A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt. 10) – Surpresa Do Mal

FB_IMG_14633916741730415.jpg

Escrito por: Alfredo Dobia

Cap 10 – Surpresa Do Mal

Lúcia tirou suas chaves do bolso enquanto eles se aproximavam da porta. Ao chegar mais próximo dela, eles notaram que a fechadura havia sido quebrada. Seus passos aumentaram, e num leve toque na porta, ela se abriu. Os olhos dela logo se encheram de lágrimas pela imagem acutilante do corpo dilacerado do Sr. Wayler, ajoujado na parede, com sangue escoando por todos os cantos do chão.

Parecia que um animal faminto havia arrancado brutalmente suas vísceras, de tal modo que seu sangue pintava o chão e as paredes, antes da cor de leite cremoso, agora de vermelho melado. A casa cheirava a aflição, e os gritos avassaladores de tudo que o Sr. Wayler vivera nos últimos minutos, ainda ecoava sobre a sala.

Lúcia levou as mãos na boca, com os olhos marejando. Um sentimento mórbido abraçou seu coração devastado. Ela se virou para o Chris, aconchegando-se ao peito forte dele, em busca de consolo. Ele a abraçou, lamentoso, enquanto uma de suas mãos deslizava nos longos cabelos dela.

Valter olhou de relance pra eles, sentindo-se incomodado. Em tão pouco tempo, ele tem visto a aproximação do Chris e da Lúcia tem se tornado íntima de mais pro seu gosto.

— O que aconteceu aqui? — ele disse, olhando a desarrumação da casa, como se ocorresse uma guerra dentro dela.

Os pratos estavam partidos, as janelas destruídas. Na parede havia letras escritas com sangue, que diziam:

Surpresa!

Lúcia se aproximou da parede, olhando as escritas e logo depois o corpo do avô. As lágrimas corriam dos seus olhos como uma barragem de água destruída.

— Quem fez isso com o Sr? — ela disse.

Seu tom tristonho era de cortar o coração.

De repente a cadeira de rodas do Sr. Wayler rodou na frente deles. Os Anderson sentiram uma medonha energia se aproximando. Nas paredes, formava-se a penumbra de um homem, e quando por fim todo corpo tornou-se completo, não hesitaram e partiram logo para o ataque.

Faltando apenas poucos centímetros para o embate com o homem, Chris foi abruptamente derrubado na parede a sua trás, que sinistramente ganhava vida. Braços saiam dela em forma de garras, prendendo seu corpo. Ele lutava pra se soltar mas seus esforços eram inútil. Parecia que a parede monstruosa fosse devora-lo.

Valter olhou pro irmão e tentou pronunciar algumas palavras mágicas. Mas antes mesmo de abrir sua boca para articular tais palavras, sua boca foi selada por uma parte do tapete enorme de seda existente no chão da casa. O tapete enrolou seu corpo, apagando todas suas chances de defesa.

Agora os dois lutavam para se soltar, preocupados com o estado vulnerável de Lúcia.

Ela olhou pra eles, completamente indefesos.

— Hora, hora, se não são os incríveis irmãos Anderson — disse o homem, num tom de voz gélido, batendo palmas.

Seus olhos negros eram assustadores.

— Quem é você? — Lúcia indagou friamente. — Foi você quem fez isso com meu avô?

O homem olhou para o Valter e o Chris.

— Não acredito que vocês não falaram de mim pra ela — ele disse. — Sério malta, que decepção. Mas deixa-me apresentar. Eu sou Cyrius, embora alguns insistem em cognominar-me de O Sr. Das Almas. E confesso que ando a procura de você a já um bom tempo, mas o Vovô aqui não facilitou muito o nosso encontro — ele apontou pro corpo ensanguentado do Sr. Wayler.

— Cyrius! — repetiu Lúcia. — Você é o bruxo que quer possuir minha alma?

— Exactamente! Mas não precisamos falar desse jeito tão cruel como se estivéssemos falando do demónio. Ups, perdão esqueci-me da melhor parte — levantou as mãos em direcção ao corpo do Sr. Wayler, com um sorriso sádico entre os lábios. — Surpresa!

Ele estalou os dedos, e logo depois a parede voltou a sua forma normal, assim como o tapete.

Valter e Chris rapidamente levantaram do chão, após uma queda ao serem soltos.

— Se afasta Lúcia! — Ordenou Chris, entrando na frente dela enquanto Valter preparava-se para atacar novamente. — Esse homem é um doente e muito perigoso.

Apesar de serem derrubados logo de primeira, os irmãos Anderson não titubeavam facilmente.

— Hã, hã, hã — Cyrius disse em alerta, movendo a cabeça. — Vão parando logo com isso, ou as coisas não terminaram muito bem pra vocês, assim como o vovô aí. — apontou de novo para o Sr. Wayler.

Ele caminhou vagarosamente até o sofá. Espreguiçou-se nele com um sorriso malicioso entre os lábios.

— Bom, para a vossa sorte — ele disse — eu não vim aqui pra brigar. Apenas quero conversar com a menina Wayler — arregalou os olhos, passeando-os no corpo da Lúcia de cabeça pra baixo.

— Eu vou matar você, seu assassino — Lúcia disse, partindo pra cima dele.

— Valter a puxou pelo braço.

Nossa! — Cyrius disse, impressionado. — Vejo que puxou a valentia do papai. Gostei de você! Mas então, como ia dizendo. Eu vim propor uma troca Lúcia. É esse o seu nome não é?

— Porque eu havia de fazer uma troca com o homem que matou meus pais, e acaba de matar a única família que me restava?

— Primeiro, porque não era bem a minha intenção matar o seu avô, eu apenas vim pra conversar, mas acho que ele não gostou muito da minha visita e atacou-me com facas, pratos, tudo que ele ainda conseguia fazer levitar. Bem, daí vocês já sabem. Eu acabei me empolgando um pouco, fazendo com que a cada objecto jogado no meu corpo, três voltavam para o dele. Infelizmente ele não aguentou por muito tempo. Sua idade não lhe permitia tanto, o que me deixou um bocadinho irritado. Não se pode deixar uma visita se divertir sozinho, então eu pune ele e ainda ajudei-o a morrer de forma lenta, rebentando algumas sei lá, seis veias do seu corpo. Ou foram dês? — ele fez uma pausa. — Isso já não importa. E segundo… acho que você vai gostar dessa. Porque eu tenho alguém que você ama em minhas mãos.

— Não dê ouvidos a ele, Lúcia! — avisou Valter. — Esse é o ser mais insano do mundo dos bruxos.

— Escute o meu irmão Lúcia. Ele apenas quer ludibriar sua mente. E quando tiver sua atenção, irá ataca-la sem pensar duas vezes — Chris acrescentou.

Cyrius bufou.

— Deixem de ser tão dramáticos rapazes — ele disse. — Olha Lúcia, o que eles acham ser uma proposta macabra, eu chamo de reencontro familiar. Basta você permitir que eu possua sua alma que num estalar de dedos eu te darei a sua querida mãe.

A mente atónica da Lúcia ganhava um engarrafamento de perguntas. Como Cyrius poderia devolver sua mãe? Que tipo de poder ele tem que ressuscita pessoas mortas?

— Minha mãe está morta! — ela disse, com o brilho de esperança nos olhos de que aquilo seja verdade. — Como você vai devolve-la pra mim?

— Deixa-me ajudar você a reflectir — ele levantou do sofá. — Por acaso o corpo dela foi encontrado? Olha, quando minhas criaturas atacaram seus pais elas foram muito bem instruídas e obedientes a mim. É o forte delas — ele riu de suas próprias palavras e continuou. — Portanto, enquanto seu pai lutava para manter o equilíbrio do barco devido a tempestade causada pelos meus Thunderbirds. As Cêntricas já estavam aguardando a queda deles para o ataque final.

Os Thunderbirds são criaturas tão poderosas cujas asas, podem causar um trovão quando voam. De seus olhos saem relâmpagos fortes que podem criar tempestades devastadoras e convocar nuvens.

— O Sr. Thonson era um bruxo muito poderoso e super experiente — murmurou Chris. — Eu já o vi destruindo criaturas que pareciam ser indestrutíveis. É impossível ele ter sido derrotado pelas Cêntricas.

— Na verdade você está coberto de razão — confirmou Cyrius. — Thonson era muito experiente, mas eu sempre soube disso e nunca o subestimei. Eu tinha as comigo as preciosas Pedras Dóminas.

— O que é isso? — Lúcia quis saber.

— Pedras Dóminas são pedras muito antigas usadas pelos primeiros bruxos da terra, para a punir aqueles que não seguiam as ordens supremas e usavam a magia por pura maldade. Mas faz muito tempo que elas andam desaparecidas. O conselho já fez de tudo para encontrá-las e evitar que caíssem em mãos erradas. Essas pedras têm a capacidade de bloquear os poderes dos bruxos — explicou Cyrius. — Acontece que elas sempre estiveram comigo. Diz aí Chris, como você explica a sua perda de poderes na missão contra os Cradys lá na floresta?

As coisas começaram a fazer mais sentido na mente dos Anderson. Valter se virou para o irmão, ponderando por alguns segundos, e disse:

— Será que foi por isso que sua magia não estava funcionando no outro dia?

— Exactamente! — Cyrius respondeu antes do Chris abrir a boca. — Essas pedras foram colocadas por lá, sobe minhas instruções, exactamente para criar toda aquela confusão. Eu precisava de mais bruxo ao meu lado, e como meu poder de controlo mental só funciona em mentes enfurecidas e atormentadas. Eu fiz com que o Daniel Parcker ficasse com raiva de vocês para eu poder domina-lo…

— Espere aí! — disse Chris. — Então foi por isso que eu não consegui usar minha magia hoje? Daniel estava trabalhando com você? Ele estava com as pedras?

— Não propriamente — Cyrius respondeu. — Se Daniel estive com as pedras, ele também perderia sua magia. Tirando todas suas chances de te derrotar, e eu sei bem que nem mesmo no mano a mano isso seria possível. Daniel é um bruxo bom de briga, mas ainda lhe falta muito para entrar numa briga justa com vocês. As pedras estavam com um jovem que presenciou a morte da mãe nas mãos do padrasto. Não foi muito difícil controlar sua mente.

Depois de uns minutos silenciada Lúcia pode perceber que Cyrius não estava apenas sendo um sorrateiro, estava dizendo a verdade. Mas ela não podia se entregar fácil, e logo depois o indagou

— E como posso ter certeza se minha mãe está viva ou não?

— Pergunte aos irmãos aí.

Ela se virou para os Anderson.

— Por acaso vocês sabiam de tudo isso e não me contaram?

— Na verdade sim. Nós sabíamos que sua mãe estava viva, mas não sabíamos nada sobre o paradeiro dela — explicou Chris. — Além do mais, se a gente contasse tudo, provavelmente você cometeria o erro de se entregar a ele.

Os olhos de Lúcia se encheram de lágrimas novamente.

— Vocês não tinham o direito de me esconder uma verdade tão importante como essa.

— Sim, você tem razão Lúcia — disse Valter. — Mas você também tem que saber, que pro Cyrius possuir sua alma, ele primeiro precisa da sua autorização. E se você soubesse de toda a verdade, não sabíamos o que poderia acontecer.

Entediado com aquela conversa, Cyrius disse:

— Pra não disseres que eu sou um monstro sem coração. Vou mostrar-te uma coisa.

Depois daquelas palavras, Cyrius pestanejou os olhos e a tv se ligou logo de seguida, mostrando as imagens de Lily Wayler num lugar sujo e escuro. O que fez com que o coração de Lúcia pulsasse de tanta felicidade, como se fosse sair do lugar.

— O papo aqui está muito bom — Cyrius disse, sarcasticamente. — Mas eu vou deixar você pensar no assunto.

Ele juntou suas duas mãos e logo depois seu corpo pulverizou-se e desapareceu do campo de visão deles.

O corpo do Sr. Wayler, preso na parede evaporou, tornando-se em cinzas, após a sinistra retirada do Cyrius. Mas as imagens de Lily Wayler continuavam em exibição na tv.

— Olha Lúcia! Você não precisa dar tua alma pra salvar sua mãe — Chris disse, serenamente. — Nós temos um plano pra acabar com ele.

— Como querem que eu volte a confiar em vocês se vocês não confiam em mim? — olhem só pra isto, ela girou os olhos em torno da casa — o meu avô está morto. A minha mãe… — olhou para a tv —  a minha está presa nas mãos de um psicopata á onze anos. Se ao menos vocês me contassem a verdade sobre ela, eu teria…

— Teria feito o quê? — Valter a interrompeu. — Correr pra tudo quanto é lugar procurando por Cyrius? Trocarias a sua alma pela soltura da tua mãe? Parece que você ainda não percebeu o motivo de nós estarmos aqui. Mais deixa-me refrescar sua mente — Valter estava irritado e cansado das reclamações da Lúcia. — Acontece que não se trata só de você loirinha, não se trata só da sua mãe ou da sua família. Nós estamos falando de um bruxo doente que quer dominar os seres humanos pela eternidade, e se ele conseguir o que quer, nesse caso a tua alma. As pessoas serão escravos dele. O seu poder de controlo mental não funcionará apenas em mentes enfurecidas e frustradas não. Funcionará em qualquer que ele quiser. O caos e a desordem se espalhará em todo mundo — respirou fundo, dando uma pausa. — Então desculpa se a gente tentou evitar que você começasse o fim do mundo. Ok!

Assim que ele terminou de falar, a tv desligou-se. Lúcia correu até seu quarto, ainda com lágrimas escorrendo no rosto.

O silêncio abraçou a sala por alguns segundos.

— Não achas que pegaste um pouco pesado com ela — perguntou Chris.

— Não, não acho. Já estava mais do que na hora dela perceber que tudo isso não se trata apenas dela.

A seguir suas últimas palavras, Valter saiu de casa e Chris começou a arrumar a bagunça causada pelo triste confronto do Sr. Wayler e o Cyrius.

CONTINUA…

 

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s