a curiosidade desses outros seres, que foram atraídos para a região.

Disseram que não havia muito mais o que pudesse ser falado. Já estavam aqui há muitos e muitos anos. Muito antes do quilombo Kalunga ser fundado. Ao longo dos anos, e após muitas incursões nas cachoeiras mais remotas, foi possível traçar um perfil desses seres. Sabia-se que moravam sob as águas, e que apesar de serem capazes de viver durante muitos anos e possuírem uma força descomunal, eram pouco evoluídos. Dizia-se que na presença de qualquer luz forte, eles se sentiam atraídos e perdiam a ação como em uma hipnose contemplativa. Alguns diziam que se alimentavam dos fótons. Outros falavam que eles simplesmente veneravam a luz, pois não havia nada parecido no planeta de onde vieram. Mas todos concordavam que essa era a razão que os trouxe para a região da chapada. A luz.

Ao longo de muitos e muitos anos, apesar do medo e respeito, tiveram uma convivência, digamos, pacífica. Poucos de fato haviam avistado os seres. E conforme o tempo foi passando, cada vez menos falavam disso. Nunca houve nenhum incidente de contato direto ou de ameaça contra quem que fosse. Eram considerados figuras folclóricas, lenda local que ao longo dos anos foi sendo esquecida e deixada de lado.

Os sistemáticos desaparecimentos na cachoeira de Santa Rosa e o relato dos dois que por lá passaram, levantaram a desconfiança dos mais antigos. Tudo indicava que as antigas bestas, os Desbotados, ainda estavam nos arredores. Presumiram que por alguma razão os seres estavam capturando os andarilhos. Isso era uma perturbadora novidade, uma vez que nunca antes haviam estabelecido contato físico. Porém agora pessoas estavam desaparecendo.

Pelo perfil que atribuíam aos seres, não havia razão para que ferissem a bel prazer as pessoas que teoricamente tinham capturado. Nunca demonstraram razão para que cressem nisso. Mas da mesma forma que estavam sendo audazes e cruzando a linha da simples “convivência pacífica”, podiam agora ter outros interesses para com os vilarejos.

Por conta dessa dúvida e da possibilidade de ainda encontrarem os desaparecidos vivos, uma expedição é organizada até Santa Rosa com um caráter de averiguação, resgate e conclusão de caso.

Quatro homens, liderados por Joseli, antigo líder Kalunga e quinto integrante da comitiva, subiram trilha acima em direção a cachoeira. Portavam armas de fogo e facões. Joseli carregava uma pesada lanterna.

Percorreram a trilha que já começava a ser tomada pelo mato por conta da quase nula presença de pessoas. Após uma hora de caminhada, chegaram então à cachoeira. O lugar era espetacular. Uma grande poço de águas cristalinas onde era possível ver o fundo nas áreas mais rasas e delimitar perfeitamente o mapa de pedras submersas. O poço possuía formato relativamente oval. Do lado oposto do caminho por onde chegaram, uma queda d’agua densa, que rolava de uma alto paredão rochoso. Se aproximam da margem para ter uma visão mais ampla. Não havia nada nas águas. Sem saber então como prosseguir, decidem percorrer os arredores das margens em busca de alguma pista. Por alguns minutos circundaram o poço, sempre com os rifles em riste, prontos para disparar ao menor sinal de perigo. Após debaterem um pouco, concordaram que parecia haver uma reentrância nas pedras logo atrás da forte cortina d’agua formada pelas águas que caíam. Decidiram que iam tentar chegar até lá, tomando todo o cuidado para não deixar que os rifles se molhassem muito e perdessem seu poder de fogo. Conseguiram então, percorrendo a margem pelo lado esquerdo e pulando de pedra em pedra, chegar ao lado da queda d’água. Definitivamente havia uma reentrância. O eco provocado pelo rugido das águas não os deixavam se enganar.

Passando por trás do forte véu de água, vislumbraram um pequeno caminho, com pouco mais de 1,50 de altura, que permitia o deslocamento caso fossem encurvados e agachados. Entraram.

Andando pouco mais que 1km montanha a dentro num corredor úmido e escorregadio, começaram a sentir correntes de ar e perceberam que o túnel estava mais espaçoso. Já podia caminhar sem ter que se curvar.

Após mais alguns metros, viram que estavam nos últimos passos do túnel e puderam ver um fortíssimo clarão vindo do caminho adiante. O que encontraram ao caminhar os metros finais foi totalmente indescritível. Era um enorme salão amplamente iluminado pelo brilho de infinitos cristais que revestiam as paredes e teto da uma câmara subterrânea. Era maravilhoso. Incontáveis cristais dos mais diversos tamanhos e formatos decoravam o lugar de uma forma esplêndida. Havia um facho de luz vindo de um lugar que não conseguiram determinar mas que, mesmo sendo uma minúscula nesga era o suficiente para iluminar todo o gigantesco cômodo por conta da cintilação da luz sendo rebatida e passando por entre os incontáveis cristais. Parecia uma sala de tesouro dos reis dos antigos contos árabes.

Mas alguma coisa não estava certa. O lugar possuía um cheiro forte de decomposição. Podia ser pela ausência de correntes de ar contínuas, somado ao musgo e umidade de milênios. Mas era mais que isso. Em meio aos olhares embasbacados de toda a comitiva, Joseli consegue reparar em um detalhe que os outros não repararam. Do lado oposto à entrada, havia uma estrutura feita de alguma material totalmente diferente de todo o resto da caverna. Enquanto as paredes da caverna brilhavam muito, este móvel não tinha nenhum reflexo sequer. Era opaco e acinzentado. Sobre eles estavam pedaços remexidos de alguma coisa que não conseguiu identificar.

Faz então um sinal que tira os outros do transe, e aponta para aquela curiosa construção arcaica. Todos então começaram a caminhar pela superfície pontuda da caverna. Conforme iam caminhando, perceberam que o solo não era uniforme. Haviam diversas pontas de cristal como estalagmites, e muitas poças de água. Essas poças eram na realidade fendas no solo, como pequeninos lagos que faziam com que algumas ilhotas cristalizadas fossem formadas. Em algumas partes parecia ser bastante fundo.

Foram caminhando até outro lado da caverna que parecia ter uns 100m de diâmetro e era relativamente circular. Havia uma única reentrância do lado esquerdo, mas de onde estavam não tinham ângulo para saber se era um novo caminho ou apenas uma irregularidade no formato do local. Atravessando a galeria, um dos integrantes da expedição solta um grito que ecoa pelo cômodo vazio. Disse ele ter visto, eu achado que viu, alguma coisa se mexendo nas águas profundas. Todos se entreolham mas decidem continuar avançando.

Com alguma dificuldade chegam ao outro lado. Se viam agora de frente para a estrutura que viram ao entrar na câmara. A tal estrutura era similar à uma mesa. Não era de madeira, nem pedra, nem cristal. Joseli toma a dianteira e começa a analisar o que estava a sua frente. Mas antes que pudesse perder mais tempo tentando decifrar a composição daquele móvel, uma náusea fortíssima, como um soco no estomago o refreia ao vislumbrar o que estava sobre a rudimentar mesa. Era um remexido de vísceras e outras coisas viscosas. Pareciam órgãos de um grande animal, removidos cuidadosamente e organizados de uma forma semi cientifica um ao lado do outro. As mais diversas formas, cores e texturas. Esferas vermelhas outras esverdeadas, algumas acinzentadas, metros e metros de um cordão fibroso que pareciam ser intestinos. Todos organizados em grupos de forma sistêmica.

O pavor fez com que todos se entreolhassem. Todos exceto Joseli que olhava fixamente para frente e ligeiramente para o alto. Haviam cérebros fincados em estacas presas na parede. Era uma visão horrenda. Parecia um grande laboratório. Um outro integrante da comitiva chama a atenção de Joseli e aponta para o teto da caverna. Lá estavam, perdurados em algum tipo de corda, diversos corpos. Provavelmente das pessoas que desapareceram nas redondezas da cachoeira. Uma babel horripilante. Era extremamente difícil identificar os corpos. Não conseguiram sequer definir quais eram homens e quais eram mulheres. Eles pareciam estar murchos, derretidos. Foi ai então que repararam que eles estavam daquela forma pois seus ossos haviam sido removidos. Eles estavam ali pendurados como se estivessem secando com algum objetivo sórdido. A visão era abominável. Foi então que, ao virar-se novamente de frente para a estrutura, Joseli percebe que a mesa onde os órgão estavam dispostos fora construída a partir dos próprios ossos das pessoas que pendiam do teto. Pôde ver claramente fêmures formando as bases da estrutura, costelas entrelaçadas com colunas formando o tampo e outro ossos menores se misturando num quebra-cabeça complexo e mórbido.

Alguma criatura capturava pessoas, provavelmente as afogavam, retiravam seus ossos para construir sua mesa de estudos onde pousavam os órgãos cirurgicamente removidos e prendiam seus cérebros em outras estacas de ossos em frente, um pouco acima, das mesas. Havia um padrão. Aparentemente o cérebro correspondia aos órgãos que ali estavam, que por sua vez rechearam os mesmos ossos que agora serviam de anteparo. Haviam 12 seções totalmente simétricas. 12 pessoas mortas e dissecadas.

Toda aquela cena era incoerente demais. Bizarro demais para ser entendida. A comitiva já muito alardeada percebe que não há nada que possa ser feito ali, o melhor seria voltar imediatamente. Os quatro companheiros começam a se encaminhar à saída, mas Joseli se demora mais alguns poucos segundos mirando aquela mesa funesta, sem conseguir acreditar. Só desvia o olhar após ouvir um barulho de algo pesado se movendo pelas águas e perceber que seus companheiros de comitiva não estavam mais lá. Considerou assustado que eles podiam ter fugido e o deixado ali sozinho. Porém a rapidez com que desapareceram, o barulho de água e as pequenas bolhas de ar que subiam do fundo dos sulcos que rodeavam as ilhas de cristal o fizeram crer que alguma outra coisa aconteceu.

Sem que houvesse razão aparente, decide então ligar sua lanterna. E ao faze-lo, o forte facho de luz rebateu em infinitos cristais se dividindo em milhares de outros fachos mais fortes naquele labirinto de refração de luz, criando uma espécie de caleidoscópio colorido conforme luz atravessava ao cristais e se dividia em cores. A visão era linda, quase mágica. Mas toda essa beleza foi imediatamente dissipada ao perceber que das laterais das ilhas de cristal, das profundezas das poças de água escura, surgia uma horda de seres. Faltam palavras para descreve-los. Eram como grandes vermes brancos como leite. Sua pele, se é que aquela banha sebenta pode ser comparada à qualquer tipo de pele, era rugosa e oleosa, como se soltasse ranço pelos poros. Os braços tocavam no chão de tão longos e suas mão, com uma única e comprida garra, similar à uma unha com cerca de vinte centímetros, arrastavam no solo conforme andavam hipnotizados em direção àquele festival de luzes e cores que a lanterna produziu. As pernas eram curtas, bem curtas, e possuíam um formato similar a de um batráquio. Tinha também uma cauda longa que provavelmente servia como um leme quando nadavam. Seu rosto era como uma emaranhado de peles escorridas. Mal se podia ver qualquer coisa que lembrasse olhos, narizes e bocas. Eram figuras medonhas e que caminhavam aparentemente sem consciência em direção a uma luz que tinha origem mas que não podia ser seguida por conta da infinidade de reflexos. Os seres, totalmente alheios à presença de Joseli, rodavam em círculos se esbarrando e emitindo sons indescritíveis. Alguns deles carregavam presos em suas garras os corpos dos seus parceiros de expedição, já sem vida.

Aquilo tudo era inconcebível e inimaginável. De onde vieram aqueles seres era impossível precisar. Mas certamente não pertencem à espécie humana e nem foi possível traçar qualquer semelhança evolutiva com qualquer outro animal que exista ou tenha existido na superfície terrestre. Não havia outra explicação senão a de que vieram de outras dimensões cósmicas em busca de alguma coisa que jamais entenderíamos. Faltam adjetivos e substantivos no língua portuguesa para classificar aquelas figuras hediondas.

Por sorte ainda não tinha sido notado e pretendia sair dali antes que o fosse. Não sabia quanto tempo as pilhas da lanterna durariam, mas deu graças a deus de saber que resistiriam tempo o suficiente para sua fuga. Ele prende a lanterna entre dois cristais, de forma que o facho de luz continuasse a ser projetado sobre as paredes, produzindo o efeito que era hipnotizante aos seres, e foge. Sai da caverna aos tropeços sem sequer olhar para traz. Se arrasta de volta pelo túnel e corre pelas trilhas que o levaram à cachoeira.

A história do vulto nas águas ainda é contada, mesmo décadas após o acontecido. A região da cachoeira foi delimitada como proibida à visitação. Os mais jovens naturalmente não dão crédito ao conto, mas mesmo assim não se aventuram a tirar a história a limpo. Não se sabe o que se passou com os seres e o relato de Joseli não é considerado razoável por nenhuma autoridade. As 12 pessoas foram dadas simplesmente como desaparecidas e a polícia local defende a tese que se perderam nas trilhas e que possivelmente foram atacados por algum animal selvagem da região. Receio que a ingenuidade dos que não consideram que existe muito mais no mundo além do que foi catalogado pelos cientistas faça mais vitimas. Pois os Desbotados já estavam aqui quando chegamos. E vão continuar aqui quando sairmos.

FIM?

 

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