Etérea

Etérea 01

Por Raven Ives

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Os pés descalços afundavam de leve no solo úmido em um caminhar sereno, tão delicado quanto os sons da noite que cercavam a jovem em uma melodia primal; a folhagem das árvores que assobiavam ao sabor do vento, acompanhada pelo canto das aves noturnas, saudando a visitante. As pedras e galhos secos, que lhe cortavam a cada pisada, não eram um empecilho forte o suficiente para impedi-la de continuar em frente.

A cera da vela escorria pela sua mão direita enquanto a luz mortiça da chama desenhava sombras ao redor, que se contorciam em uma dança harmônica aos olhares capazes de enxergar a beleza na imperfeição. Em seus cabelos, uma coroa de flores que os envolvia como um halo. O perfume lhe inebriava, logo se misturando ao cheiro único da terra molhada.

Logo à frente, a luz argêntea da lua em plenilúnio refletia na superfície escura do lago, banhando o mundo em prata. A jovem se abaixou, tocando o chão sob seus pés e o sentiu pulsar abaixo de seus dedos, ritmado como um coração. Ela fechou os olhos e, mesmo na escuridão, conseguiu enxergar coisas que passara boa parte de sua vida ignorando, imersa em uma vida acelerada, cheia de desejos vazios que a impulsionavam em uma empreitada sem sentido, certa de que teria sua porção de felicidade.

Seu corpo adoeceu como o invólucro de uma alma enfraquecida, em uma existência que visava falsos prazeres e obrigações que lhe esvaziavam de sanidade. Estava sozinha e perdida, mesmo cercada por pessoas ou no seio do seu lar. Aos poucos viu que nada tinha sentido; estudava e trabalhava, em busca de um futuro que nunca a preencheria por completo. Havia um vazio no peito que a fazia se sentir incompleta sem ao menos saber do que se tratava essa peça fundamental que a tornaria inteira.

Então procurou onde pôde por uma resposta, até que esta a encontrou. Começou de maneira branda, como um formigamento que se espalhou de maneira gradativa pelo seu corpo, atingindo um nível de profundidade nunca antes experimentado. A princípio, chamou de intuição, percebendo que ela sempre estivera presente, embora não a ouvisse com frequência.

Ela abriu os olhos, dando-se conta de que despertara algo que estivera adormecido dentro de si. Uma força que nascia em seu cerne e se espalhava em raízes tão firmes quanto as de uma árvore, libertando-a de toda e qualquer amarra que a mantinha presa a conceitos arcaicos que lhe impediam de ascender como mulher.

Ao se levantar e caminhar em direção ao lago, sentiu a presença etérea de suas antepassadas a rodearem, orgulhosas do que ela se tornara. A água fria a envolveu à medida que nadava até o meio, flutuando sob a lua e banhada na seiva da vida que corria pelas veias da Grande Mãe. A pele nua absorvia a luminosidade feérica e cada centímetro do seu corpo respondia àquele momento.

Era como a lua, com suas fases iluminadas ou sombrias. Ela era a floresta, a noite; carregava a essência dos elementos e os arcanos ancestrais. Dentro de si, descobriu-se inteira, sem depender de ninguém mais para ser feliz. Dentro de si, descobriu-se divina, pois sua alma era sagrada e o corpo, um templo. Dentro de si, descobriu-se.

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  • História também postada no Sweek.

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