Dia 15… – Quando tudo volta a caminhar

ma1Por L. Orleander

Hoje é um daqueles dias que batem a “bad“…

Acordei cansada, como se um caminhão tivesse passado sobre mim e a sensação de vazio, depois de tantos dias que pareciam dizer que eu estava bem.

Senti sua falta, não vou mentir, assim que abri os olhos e os deixei arder em lágrimas, minhas mãos passaram pelo lençol, no lado em que você dormia, senti meu coração apertado, e doeu ainda mais.

Ás vezes acho que um lado gostava mais de estar ali do que o outro, era angustiante constatar isso as vezes.

Empurrei a coberta, meio desajeitada, havia feito frio noite passada e como sempre eu acordei com um pé calçado na meia e o outro não.

Hoje me parece um péssimo dia para se estar de folga!

Escovei os dentes e fiz um coque bagunçado com o cabelo, fiz um chá e adocei com açúcar, acabei perdendo o hábito do mel. Era estranho fazer as coisas como a maioria das pessoas faziam, mas estava funcionando bem.

Decidi colocar os adesivos de flores na parede, Valentina tinha razão, ia ficar lindo e talvez se um dia ela aparecesse por aqui, quem sabe não gostasse?

Fiquei ali parada diante da parede pintada, com a xícara nas mãos.

Sabe eu preciso dizer que precisava te expulsar daqui. Expulsar minha tristeza que era parte sua e não me fazia bem, apenas me envenenava , e agora eu percebia isso com tanta certeza, que passavam os dias e isso não era mais o que eu queria.

Estou lutando todo dia um pouquinho mais na mudança dos meus hábitos e assim consegui mais dias felizes.

Parecia que o dia ia ficar frio mesmo, me agasalhei e arrumei melhor o cabelo e saí para dar de cara com Netuno passeando no corredor como se ele fosse o dono e nada tivesse acontecido. Sério, as vezes eu achava que aquele gato tinha personalidade própria, igual gente.

Me agachei e peguei ele no colo, acariciei atrás da orelha… Era engraçado, aquele bichinho nos últimos dias me fazia sorrir.

De uns tempos pra cá eu me sentia meio dona dele, pelo menos quando ele vinha me “visitar”, pra não dizer quando invadia a casa pela varanda, pulando de uma á outra.

Ele parece gostar de você…”

Eu nem tinha notado quando Carlos se aproximou, a voz dele parecia meio metálica, sem expressão. Depois do susto, eu nunca mais os tinha visto, ele agora usava um boné para esconder que tinha raspado a cabeça, deve ser por causa da quimioterapia.

Ele estava mais magro e pálido, tinha olheiras que pareciam estar ali á mais tempo do que eu me lembrava, tive medo que a doença ficasse pior e me lembrei de Valentina, mas escutei sua voz me chamando de exagerada, péssima hora pra lembrar de você dizer  isso, enquanto me abraçava por trás e beijava meu pescoço.

Pisquei algumas vezes, respirei fundo e entreguei Netuno á ele.

Entrei no elevador e apertei o térreo, forçando um sorriso, eu que não ia perguntar o que tinha acontecido, ele entrou em seguida.

” A sua blusa. Acho que a Val acabou indo embora com ela no outro dia. Então se não houver problema, posso levar mais tarde?”

Fiz que sim com a cabeça, afinal de contas eu havia até esquecido desse detalhe, naquele louco Domingo.

O elevador nunca demorou tanto pra descer e o silêncio estava me matando, nem mesmo Netuno miava.

Obrigado pelo outro dia. Eu não… A Val…”

Ele se perdeu pra falar e eu apenas respondi que estava tudo bem e que se precisasse era só tocar a campainha, perguntei como estava Valentina e ele me disse que bem, e que Hortência, a irmã dele, veio passar os dias. Respondi que estava feliz por eles e senti que ele estava sendo sincero, agradecido de verdade.

Marina… Mari, é menos formal.” – disse á ele pra tentar tirar a tensão do ar, cara esse elevador hoje tava enfeitiçado, parecia que levaria eras pra chegar.

Ele estendeu – me a mão e apertou suavemente, estava fria, imaginei que fosse efeito da doença ou talvez dos remédios, mas não seria eu que iria perguntar.

A porta finalmente se abriu me despedi e tomamos rumos diferentes, fui buscar mais tinta eu já conseguirá pintar duas paredes. Meu pai ligou e me disse que vem na próxima semana, me fazer companhia e ver como estou, na real tenho certeza que ele quer ir na consulta com Dr. Monteiro, minha mãe diz que faz bem á ele estar sempre presente o deixa ativo e ele para de implicar com as atividades dela, que diga – se de passagem são bem “radicais” agora. Ela aprendeu a surfar, rs.

Parece engraçado, mas ela fica ótima no mar e sente em casa, logo se a faz feliz, não sou eu que vou ir contra, mas ele detesta, diz que ela não tem mais idade pra essas coisas.

Ele ainda anda preocupado com você…” – me disse ela da última vez.

O dia transcorreu normal, ocupei boa parte dele colando as benditas flores na parede. Valentina tinha razão, elas ficaram lindas e encherão de vida a sala.

Criança tem uma visão que nós perdemos em algum momento da vida, e por mais estranho que parecesse ela estava me ensinando isso.

Sentei – me na frente da parede e sorri feito boba ao ver como havia finalmente ficado, eram 19 hs, eu pedi uma pizza, estava cansada demais pra ir pra beira do fogão, comprei um Malbec, estava louca pra experimentar, me disseram que era melhor que meu amado Tannat.

Eu estava de tinta até o cabelo quando tocaram a campainha, olhei no relógio e até estranhei será que já era o entregador? Mas não fazia tanto tempo assim que eu havia pedido.

Minha surpresa ao olhar no olho mágico, Carlos com Valentina no colo. Abri a porta meio sem jeito e Netuno passou ligeiro pela fresta antes mesmo de eu abri – lá por inteiro.

Me desculpa pela hora…” – ele disse embaraçado.

Carlos segurava minha blusa e Valentina segurava um pequeno vaso de violetas, que me entregou toda sorridente. O sorriso daquela menina, salvava um dia. Eu juro pra você.

Obrigado tia Mari…”

Agradeci a pequena com um beijo nas bochechas enquanto ela ria se encolhendo, a ponta de seu nariz se sujará com a tinta que estava presa no meu cabelo.

Carlos sorriu e por um instante eu vi como ele ficava mais jovem quando sorria, perdia aquele ar sisudo.

Obrigado Marina, por tudo.”

Peguei a blusa que ele estendia e desejei meus mais sinceros votos de melhora, eles se despediram e já estavam quase no apartamento deles quando gritei por Valentina.

Estendi a mão pra ela e disse á Carlos que queria mostrar algo á ela, se ele se importava, ele disse que não.

Ela correu até mim, saltitante como sempre, me deu a mãozinha e entrou em casa, abri a porta por inteiro novamente e voltei para leva – lá até a sala.

O azul dos olhos dela brilharam como estrelas

Flores!”

De alguma forma aquilo que valeu pelo dia inteiro brigando com elas, Carlos olhava nós duas sentadas diante da parede, caladas, de braços cruzados.

A pizza chegou e ele chamou Valentina pra irem embora. Eu os convidei a ficar, ela corria com Netuno, Carlos tomou uma taça de vinho e comeu apenas um pedaço da pizza, demos boas risadas dele contando as peripécias dos dois juntos, Val e Netuno.

Meu dia tinha amanhecido uma droga, mas Valentina tinha salvado parte dele.

Era a coisa mais irônica do mundo, mas naquele minuto, naquelas horas que eu passei com Carlos e a menina, você não existia no quadro, e pela primeira vez eu não me senti culpada por isso…

23:48 Hs – Quarta – Feira – São Paulo – SP

Mari…

CONTINUA…

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s