Princesa Infernal [Parte 6] – Lar, Amargo Lar…

Escrito por: A.J. Perez

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Princesa Infernal – Capítulo 6: Lar, amargo lar…

Era fim de tarde e o sol morria sangrando no horizonte sobre o lago de águas turvas.

O carro encostou na frente da velha casa de madeira a alguns metros de um pequeno trapiche.

Samirah já tinha ouvido falar sobre o pôr do sol e a noite, mas ver o efeito pela primeira vez era realmente lindo, e ao mesmo tempo triste. Ela de fato não sabia o que deveria sentir, era algo muito confuso. Tentou descer do veiculo e acabou se trancando no cinto de segurança, em seguida com certa dificuldade finalmente livrou-se, e saindo do veiculo andou até a ponta da estrutura de madeira com certo receio e então aguardou por alguns instantes observando até o astro cintilante sumir por completo deixando um rastro rubro no céu e uma lagrima solitária em seu rosto.

— Como sabem que ele vai voltar amanhã? —  questionou ela se virando e andando na direção da casa.

— Ele quem? —  resmungou Dante que estava recostado na varando a observando duramente.

— O sol… —  disse ela chegando diante dele.

— Isso é a pergunta mais idiota que já ouvi, quanto anos você tem? Seis?

Ele virou as costas e entrou.

Mirah ficou ali sozinha por algum tempo, o frio a envolveu rapidamente, fazendo-a abraçar a si mesma de modo instintivo.

Frio. Era a primeira vez que ela sentia isso, sentia com seu corpo de verdade. Essa sensação estranha, como um vazio ao redor dela, se fosse um sentimento seria um sentimento horrível. Depois de seculos sob o calor estarrecedor do inferno era como se algo estivesse faltando. Seria isso que as almas mortais em sofrimento eterno chamavam de saudade? Uma vez ela falou com um humano condenado, uma alma atormentada. Os anjos caídos, diabos e demônios os chamavam de suplicantes. O suplicante lhe contou que o que mais lhe doía não era “o seu corpo” flagelado, mas a sua alma. A Dor de estar longe de tudo que ele conhecia e amava, das pessoas e lugares que lhe eram familiares, ador de saber que jamais os veria de novo, e que jamais deixaria aquele lugar.

Frio era como a saudade.

Era assim que se pai se sentia quando pensava no paraíso?

Seu pai, Lúcifer… ele estava morto.  Estava morto há seculos. Ela não conseguia realizar em sua mente que jamais o veria de novo. Não iria mais tocar nele, ouvir a voz dele, as musicas dele. Ele nunca cantava em publico, jamais deixava os outros o ouvirem cantar, nem mesmo ela. Mas ela inúmeras vezes se esgueirou para escutar a doce voz do pai entoar cânticos antigos. A melhor parte era que ela sabia que ele tinha a consciência que ela o estava observando. Ele via tudo e todos dentro de Carceres, mas nunca a repreendeu. Era um acordo silencioso entre os dois. Uma vez ela achou um grande livro cheio de partituras, ao comentar com Yekun ele falou que as musicas daquele volume era todas para a mãe dela.

A mãe que ela nunca conheceu. Que seu pai sempre se recusou a falar sobre. E agora ele tinha indo embora para sempre. E sua mãe, quem ela foi, o que ela fez, tudo sobre ela se fora com ele. E a Culpa era de Yekun… Aquele maldito. teve a coragem de matar o soberano do inferno. A Coragem de matar ela. Matar ela…

A mão delicada de Mirah se elevou ate o peito e tateou acima do decote descendo os dedos entre os seios, procurando alguma coisa que indicasse que ela havia sido apunhalada, mas não achou nada.

Como ela sobreviveu? Por que ela sobreviveu?

Sua alma foi destruída, mas de alguma forma ela voltou. Será que era por causa do sangue de seu pai?

Lúcifer era o segundo ser mais poderoso da existência. Talvez isso fosse a chave para o que aconteceu com ela, mas se ela voltou… teria ele também voltado? E se lúcifer estivesse na terra como ela?

Uma luz de esperança surgiu em seu coração, mas ela sabia que precisava mais do que isso. Ela queria que ele estivesse vivo, mas precisava pensar agora em sobreviver, ela tinha de ter um foco em sua existência. Algo especial havia acontecido com ela, e até onde sabia só com ela. Seria algum plano de Kyrie? Certa vez ela ouviu uma conversa entre seu pai e um de seus tios sobre como tudo que acontecia tinha a mão dele, como tudo na existência fazia parte de um plano maior do pai deles. E isso incluía o inferno e todos nele. Era como se toda a existência fosse um prisma multifacetado em centenas de lados, em todos viam apenas um, mas Kyerie, ele não só via todos os lados, como ele os projetou e cada um deles tinha um proposito.

A mente dela borbulhava ela devia se focar e já sabia em qual ela iria.

Uma vez leu que as melhores historias geralmente o autor começa pelo final, pelo objetivo master. E ela havia escolhido o seu.

Independente de onde estava, de quanto tempo fosse levar, ela iria matar Yekun e retomar o inferno. Ela era Samirah, a donzela do abismo, A princesa infernal… e ela tomaria o que era dela por direito. Custe o que custar.

— Vai dormir ai com os mosquitos? —  Gritou Dante a trazendo de volta de seus devaneios.

Ela se recompôs e subiu a pequena escada para a varanda e finalmente entrou na casa.

Era uma construção muito diferente de qualquer outra que ela já havia visto, era pequena, pequena em todos os sentidos. O teto ficava ao alcance de um pulo alto, muito diferente dos palácios abissais em que ela precisaria abrir as asas e levantar voo para alcançar. A sensação de estar em um espaço tão infimamente ”apertado” era quase claustrofóbica.

— Algum problema? —  ralhou Dante trazendo uma tigela na mão.

— É tudo tão pequeno…

— É uma casa normal para pessoas normais.

— Desculpe, eu não quis ofender…

— Continue insistindo no teatro de boa moça que talvez alguém acredite, mas não eu…

— Ignore, —  disse uma voz feminina jovem vindo de cima das escadas —  com o tempo você aprende a lidar com o mau humor dele… eu acho.

Dante bufou e foi em direção a outro comodo, quando a mulher começou a descer as escadas.

Sua pele era negra, os cabelos volumosos e cacheados eram escuros e reluzentes.

— Sou Ágape, é um prazer conhecer… —  ela estendeu a mão enquanto estendia a ultima silaba dando um tom de questionamento.

— Ah.. eu, hum, hã, —  ela olhou para o lados meio perdida —  Mirah, pode me chamar de Mirah.

A mão de Ágape permaneceu no ar por mais alguns instantes, enquanto Samirah mantinha um sorriso comedido no rosto, provavelmente de nervosismo.

— Vejo que não conhece muito dos costumes mortais, vamos lá… —  iniciou a mulher —  quando alguém lhe estender a mão você pega na mão da pessoa e balança dessa forma.

Dante apenas olhou do sofá e resmungou baixinho aumentando o volume da televisão conforme as duas conversavam e Mirah era instruída nos costumes mortais.

— Venha comigo Mirah, vou mostrar onde será o seu quarto.

Em silêncio ambas subiram as escadas…


 

Continua…

 

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