A Moira de Guadalupe P. 3

A Moira de Guadalupe

Por Raven Ives

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Cibrán quase tirou as roupas em busca do relógio, mas não adiantaria de nada. Nem nos bolsos, nem na bolsa. Evaporara. Chegou a acreditar que não passava de uma brincadeira de mau-gosto do amigo, por tê-lo arrastado na caminhada, embora Gaspar jurasse de pés juntos em nome de sua inocência. O professor não queria acreditar que o tinha perdido, certo de quão difícil seria encontrá-lo. Isso se não roubaram, pensou, levando as mãos à cabeça.

— Você tem certeza que trouxe? Não deixou no hotel? — Cibrán negou, respirando fundo.

— Coloquei o relógio no bolso antes de sairmos. Deve ter caído durante a caminhada. — Ele olhou para os outros turistas conversando com o guia. — Tenho que voltar.

— Perdeu o juízo? Você pode não estar morto como eu, mas está cansado. Deixe para amanhã.

— Amanhã o relógio não estar mais lá — respondeu, pegando a carteira para comprar mais algumas garrafas d’água.

— E quem disse que ele ainda estará lá? Afinal, onde é lá? Pode ter caído enquanto esperávamos em Guadalupe pelo guia.

Cibrán o ignorou, irritado, e foi comprar a água antes que mudasse de ideia. Precisaria se apressar para não acabar anoitecendo antes de botar os pés de Guadalupe. O caminho não era difícil, mas longo. Sua cota de aventura fora preenchida pela manhã, com a trilha e as pernas pediam por um pouco de descanso.

— Nos encontramos no hotel — avisou Cibrán, deixando o Gaspar para trás.

A primeira garrafa d’água foi embora na caminhada solitária até o Menir. Apesar do cansaço, conseguira chegar mais rápido do que antes, sem diminuir o passo por causa dos outros. Vasculhou onde pôde, refazendo o caminho anterior, sem nenhum sinal do relógio. Chegou até mesmo a encontrar pertences de outras pessoas, mas nada do seu.

No Cromeleque não foi diferente. Não havia nem sinal do relógio. Sentando sob uma das árvores, Cibrán aproveitou para descansar. Ainda não conseguia acreditar que perdera o presente de seu pai. Logo ele, tão cuidadoso. Me desculpe, pensou, recostando no tronco. Enquanto observava as rochas, deixou-se levar pela exaustão, fechando os olhos. Só alguns segundos, que acabaram durando horas.

Ao abrir os olhos, deparou-se com o céu mais estrelado que já tivera a oportunidade de admirar. Longe das luzes da cidade, milhares de pontinhos brancos se destacavam no manto noturno. Cibrán permaneceu sentado por alguns minutos, surpreso com o local onde se encontrava. Precisou refazer o seu dia para se lembrar de como fora parar ali.

Levantando-se com dificuldade, esfregou os olhos na tentativa de dissipar a visão turva e, aos poucos, começou a enxergar melhor, adaptando-se à escuridão. Não havia vivalma ao redor, mas algo se destacou no centro do círculo de pedras. Um brilho dourado singelo que arrancou um sorriso de Cibrán. Correndo até o local, encontrou o relógio de bolso que ganhara do pai. Um pouco arranhado, sim, porém isso não importava. O que não entendia era como não o vira antes, quando, sob a luz do sol, ele brilharia ainda mais.

Cibrán ignorou o pensamento, vasculhando a bolsa em busca do celular. Com a ajuda da lanterna, talvez conseguisse chegar sem problema a Guadalupe. Enquanto procurava, a alça acabou escapando de sua mão e, ao abaixar para pegar, encontrou algo que também não estava ali antes: dois pés sujos de terra. Dois pés femininos.

— Eu o guardei para você. — A voz baixa continha uma doçura implícita, como se falasse a alguém que nutria carinho. — Retribua e venha me visitar essa noite.

Surpreso com o que acabara de ouvir, Cibrán começou a erguer o olhar para ver o rosto da mulher. Contudo, antes que pudesse vê-la, o despertador do telefone começou a tocar. Em um piscar de olhos, o professor se viu de volta em sua cama, com a luz da manhã entrando pela janela. Mesmo confuso, sentou-se e esquadrinhou o quarto. Na cama ao lado, Gaspar estava todo esparramado. No bolso de suas calças, o relógio de bolso.

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