O Mistério da Casa de Praia

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Por Gustavo Aveiro

Olá, meu nome é Gustavo, tenho 27 anos. Gostaria de contar um relato sobre uma experiência que realmente aconteceu com meus pais e comigo. Entretanto, os eventos deste relato aconteceram entre 1991 e 1992, nessa época eu tinha cerca de um ano de idade e não me lembro de absolutamente nada, era novo demais para ter discernimento do que acontecia a minha volta.

Tudo começou quando meus pais receberam uma proposta para trabalharem como caseiros em Ilhabela, litoral norte do estado de São Paulo, a proposta veio de uma de mulher que minha mãe tinha feito uns serviços na casa dela. Era uma proposta atraente, pois passávamos por dificuldades financeiras, meu pai estava desempregado e minha mãe fazia trabalhos esporádicos. Além de morar em um paraíso no litoral, o salário era razoável e o trabalho não era corrido, bastava manter a casa em ordem e recepcionar os patrões juntamente com seus familiares e amigos, preparar comida e realizar outros serviços pequenos. Além disso, meu pai se tornaria pescador e poderia ganhar um dinheiro extra.

Aceitaram a proposta e assim partimos para Ilhabela. Ao chegarmos lá, logo se sentiram atraídos pela casa e pelo local, o terreno era composto pela casa dos patrões que era relativamente grande com vários cômodos, o quintal tinha um gramado vasto com várias árvores e coqueiros. A nossa casa era adjunta a casa dos patrões, ficava ao lado da casa principal e só tinha um quarto e uma cozinha. As duas casas tinham saídas para o quintal e eram interligadas por um corredor.

Logo na primeira semana meus pais já tiveram contato com algo estranho quando estavam dando uma volta pelo quintal, eles encontraram um punhal com sangue seco cravado em uma das árvores, sem entender, meu pai arrancou aquilo da árvore e jogou fora, e não ousou perguntar para os patrões sobre o que aquilo se tratava. Com o tempo tudo parecia bem, eles se adaptaram rápido ao estilo de vida litorânea. Entretanto, minha mãe começou a reparar estranhos acontecimentos naquela casa. Ela escutava barulhos como talheres se mexendo, móveis se arrastando e tremendo, batidas em portas, vultos, passos pela casa e no telhado. E o mais curioso é que quando ocorriam alguns desses fenômenos os cães da casa rosnavam na direção de onde eles vinham. Ela perguntava para o meu pai se ele tinha visto ou ouvido algo, mas ele não tinha tido contato com nada disso, apenas minha mãe.

Passado mais algum tempo, meus pais notaram severas mudanças de comportamento em mim, que até então era uma criança carinhosa e dócil. Eu comecei a me tornar irritado, agressivo, ninguém podia me pegar no colo porque eu gritava, chorava, se debatia, arranhava e mordia. Dizem que coração de mãe não se engana, então minha mãe desconfiava fortemente que algo naquela casa estava tendo alguma influência sobre mim, mas por via das dúvidas ela me levou a um médico especialista. O doutor disse que não era nada demais, que era apenas estresse porque eu vivia preso naquela casa, quase não brincava, não tinha contato com outras crianças e recomendou caminhar comigo todos os dias na orla da praia. As recomendações médicas até que surtiram efeito, eu fui me acalmando paulatinamente, mas ainda assim eu ficava agressivo vez ou outra.

Começaram a surgir também outras alterações de comportamento bastante intrigantes em mim, eles disseram que eu comecei a cantar louvores e que as melodias eram lindas, algo como:

– “Jesus… protege pai, protege mamãe ♫”.

 Meus pais ficaram embasbacados com aquilo, até o momento eu não tive contato com ninguém a não ser com eles, como uma criança com cerca de um ano aprenderia aqueles cânticos sozinha?

Com freqüência, minha mãe também via eu brincando sozinho, mas a impressão era que eu estava brincando com outra pessoa, pois eu realmente interagia com alguém. Certa vez ela ia me pegar para dar banho e me viu brincando no corredor, sentado de frente para uma porta aberta de um quarto onde eu brincava regularmente, esse corredor era extenso, com várias portas que davam acesso a alguns cômodos, ao fim desse corredor havia uma porta que dava acesso ao quintal e a nossa casa. Ela disse que parecia que eu estava brincando com alguém, porque eu conversava, mexia com os brinquedos, gesticulava e ria. Então ela foi a minha direção e tentou me pegar no colo, mas eu empurrei a mão dela e disse:

– “Sai! É a menina mamãe, tô brincando com a menina”.

 A despeito disso, ela me pegou no colo, mas eu saí dali fazendo um escândalo. Ela ficou atônita porque não tinha mais ninguém ali, quem seria a tal menina que eu tanto me referia? O pior é que ela teria essa resposta mais tarde.

Em outra ocasião, minha mãe estava sozinha em casa, nesse dia meu pai estava pescando, ela ia me colocar para dormir e foi até a cozinha da casa principal para preparar a mamadeira, porque lá ficavam os mantimentos. Quando estava voltando viu uma menina sair de dentro da despensa, era uma menina loirinha, trajava um vestido rosa florido e segurava uma boneca no colo. Ela tomou um susto e ao mesmo tempo em que estava apavorada com aquilo ela ficou também intrigada, queria saber quem era aquela menina e perguntou:

– “Oi mocinha, como se chama? Você está perdida? Deseja alguma coisa?”.

Mas não obteve resposta, a menina apenas parou, encarou minha mãe silenciosamente por um instante com um olhar frio e um semblante pálido, e então começou a caminhar até o corredor onde eu brincava, a porta que dava acesso ao quintal estava aberta, minha mãe foi acompanhando logo atrás na mesma velocidade dos passos da menina, no quintal havia um pé de jambolão (ou jamelão), a menina foi andando lentamente em direção ao pé de jambolão e assim chegou até ele desapareceu! Simplesmente se dissipou diante de seus olhos. Minha mãe ficou completamente aterrorizada e voltou correndo para o nosso quarto, a partir dali ela começou a acreditar piamente que havia algo naquela casa. Ela contou para meu pai o que tinha visto, mas ele deu de ombros, disse que ela estava vendo coisas demais. Ele até que acreditava em coisas sobrenaturais porque é um homem muito religioso, mas estava cético porque até o momento ele ainda não tinha visto nada de anormal. Ainda!

O primeiro contato do meu pai com os fenômenos que ocorriam na casa foi quando minha mãe decidiu fazer uma viajem de 20 dias para Pernambuco no intuito de visitar os pais dela, ela me levou junto porque desde o meu nascimento meus avós maternos ainda não tinham me conhecido pessoalmente. Desde o dia que chegaram naquela casa nenhum dos meus pais tinha passado sequer uma noite sozinho, aquela foi a primeira vez. E meu pai relata com bastante tremor nos olhos que aquelas foram as piores noites de sua vida. Ele disse que logo no primeiro dia sozinho, ele ouviu a tampa do tambor de lixo bater violentamente no quintal, era um tambor de ferro e por isso o som foi muito alto, o susto foi grande e ele achou que alguém tinha entrado no quintal, mas chegando ao local não havia ninguém, ele disse que se arrepiou todo e sentia uma sensação estranha ao redor dele, um clima pesado pairando no ar. Durante o período que esteve sozinho ele não conseguia dormir devido aos barulhos em ambas as casas, haviam batidas a noite inteira, móveis, talhares, panelas, baldes, portas, quase tudo batia ou se arrastava. Perturbado com tudo aquilo ele ficava trancado no quarto com a luz acesa assistindo TV. Certa noite houve um fenômeno dentro do quarto, a cômoda onde a TV repousava começou a tremer e em seguida parou, minutos depois começou a tremer novamente, ele já estava tão atormentado e cansado de tudo o que estava acontecendo que bateu com força na cômoda e gritou bem alto:

– VOCÊ ESTÁ QUERENDO ME ASSUSTAR? VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR!

E então aquilo cessou.

Passaram-se os vinte dias e minha mãe retornou comigo, ele contou das noites macabras e mal dormidas que passara durante sua ausência, se desculpou por ter duvidado dela e ter feito vista grossa para o que minha mãe via acontecer na casa.

O tempo passou, estava fazendo pouco mais de um ano que estávamos morando ali quando meus pais decidiram voltar para a cidade que moramos atualmente. Minha mãe não queria me criar ali e desejavam voltar a morar perto de seus familiares, juntou também o fato que o patrão era um sujeito muito intransigente e antipático. E assim, cansaram do marasmo da vida no litoral, daquela casa mal-assombrada e decidiram pedir as contas.

Passaram-se seis meses desde que nós tínhamos retornado e certo dia minha mãe se encontrou com uma amiga dela que era funcionária dos mesmos patrões donos da casa de praia, essa amiga ainda trabalhava na casa principal dos patrões em São Paulo. Conversaram bastante sobre coisas pessoais e também sobre trabalho, ela perguntou para minha mãe como tinha sido a experiência de morar naquela casa, minha mãe respondeu sobre tudo, até que tocou no assunto sobre a casa ser mal-assombrada, perguntou se ela sabia de algo. A amiga fechou completamente o semblante e respondeu:

– Vou te contar um segredo, mas, por favor, eu imploro que não conte a ninguém.

Ela contou para minha mãe que houve um tempo em que a filha dela trabalhava naquela casa de praia junto com os outros funcionários que cuidavam do local, e que ela teve um caso com o patrão, e dessa relação nasceu uma menina. Eles mantiveram em segredo de todos que aquela menina era filha dele, apenas a avó da menina sabia. Anos depois, a menina estava brincando na parte da frente da casa, o patrão foi sair com o carro e acidentalmente atropelou a menina, que tragicamente veio a falecer. Ela disse que essa é a versão contada pelo patrão, mas não descartava a hipótese de ter acontecido outra coisa com ela porque ele não gostava da menina. Com medo de responder na justiça pelo acidente o patrão propôs um acordo com a mãe da menina, ninguém sabe ao certo como foram os termos desse acordo e o que levou ela a aceitar, mas envolvia ocultar o corpo da menina. E assim foi feito, a neta dela foi sepultada na despensa da casa e a mãe da menina se mudou para outra cidade.

Minha mãe ficou perturbada com aquela história, tudo começou a se encaixar, a descrição da menina coincidia com o relato da amiga, o quarto onde eu vivia brincando era o quarto dela. Ela também entendeu porque havia uma parte do chão na despensa que era diferente, era um retângulo de cimento no assoalho que se você pisasse escutaria um som oco, um “BOOM”! Como se fosse uma laje. E também entendeu porque a menina saiu da dispensa quando viu ela, ela tinha sido sepultada ali.

Em 2003, minha mãe recebeu uma nova proposta de trabalho da mesma patroa que era a dona da casa de praia, ela aceitou porque a patroa tinha se divorciado daquele homem truculento e dessa vez trabalharia perto de casa. Embora o patrão fosse um homem ríspido, ela era uma pessoa bondosa e amorosa, uma patroa excelente, minha mãe adorava dela. A patroa contou que eles se divorciaram alguns anos depois que saímos de lá e a única notícia que tinha dele é que após o divórcio ele foi à falência e desapareceu. Em 2008, a patroa iria se casar novamente e o casamento aconteceria justamente em Ilhabela. Minha família foi convidada e um dia após chegarmos lá demos uma volta na ilha, minha mãe me levou até o local onde era a casa onde nós tínhamos morado, com 18 anos pude conhecer o lugar onde tudo aconteceu. Ela ficou surpresa porque tudo tinha mudado, construíram uma rua nova, casas e um clube de iate no local, a casa já não existia mais.

Não sabemos o que aconteceu com o corpo da menina, se foi retirado de lá ou não, a única forma de saber talvez fosse se encontrássemos com a avó ou mãe da menina falecida, ou quem sabe o patrão desaparecido, mas não se tem notícias deles há mais de 20 anos, quando os patrões se divorciaram a avó da menina pediu as contas e não temos notícias dela desde então.

Será que o espírito da menina não conseguia descansar e assombrava aquele lugar? Será que outras presenças também habitavam naquela casa? Não sabemos ao certo, mas meus pais juram que tudo isso aconteceu. Eu particularmente não duvido, porque eles se arrepiam e seus olhos se arregalam quando contam sobre aquela casa sinistra.

 

Fim

3 comentários em “O Mistério da Casa de Praia

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