A Moira de Guadalupe P.4

A Moira de Guadalupe

Por Raven Ives

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A risada de Gaspar nunca pareceu tão estúpida aos ouvidos de Cibrán. Se sua felicidade por ter encontrado o relógio de bolso de seu pai não fosse maior, teria socado a cara do amigo. Depois de explicar com seriedade o que acontecera, incluindo seu quase encontro com a mulher misteriosa, Gaspar só faltou se mijar de tanto rir.

— Tem uma ideia melhor de onde passei a noite, então? — inquiriu o professor, irritado.

— Mas é claro! Durante uma festividade como a de ontem, você deve ter bebido até não se aguentar em pé, chegou aqui de noite e desmaiou na cama. — Gaspar deu de ombros. — Me parece uma explicação melhor, não acha?

— Não! Não é uma explicação melhor porque não é verdade. — Cibrán passo as mãos pelos cabelos, sem saber mais o que dizer para fazer o amigo acreditar nele. — Você não me ouviu chegar?

 — Já disse! Depois da visitação, me senti muito mal. Então tomei uns remédios aí e só acordei essa manhã. — Vendo a expressão impaciente do amigo, Gaspar continuou. — Em breve vamos voltar para Lisboa. É melhor tirar isso da cabeça. Pense pelo lado bom, você encontrou o relógio do seu pai.

Cibrán o ignorou, preferindo se arrumar para tomar o desjejum. Após se servir na mesa do café da manhã, o professor se sentou em um lugar afastado da entrada e próximo a uma janela, de onde podia ver a rua. Beliscava uma coisa ou outra, bebericando o café que acabou por esfriar. Com a cabeça no Cromeleque, ele só pensava em voltar ao local para ver a mulher que guardara seu relógio.

— Está com a cabeça nas nuvens essa manhã, meu rapaz. — Cibrán mal notou a aproximação do recepcionista; um senhor franzino com um sorriso quase vazio de dentes. — Posso me sentar? — Ele aquiesceu.

— Pensamentos demais, eu acho — respondeu vendo o idoso se sentar à sua frente.

— Sim, mas você me pareceu mais do que pensativo essa madrugada.

— O senhor me viu chegar? — O recepcionista confirmou com um aceno de cabeça, rindo. — Lembra-se a hora?

— Ah, passava das 4h. Parecia estar em outro mundo. — O idoso olhou em volta por um instante antes de se aproximar um pouco mais de Cibrán. — Alguém supersticioso diria que estava enfeitiçado, com seu olhar perdido e sorriso bobo.

Cibrán recostou na cadeira, surpreso com o que ouvia. Não se lembrava de nada. Ele fechou os olhos, massageando as têmporas como se isso fosse capaz de trazer as memórias à tona, mas não foi.

— O senhor é supersticioso? — O recepcionista sorriu, dando de ombros.

Isso foi a deixa necessária para Cibrán comentar sobre o que acontecera na noite anterior, assim como fizera com Gaspar. Ao contrário do amigo, o idoso não riu, demonstrando apenas um interesse genuíno na história.

— Ora essa, pelo visto encontrou uma bela moira encantada. Já ouviu falar delas? — Cibrán negou, embora não fosse inteiramente verdade. Ouvira falar, mas não o suficiente para recordar. — Não é o primeiro a comentar sobre a moira dos Almendres. Dizem que ela foi uma princesa, incumbida pelo pai de cuidar do tesouro da família até o seu retorno, mas o patriarca acabou morrendo em uma guerra. A menina acabou amaldiçoada, obrigada a guardar o tesouro até que alguém a liberte e, pelo visto, depois de tantos séculos, ela escolheu o senhor.

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