Haunted…

H31

Por L. Orleander

A moça estava trajada com um vestido amarelo, mas as manchas vermelhas espalhadas em lugares distintos lhe conferiam uma aparência macabra.

Do alto do penhasco, de frente para o mar, o vento soprava com violência fazendo com que os fios do cabelo acobreado chicoteassem sua face, que sem pele, deixava á mostra as orbitas oculares que giravam desvairadas, a carne vermelha e o branco dos ossos.

Charlie… Charlie… – o vento parecia sussurrar entre um assovio e outro. A adaga pingava vigorosa o sangue fresco que dali se desprendia, no mar raivoso, refletindo apenas um brilho opaco.

A tempestade se aproximava e atrás de si risos e sussurros de dor se ouviam cada vez mais alto…separador-1

Charlotte acordou banhada em suor e com a sensação de que no abafado quarto, outros habitavam ao seu redor, vigiando – a.

O sonho e a sensação estranha haviam começado á meses quando ela mudou – se de casa e encontrou no quarto vazio e totalmente frio a carta de um baralho estranho, onde a morte desenhada em suas costas segurava outras cartas.

Por um momento ela ficou hipnotizada, mas em seguida deixou a carta de lado e voltou para sua realidade.

Arrumou cada móvel e espaço que agora era seu e se sentia a pessoa mais importante do mundo, tinha Phil que chegará em sua vida a pouco tempo e seu sorriso enigmático, tinha seu trabalho dos sonhos e agora seu lar longe da conturbada vida com o pai e a irmã mais velha. Era uma adulta.

Meses depois as coisas começaram a mudar, estavam ficando difíceis, remédios para dormir, uma estranha sensação de depressão e os sonhos com essa garota a deixavam cada dia mais estarrecida.

Phil lhe dizia que era apenas o stress do dia- a -a dia, mantinha – se próximo, cuidando, vigiando… Algo nele estava diferente, talvez fosse o olhar ou talvez fosse coisa da sua cabeça mesmo, seu chefe a afastará por alguns dias depois do ataque que teve durante uma ida ao banheiro, ele decidiu que ela deveria se tratar primeiro, algo em Charlotte dizia que ela não mais voltaria para o emprego e sequer para sua vida.

A tempestade chegou e com ela a certeza…

Phil fez o jantar naquela noite, na cozinha a música clássica suave e com tons fúnebres soava.

– Phil? – perguntou ela ao descer as escadas e ver sua sala de jantar na penumbra iluminada por velas escuras,  o odor adocicado e acre misturava – se no ar feito incensos diferentes, enquanto algo dentro de Charlotte lhe mandava fugir.

A mesa posta, as taças de espumante, o estranho tapate no chão… Era mesmo um tapete?

A vista começou a se turvar e as pernas falharam fazendo com que seus passos tropegos a fizessem apoiar – se no espelho que ficava diante da escada.

Não havia reflexo, a névoa em seus olhos fez com que ela piscasse e chamasse novamente Phil que se quer a responderá.

A superfície brilhante parecia líquida, Charlotte tocou com a ponta dos dedos, e para seu desespero, mãos lamacentas saíram do espelho e agarraram seu braço.

Charlie… Charlie... – a voz de seu sonho se fazia presente, chamando – a em um sussurro ofegante.

Ela conseguiu se soltar e caiu sentada no que a princípio achou ser um tapete, o cheiro do sangue subiu a suas narinas, a poça escura estava lhe puxando para baixo.

É um sonho… Precisa ser um sonho…” – pensou para si, enquanto sua voz emudecia.

Eu sinto muito… – disse Phil adentrando a sala e mexendo algo em uma panela parado na porta.

Os olhos vermelhos a fitavam, no rosto moreno cheio de feridas, vermes passeavam  comendo a carne podre das cicatrizes escuras.

– Ela escolheu você, minha querida. Bem vinda, o Farol das Almas te espera.

O corpo terminou por afundar no sangue, mãos seguravam o pescoço de Charlotte sufocando – a, outras a dilaceravam e quebravam seus ossos.

Ela tentou gritar mas sua boca foi invadida pelo sangue ao redor, os olhos ardiam e as forças começavam a lhe faltar.

Charlotte se sentia morrer quando o gancho atingiu sua cintura causando uma nova dor.

A mulher que a puxava lhe sorria diabólica, de olhos bem marcados pela sombra negra e nos lábios o batom carmim.

Charlotte cuspia sangue e chorava queria acordar do pesadelo, mas teve seu cabelo enrolado nas mãos enquanto era arrastada no solo pedregoso.

Sua face foi destruida por cacos de vidro, seu corpo mutilado, Charlotte não entendia o que ocorria, nem o por que de ainda estar viva. Gritou uma vez mais com todas as suas forças restantes, mas nada pareceu adiantar.

Os murmúrios pedindo socorro na noite escura, seu sangue esvaindo – se e o assobio de uma canção melancólica conhecida.

Charlotte foi jogada em um canto, sobre outros corpos cheios de vermes, besouros e moscas. O cheiro de decomposição ganhava espaço ao redor e sua cabeça pesava, entregando – se a morte que insistia em não chegar.

A visão ficou turva novamente, e o calor apoderou – se de seu rosto, deformando, transformando…

Charlotte acordou suada, o cheiro de maresia e sangue pungente sobre si. Tateou o aço frio e levantou – se.

O vestido amarelo manchado e um sorriso macabro olhava em direção ao Farol.

Mais um lindo mostrinho para minha fábrica de pesadelo..” – sorriu a mulher sem rosto e sem nome de braços cruzados e roupa de couro.

Ganhará Phil no carteado e agora Charlotte estava pronta para segui – lá.

 

Para o Farol das Almas, ela irá te levar. E do Farol das Almas, jamais irás escapar… “

 

FIM?

 

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