Dia 12… – Bukowsky

D11

Por L. Orleander

Estou encolhida no sofá, ouvindo Valentina gritar a plenos pulmões por Netuno, ele aparece aqui de vez e quando.

Preciso contar que tomei um susto esses dias, não algo pavoroso, não.

Algo que me deixou surpresa.

A capa com contact preto nas laterais e a tarja amarela na parte inferior com as iniciais JP (Juliette & Pontes, nossos sobrenomes, o livro que compramos juntos), me fizeram sorrir sem graça, da ironia.

Ela lia as “baladas” sem pudor de Numa Fria com saudosismo estampado no rosto e pesar no semblante, parecia ter envelhecido, mas acho que era efeito do cabelo platinado e do óculos quadrado.

Ainda me lembro do primeiro comentário dela  e de como não demorou muito pra ela se “adonar” de você publicamente, esfregando na cara de todos que quisessem ver que você era dela, ironias da vida, se eu tivesse feito o mesmo você teria se enfurecido, apagado o maldito comentário e sumido por um mês da minha vida como castigo.

Mas dessa vez você apenas se calou, e como dizia meu avô, quem cala, consente. Aquilo me feriu feito um tapa, e fez com que eu me perguntasse o que eu estava fazendo de errado.

Me afastei, comecei a sumir aos poucos com desculpas tolas e você não se importou.

Tinha algo errado, mas quem era eu pra falar alguma coisa? Te cobrar algo? Ninguém, eu era seu caso do anonimato.

Meu coração agora entendia que ali você não faria morada e se apertou um pouquinho mais.

Fiquei ali parada observando ela pelo vidro da nossa cafeteria, me perguntando se entrava e me sentava como sempre fazia ou se ia embora.

Entrei, e dessa vez, pedi apenas meu Cappuccino , ela se quer me notou, no fundo acho que ela nem sabia que eu existia.

Sorri ao pegar somente um copo, só meu nome dessa vez. A moça que sempre nos atendia, sorriu, como quem me parabenizasse pelo feito, acenei em agradecimento e depositei a gorjeta no pote ao lado do caixa, com um leve sorriso torto.

Ela continuou ali sentada, a pele muito pálida e as olheiras de quem chorou durante a noite, é eu conhecia muito bem aquelas marcas de uns tempos pra cá, ela lia avidamente o livro e percebi que nunca os vi juntos.

Honestamente nunca quis e nem fui atrás de ver, no dia que fechei a porta atrás de mim e te exclui da minha vida, desejei que ela te fizesse feliz como eu nunca havia feito.

Almejei que você sorrisse ao lado dela, vinte vezes mais pelos risos que não fui capaz de lhe dar, seu sorriso era lindo, acho que foi por ele que me apaixonei, embora você quase nunca fizesse isso, talvez eu os tenha matado aos pouquinhos no decorrer desse tempo juntos, eu agradecia de coração por ela lhe devolver ele.

Mas tenho que te confessar, meu altruísmo morria ali, não era hipócrita pra ficar e assistir você ser feliz como a boa amiga, eu era péssima com isso.

É um bom livro…” – disse á ela antes de sair, e isso não me doeu e nem pesou sobre minha consciência, eu sorri, eu estava em paz.

Não havia sinal de mim na sua vida, pra ela eu seria apenas uma estranha e continuaria assim.

Coloquei os fones no ouvido, no último volume, liguei no aleatório e esperei que ele me surpreendesse.

Eddie Vedder começou a cantar Black e meus olhos se encheram de lágrimas, essa foi a música que tocou quando eu descobri que meu turno tinha acabado e agora era a vez dela reinar absoluta ao seu lado e fazer toda a diferença.

Lembro que tomei um porre, e chorei sentada encostada na porta do quarto.

Sem esmurrar, sem gritar, sem quebrar nada, como era do meu feitio, eu não estava furiosa, eu apenas senti que algo me foi tirado.

Rastejei até o sofá e dormi ali…

A propósito vou joga – lo fora, aquela coisa está horrível, achei um preto de camurça, menor, vai me sobrar mais espaço para colocar um divã próximo a janela.

Netuno parece que aprovou a ideia, fez novos rasgos nessa coisa, dei boas risadas quando o vi prender as garras e não conseguir tirar, pobre gato.

Apaguei sua última mensagem do meu celular hoje, finalmente. Me senti orgulhosa e não triste,me fez bem, eu não te senti mais vivo ali, naquelas palavras.

Parecia que você tinha mandado por obrigação, a gente sente o tom de como foram escritas.

O diário tem tido efeito… Isso deve ser bom, não?

17:00 hs – Domingo – São Paulo – SP

Mari…

 

CONTINUA…

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