Contos de Elderland – Neve & Sangue

Escrito por: A.J. Perez

“Contos de Elderland – Neve & Sangue”

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Elderland 1788 da 5ª Era, Fronte de Batalha Norte – Divisa com Império Hudger.

A neve fluía dos céus suave, enchendo o ar de beleza branca e alva.

A Décima Sétima Legião se agrupava ao sopé de uma montanha.

A menos de um quilômetro de distância deles, seguindo suas pegadas, se localizava uma gigantesca mancha vermelha, cobrindo uma vasta extensão. Sobre a neve carmesim, dois mil corpos, parte humanos, parte leoninos, estavam sem vida, mutilados e massacrados.

Os soldados estavam ofegantes.

A última batalha os havia deixado exaustos. Mais de três mil homens perderam suas vidas contra os dois mil Hudgers que os atacaram.

Na parte mais alta do sopé, logo à frente dos demais, um cavaleiro contemplava as terras longínquas, o solo inimigo que tragaria seus homens em poucas horas.

Sua capa negra com o símbolo de Diobahr gravado em ouro, o deixava imponente, tanto quanto sua armadura vermelho sangue. Em seu peito, o rosto de um Dragão se projetava para fora do metal. Auduir, era um inquisidor, um mebro da Sagrada Ordem de Diobahr.

“Inquisidor”, essa era uma nova palavra. Uma nova categoria de guerreiro. O nome trazia o augúrio de uma nova era em Elderland. Uma era onde um único homem poderia fazer a diferença.

A ordem havia sido criada há poucos anos, para combater os magos nas guerras arcanas, que assolavam a terra, obviamente o império inimigo ao norte achou o caos interno da Republica um momento oportuno para atacar, e eles estavam certos.

O jovem comandante se virou para seus homens, quatro mil, quinhentos e setenta e cinco guerreiros ao todo. Muitos haviam visto poucas luas, e vários outros já tinham contemplado luas que por demais.

Um terço dos seus guerreiros eram, sem duvida, crianças inexperientes em combate, mais da metade deles sequer haviam conhecido o calor dos quadris de uma mulher.

Auduir os observava com pena, sabia que o destino que os aguardava a poucos quilômetros dali com certeza era a morte.

Se ao menos a décima oitava e a décima nona legiões os alcançassem eles poderiam completar seus objetivos naquela terra gélida.

Auduir desceu até seu amigo e conselheiro Téocrath.

– Téocrath, ordene a seus comandados que ergam acampamento, vamos passar a noite aqui para cuidarmos dos feridos.

– Sim, Lorde Auduir.

Um jovem rapaz avançou rápido na direção do inquisidor. Por pouco, não esbarrou em Téocrath.

– Mestre! – gritou o jovem.

– Continue gritando assim e vai acabar causando uma avalanche.

– Desculpe mestre. É que vi algo nas montanhas e resolvi avisar o senhor.

– O que você viu?

– Pensei ter visto homens andando pelo paredão do desfiladeiro.

Alguns soldados se aproximaram.

– Garoto, sabe que isso é impossível. Agora vá ajudar Téocrath a montar o acampamento.

– Mas, mestre…

– Selevran, me obedeça.

– Sim, mestre.

Selevran obedeceu e se juntou a Téocrath que ordenava a seus homens que montassem as tendas para o pernoite.

O lugar ao sopé da montanha fora cuidadosamente planejado por Auduir, o vento vinha do norte e batia na montanha, eles, no lado sul da mesma, nada receberiam do vento castigador e voraz do norte.

À noite, eles dormiriam todos juntos em barracas feitas de pele de Arguntilla, criaturas grandes como elefantes e peludas como bisões, suas grandes e desajeitadas cabeças lembravam as de antas, seus corpos eram como de bois, e da testa brotava um estranho chifre em forma de “Y”.

Téocrath se aproximou da barraca de Auduir, mas ela estava vazia. Olhou pelo acampamento e viu uma silhueta que observava o terreno à frente. O conselheiro andou até a entrada para o norte, onde o Inquisidor se encontrava. Ele parou ao lado do amigo e observou a paisagem noturna. As três luas gigantes nos céus iluminavam o solo branco, gerando uma luminosidade nunca vista por eles antes.

Logo, a menos de um quilômetro, entre dois titânicos paredões de pedra que se erguiam até acima das nuvens, e se estendiam por três quilômetros se localizava um grande lago congelado. Depois dele, seguindo por mais dois quilômetros, uma densa floresta de Pinheiros Imperiais se estendia pela planície.

E depois disso, ao longe, quatro grandes torres negras se erguiam convergindo todas para o mesmo ponto. Aquela era a missão deles.

– Marschcadene… é lá que temos que chegar. – disse Téocrath observando as torres longínquas.

– Chegar lá é a parte fácil, meu amigo. O difícil será conquistar a cidade. Os Hudger’s jamais a oferecerão para nós de bom grado. E, além do mais, somos poucos. E lá, naquelas torres, estão mais de três mil homens-leão, prontos pra guerra. Você sabe das estatísticas uma batalha contra eles…

– Cada Hudger leva pelo menos de três a cinco homens antes de cair.

– Nada bom, Téocrath, nada bom… agora aconselho que vá dormir amigo, temos muito a fazer amanhã.

– Está bem, se precisar de algo…

– Não hesitarei em chamá-lo, meu amigo.

Téocrath sorriu e se afastou indo até sua tenda.

Auduir permaneceu em silêncio, até que repentinamente se pôs a andar aceleradamente rumo a sua cabana.

Ao entrar, foi direto ao encontro de seu aprendiz.

– Selevran, acorde.

O rapaz acordou e observou seu mestre.

– Vamos…

***

A planície gélida parecia ter saído de contos antigos, seus pés afundavam na neve fofa. Acima deles, a lua brilhava intensa.

Ambos estavam a cerca de um quilometro do acampamento.

– Disse que pensou ter visto homens andando pelo paredão antes?

– Sim, mas pensei que o senhor…

– Os soldados se aproximaram de nós aquela hora. Não podemos assustar os homens, não agora. Isso é assunto da inquisição. Pegue o livro.

O garoto se abaixou, abriu sua bolsa de couro e tirou dela um livro.

– Está aqui mestre. – disse ele entregando-lhe o livro.

Auduir o abriu. E começou a folheá-lo. Então se ateve a uma pagina.

– Guarde. – ele entregou o livro a seu aprendiz.

– El-lererregardium Tarruak anarath.

Um brilho ermo surgiu e por um momento breve pousou sobre o corpo de Auduir, para em seguida gerar um deslocamento repentino de ar que lançou neve para os lados.

Ele olhou para seu aprendiz, que fez o mesmo ao repetir as palavras.

– Vamos. – disse o mestre saltando cerca de quinze metros até se agarrar ao paredão. O jovem o seguiu.

– Aonde você pensou ter visto homens?

– Cerca de quinhentos metros a noroeste da montanha.

– O que fazia tão longe do acampamento?

– Estava andando…

– Pois bem, vamos até lá para vermos se encontramos algum vestígio desses tais homens.

Com grandes saltos, eles avançaram pela montanha. Pulando de grandes alturas, e se agarrando aos paredões com uma facilidade sobre humana. A magia dos Inquisidores, eram, sem dúvida, poderosa. A maioria dos inquisidores não havia sequer lido metade do grande livro ou praticado um terço do que lera.

O grande livro era a base do poder da Inquisição, um livro escrito pelo próprio Grande Patriarca em pessoa. As magias eram divididas em três tipos: Corpóreas, Ofensivas e Defensivas.

As magias corpóreas eram de habilidades sobre-humanas, como a que Auduir e Selevran haviam usado. Esse tipo de magia, uma vez conjuradas, jamais abandonavam a pessoa que a utilizava. O “dom” recém adquirido estaria sempre ativo quando o inquisidor necessitasse usá-lo. E isso preocupava os mais altos níveis do conselho. O poder dos inquisidores era devastador, uma força de elite que, sem duvida, poderia se tornar uma ameaça, mas a guerra contra Aditte, a Rainha dos Magos, estava custando muito ao mundo, por momento, a inquisição na visão de muitos era um mal necessário.

***

Após alguns instantes  chegaram no local onde Selevran pensou ter visto homens.

– Aqui?

– Sim, mestre.

– Então procuremos por rastros.

Procuraram por minutos até que encontraram alguns vestígios.

A rocha fria em muitos pontos estava congela, mas isso não parecia ser empecilho para os inquisidores.

– Veja, mestre, marcas de garras.

– É alto demais para animais chegarem aqui.

– Não foram animais?

– Foram Hudger’s.

– Hudger’s, mestre?

– Sim, com certeza, enviaram um grupo de batedores para verificar por qual motivo as tropas não retornaram.

– Então, eles já sabem de nós?

– Os batedores, sim. Mas creio que ainda não avisaram a cidade.

– Por que acha isso, mestre?

– Os batedores Hudger’s não se movem à noite, e já estava anoitecendo.

– O senhor, acredita que ainda estão por aqui?

– Com certeza…

– Os Hudger’s são grandes, deixam muitas marcas por onde passam, podemos rastreá-los assim.

– Não precisa falar o óbvio, jovem aprendiz.

– Sim, mestre.

Eles seguiram pelas montanhas avançando pelos rochedos. Até observarem uma luminosidade em um espaço plano entre eles, muito alto para as tropas do exército unificado chegarem.

Se aproximaram com cautela, chegando próximos ao que acreditavam ser um acampamento Hudger.

Quando finalmente alcançaram o local, suas especulações se confirmaram.

Hudger’s, os homens-leão do norte. Homens grandes e robustos, com cerca de dois metros de altura e com corpos totalmente recobertos de pelos, mas esses eram apenas detalhes, seus títulos vinham por outro motivo, uma cabeça de leão.

Sim, assim eram os Hudger’s, grandes homens com cabeças de leão, os Senhores do Além Norte.

Quinze Hudger’s estavam acampados ali. Sozinhos, possuíam tamanho e força para matar no mínimo oitenta homens bem treinados. Já se ouvia histórias de que dez Hudger’s, certa vez, mataram mais de duzentos homens em poucos minutos.

O maior deles andava ao redor da fogueira falando alto.

Seu pelo era avermelhado, sua juba lisa e caída para traz lembrava os cabelos ruivos de um guerreiro. Usava uma grande armadura cinzenta. E carregava uma grande lança.

– Temos que ter cautela – disse o Hudger. – Amanhã iremos partir, mas antes temos de ter certeza que os humanos não avançaram durante a noite.

– Eles não imaginam o que os aguarda. – disse outro Hudger que afiava um grande machado de guerra.

Todos riram menos o líder.

– Não falem assim. São guerreiros, tem de ser respeitados como tal. – disse o líder repreendendo-os.

– São humanos, meu senhor, o grande lorde nos ensinou que…

– Os ensinamentos dele de nada valem aqui. Temos de respeitar os nossos inimigos. Também são servos do Resplandecente.

– Eles viraram as costas para ele! O abandonaram! Por isso todos devem morrer! – gritou o outro Hudger que carregava uma alabarda.

– Como sabe disso? Já conversou com algum deles? – Rugiu o líder entre dentes

– Só seguimos as ordens do imperador, meu senhor… Só seguimos as ordens de seu pai.

Houve um silêncio no acampamento.

***

– Mestre, o que faremos?

– Os homens não poderiam subir aqui, nem podem rastreá-los como nós podemos. Temos que fazer o que fomos treinados pra fazer, jovem aprendiz.

Selevran sorriu. Retirando a espada da bainha.

– Pela liberdade! – bradou Auduir.

– Pelo republica! – concluiu Selevran.

Eles saltaram sobre o acampamento quase que voando acima dele.

Auduir estendeu sua mão na direção da fogueira.

– El-lererregardium Ignner!

Uma esfera de fogo carmesim surgiu de sua mão e foi lançada contra a fogueira explodindo violentamente matando cindo judger’s instantaneamente.

O grande hudger atacou Auduir com a lança, este desviou e retribuiu o ataque com sua espada.

Sereius decapitou um Hudger ao chegar ao solo. Girando rapidamente, deu um salto sobre outro, lhe enterrando a espada no crânio. Rapidamente, estendeu sua mão na direção de três judger’s que se aproximavam de seu mestre pelas costas.

– El-lererregardium Elererremériun!

Uma luz verde surgiu e explodiu gerando ondas elétricas esverdeadas deslizando como água no ar consumindo a vida dos Hudger’s.

Atordoados, foram mortos rapidamente por Selevran.

Auduir lutava bravamente contra o grade Hudger.

Como ele consegue ser tão rápido com uma lança?”, se indagava ele ao ver o homem leão defender-se de todas as suas investidas e ainda encontrar tempo para lhe atacar.

– Mestre! – Selevran correu até Auduir.

– Selevran, não!

A euforia e inexperiência de Selevran se voltou contra ele.

Seu corpo foi transpassado pela lança e arremessado a vários metros de distância.

– Sereius!

O grande homem leão se preparou para investir.

– Hora de acabar com isso. – concluiu o inquisidor.

O Hudger o observou sem entender o que o seu inimigo pretendia.

– El-lererregardium Sombrick! – trevas emanaram da mão de Auduir cegando e atordoando seu oponente. Para, finalmente, receber o golpe final.

– Uive, Marrak-Tzzu! – a lâmina de Auduir se encheu de uma energia vermelho sangue. Ele a desceu atingindo o chão liberando uma grande onde de energia contra o Hudger o arremessando a muitos metros contra uma pedra. Finalizando o combate.

Pensei que não iria me despertar, meu senhor.” – disse a espada falando diretamente dentro da mente de Auduir.

“só em ultimo caso” respondeu o cavaleiro que correu na direção de seu aprendiz.

entendo…” – a espada se calou e energia ao redor dela se dissipou.

– Selevran, como está?

O Garoto vomitava sangue, que vertia também de seu ferimento no abdômen.

– Calma vou arrumar isso para você. El-lererregardium Avilathium!

Luz como que a do sol emanou das mãos dele e em segundos os ferimento do garoto estavam fechados.

– Pode andar, Selevran?

– Creio que sim, mestre.

– Para onde foram os outros Hudger’s?

– Fugiram. Saíram correndo quando nos viram atacar, mestre.

– Agora teremos um problema.

– Posso rastreá-los, mestre.

– Não diga tolices, garoto, seus ferimentos estão curados. Mas você perdeu muito sangue, está fraco! Além do mais, mesmo fraco, vou precisar de você.

– Em que, mestre?

– Necessito de ajuda pra carregar o grandão ali pro acampamento.

– Carregá-lo? Como? Por que não o matamos e deixamos aqui?

– Tudo pra você se resume a matar, Selevran? Temos de descobrir uma maneira de acabar com a guerra contra os Hudger’s. E talvez este seja o momento certo.

– O que quer dizer com isso, mestre?

– Você vera. Agora me ajude aqui.

***

O dia nascia, e o acampamento acordava com ele.

Os soldados do exército unificado se reuniam ao redor da tenda de Auduir.

Dentro dela, estavam os dois inquisidores, o comandante e o subcomandante das tropas, e, junto com eles, Téocrath, o conselheiro.

Preso a ferros, no centro da tenda, se encontrava um Hudger desacordado.

– Pelo Deus Eterno! Por que o trouxe pra cá Auduir! – berrou Téocrath.

– Ele é o nosso trunfo, Téocrath.

– Como assim?

– Ele pode nos dar informações do que nos espera à frente.

– Hudger’s são orgulhosos, mestre. O senhor mesmo me ensinou isso. Ele não nos ajudará, nem que o torturássemos. – ponderou Selevran.

– Sim, eu sei. Mas algo me diz que ele nos ajudará. E tenho certeza que fará isso com ou sem a sua permissão. Eu soube disso ontem quando encontramos o acampamento e ouvimos a conversa deles.

– O que tem a conversa deles, mestre?

– Este é Larathan Lança de Prata, um dos herdeiros do trono de Arragarrhu.

– Não pode ser… – o olhar de Selevran era de perplexidade.

– Ele é um dos possíveis futuros regente do Império Judger. Acima de tudo, meu jovem aprendiz, este homem leão é a nossa garantia de vida. E talvez até de paz.

– Pelo Deus Eterno! – Téocrath quase caiu.

– Nós vamos sobreviver… – disse Auduir com fogo nos olhos, agora, finalmente, ele tinha um plano. – Nós vamos sobreviver…

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