Dia 18… – Quando bate a tormenta

pra1

Por L. Orleander

Eu estava planejando as férias outro dia, queria conhecer o Sul. Eu amava o frio e talvez essa fosse a melhor oportunidade de conhecer Gramado & Cia., mas eu não contava com a mudança de planos na empresa.

Ganhamos uma nova conta e isso fez com que quase toda a equipe ficasse alvoroçada , foi bom, os ânimos melhoraram.

Já era pra eu ter terminado esse diário, Dr. Monteiro disse que ele devia se basear em trinta dias e que deveria conter meus desabafos sobre você, coisas que eu achasse necessárias colocar pra fora pra me sentir melhor.

Coisas que eu amava, as que me chateavam, as nossas brigas… No começo eu me perguntava que necessidade havia em fazer isso.

A essa altura do campeonato acho que já crucifiquei você como também já te absolvi, reabri feridas e estou na luta para cicatrizar outras.

Sim, eu ainda escrevo cada palavra exatamente como eu gostaria de ter dito a você, algo em mim, talvez, esperasse que você fosse ler, mesmo sabendo que essa não era a verdade. Era a fuga da minha mente para tentar me encontrar da forma como eu era antes de você, ( é parace meio clichê, um tanto quanto Jojo Moyes, sim eu li o livro e você iria rir se eu dissesse que chorei feito uma adolescente pela história).

O caso é que se tornou meio longo, estamos no terceiro mês e ainda estou no décimo oitavo dia, fica difícil conciliar, casa, serviço, terapia e amigos, numa tentativa mais justa de voltar a viver.

Preciso confessar que nunca estive tão próxima dos meus pais como estive esse tempo todo e me dá uma certa paz e uma vontade infindável de sorrir quando vejo meu pai sorrir, até me arrisquei pescar com ele outro dia, não deu muito certo.

Colocar minhoca no anzol é nojento, ficar em silêncio é horrível e picada de inseto é o fim, mas ele se divertiu, assim como Carlos e Valentina que me chamaram pra jantar outro dia.

Ela o ajudou a fazer nhoque, mas jogou farinha na cozinha inteira, disse que viu aquilo num filme outro dia com Hortência, que agora passava mais tempo por ali.

Carlos ainda sofre com a medicação, mas segundo o médico era o que estava fazendo a doença recuar, ele tinha receio de tocar no assunto, mas Hortência sempre me colocava a par de tudo, afinal de contas eu agora era seus olhos quando ela não pudesse ficar, pra  mim já era tão normal que eu se quer me importava.

Éramos os três mosqueteiros, três amigos com o propósito de cuidar de Carlos e fazer Valentina sorrir, acredite – me uma criança é sim capaz de nos salvar das loucuras, mesmo que as vezes ela nos deixe meio loucos também.

Lembra das fugas? Agora ela faz de madrugada.

Carlos tem que achar os lugares mais altos possíveis e de preferência sem que ela veja, por que ela é capaz de arrastar as cadeiras pra pegar.

Se ela tem só quatro anos? Sim, mas é uma peça rara, do tipo dessas crianças hiperativas.

Mudando de assunto: irei mesmo para Boston, acredito que será bom ver gente nova. Karen diz que sou a pessoa mais indicada para nos representar na apresentação do layout.

Encontrei “ela”novamente, outro dia, parecia mais corada dessa vez e estava acompanhada das amigas, elas riam de uma conversa banal que ela parecia se quer prestar muita atenção.

“Ela” olhava o copo de papel vez ou outra, tristonha e distante, respondia as perguntas sem muita firmeza na voz e de modo apático.

Fiquei me perguntando se você praticava com ela os mesmos rituais que praticava comigo. Enquanto eu pensava sobre isso, a música soou alta e clara na minha mente, cada neurônio meu tocou um sinal de alerta gritante ao meu corpo.

Era aquela música. A sua música. A música que eu te dei.

O celular dela tocava e eu empalidecia, era impossível não reconhecer o dedilhado decidido do piano e a voz grave de Lzzy.

Senti aquilo como um tapa, um aperto no peito terminando de quebrar algo… Eu não podia ficar ali, peguei minha bolsa e saí sem rumo.

Droga! Era apenas uma música, então por que eu me importava tanto?

Eu sabia o motivo e me fazia a pergunta por desencargo de consciência, me doía porque era a música que eu havia te dado, que me lembrava você.

Veio a falta de ar, o frio excessivo que não fazia, mesmo com a chuva que caia. Meus pés se arrastavam  de volta pra casa, não peguei o elevador, sentei – me nos degraus do 5º andar, coloquei os fones de ouvido no máximo e acendi um cigarro, queria perder a noção do tempo ali. Sozinha. Era isso que eu era, uma pessoa sozinha.

Escutei a música repetidas vezes pelo o que pareceu tempo suficiente para alguém me encontrar e eu acabar com um maço de cigarro.

Carlos sentou – se ao meu lado e tirou um dos fones de ouvido, eu nem me movi do lugar e não dirigi uma palavra á ele.

É uma linda música…”

Eu deitei minha cabeça em seu ombro e ficamos ali ouvindo a música, ir e voltar, eu não tinha mais lágrimas, não sentia mais dor, era apenas um vazio imenso, como se nada se encaixasse mais.

Era um definitivo adeus…

 

Put your lighter in the air and lead me back home…” *

23:47 Hs – Segunda – Feira – São Paulo – SP

Mari…

CONTINUA…

 

 

 

*Break in – Halestorm

 

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s