Torre de Pedra – Lucyus

Jamie1

Por L. Orleander

Como lhes disse Mikaela era uma garota… Mulher forte, e assim passou a ser vista por seus companheiros, ou como ela preferia chamar, irmãos de arma. Foi quando recebemos a visita do arauto do reino de  Nivarní, um grande negociante de Halledor. Falcon ficou feliz ao vê – lo chegar, significava que seu pedido ao rei Welton havia sido atendido, ele mandou chamar a filha, teríamos visita em breve, Mikaela ignorou, apenas fez uma reverência ao pai, como soldados fariam e deu – lhe as costas. Eurador coçou a cabeça com as feições preocupadas, parece que estava prevendo que a garota lhe daria trabalho.

A visita de um príncipe, em busca de uma noiva se espalhou pelo povoado e não havia outra coisa a se falar no castelo, Mikaela não gostou e não chegou perto de nenhum preparativo, como dama real era seu dever participar e escolher cada detalhe, ela simplesmente largou nas mãos de Isadrea e suas damas de companhia.

– Não tenho tempo pra essas coisas… – foi tudo o que ela disse.

Os preparativos se tornaram a euforia de todos que ali habitavam, foram chamadas costureiras e nenhuma acertava o gosto dela, professores de dança, ela trocava pela espada. Eurador ria ao vê – lá fugir das aulas batendo os pés e gritando que estava no meio do inferno, logo o rei era chamado e ia buscar a filha no meio dos duelos, ao que ela dizia ser apenas mais um e prometia que receberia tal visita.

Foi aí que eu atravessei esse pequeno relato, ou seria extenso? Bom isso você poderá me dizer depois.

Eu tinha 25 anos quando a conheci, de um forma não tão cortês, mas é a lembrança que sempre me lembra dos motivos que…

Bem eu não era o exemplo de beleza que se espera encontrar em um príncipe bem cuidado, eu era um soldado, não tive vida fácil, fui forjado pela dor e fui abandonado a própria sorte.

Eu tinha o olho esquerdo cego graças a cicatriz em forma de minguante que eu carregava na face, Eurador  me conheceu ainda pequeno, ladrão de frutas no mercado, exatamente no dia em que ganhei esta cicatriz, o dono da barraca de maçã se enfureceu, eu realmente não fazia por mal, precisava sobreviver. Tinha 12 anos quando a lâmina cortou – me a face…

Eurador vivia só, perdeu a esposa para a doença e a filha casara – se com um mercante e vivia bem no reino vizinho, ele terminou de me criar e com isso segui o caminho até a guarda do Norte.

O reino estava em festa, e o castelo fervilhava em bandeirolas e músicas de Nivarní, tudo para agradar a Edgar, o príncipe. Minha missão naquela noite, cuidar para que a princesa estivesse ao lado do rei e de seus nobres, para recepcionar o príncipe, o que não aconteceu, Mikaela se atrasou e Edgar chegou primeiro, foi ovacionado e recebeu seu lugar ao lado esquerdo de Falcon, que estava irritado pela afronta da filha.

Falcon temia que isso ocorresse se os companheiros de arma da princesa fossem escolta – lá, por isso eu estava lá, para defendê – lá, manter ocultas as atividades de Mikaela e fazê – lá chegar no horário, mas o plano falhou.

No regimento Norte, não tínhamos contato com outros espadachins, nos era designado cuidar dos portões da cidade e dos intrusos indesejáveis que ameaçavam o reino, o que eu sabia de Mikaela ouvia de companheiros e de soldados que iam e vinham dos outros regimentos, admiradores da força e da beleza dela.

Fui designado junto á mais três companheiros para a missão, e lá estávamos nós esperando em formação pelo momento em que ela decidiria sair do quarto.

A ama passou por nós correndo e nos direcionando um olhar carrancudo, adentrando o quarto e batendo a porta com um estrondo.

– Minha menina! – ela pareceu apavorada, nós nos entreolhamos e colocamos a mão no punho da espada.

– Isadrea, cale – se e me deixe passar. – ouvimos a resposta de Mikaela.

Sua voz era firme e se quer pestanejou a passar pela porta.

O cabelo negro feito a noite, estava jogado de lado em uma trança perfeita ajustando – se a coroa dourada que reluzia sobre sua cabeça, mas nada brilhava mais que aqueles olhos verdes, a pele clara, as bochechas rosadas e o corpo esguio.

Ela não parecia ter 15 anos, era uma linda mulher, mas o que nos deixou embasbacados foram suas vestes.

O vestido era negro como seus cabelos e o espartilho de mesmo tom, feito em couro. A gola alta carregava o brasão da ala Sul unido ao brasão real em tons dourados cravejados de safiras azuis, ela usava botas e luvas de montaria e pelo o que notávamos, era como as rainhas ancestrais, estava pronta para ir para um campo de batalha e não para uma festa.

Nenhum de nós tinha reação.

– Vão ficar todos me olhando com cara de idiotas? – perguntou – nos ela com rispidez, cruzando as mãos nas costas.

Milady, vosso pai a espera em trajes de festa, adequado ao momento…- disse eu sem pensar, num impulso idiota.

– Diga – me soldado. Em algum momento pedi sua opinião sobre como devo me vestir? – os lábios vermelhos formavam uma linha reta em sua face enquanto verde esmeraldino se tornava algo frio de olhar, senti algo dentro de mim estilhaçar não de raiva, mas admiração.

Ninguém ousou dizer mais nada…

Ao adentrarmos o salão sentimos as mãos esfriarem e o suor escorrer frio em nossas faces, a música parou e olhar se voltou para nós, ao fundo do salão, com assombro. A risada de Eurador ecoou no recinto, calando – se em seguida e deixando a taça escorregar de seus dedos, fazendo um som estrondoso.

Falcon, empalideceu, Edgar engasgou – se com a bebida e logo os nobres da corte começaram a cochichar entre si, os conselheiros espantados tentavam abrir caminho pela multidão na esperança de afastar Mikaela e fazê – lá voltar aos aposentos para trocar – se.

– Boa noite senhores! – ela disse efusiva e confiante. Desvencilhou – se de nós e da mão de um dos conselheiros e caminhou até o rei, reverenciou – o e sentou – se a sua direita, onde deveria estar a rainha, mas isto explicamos depois, é um tanto complicado e tenha certeza ainda irá nos roubar esta Mikaela.

Pelo o que pareceu uma eternidade todos se calaram, até que o príncipe sorriu e levantou – se da mesa e prostrou – se diante do trono da segunda rainha.

Milady, que prazer ter sua beleza em nossa presença. – levantou – se e rendeu um brinde em honra a princesa, que apenas acenou com a cabeça, as palmas ecoaram no salão e o clima tornou – se ameno novamente, relaxando os músculos que em mim estavam rígidos.

O desastre não seria tão grande assim.

O jantar seguia alegre e nos posicionamos na saída, aguardaríamos até a hora em que Mikaela decidisse deixar o recinto e se recolhesse a seus aposentos.

Mikaela mandou que nos servissem e nos dispensou da tarefa dada por seu pai, ao qual declinamos, fizemos um juramento e isso implicava em não deixa – lá voltar sozinha ao quarto. Nos alimentamos e nos mantemos em nossos postos.

Mikaela decidiu partir por voltas das duas da madrugada, e como de costume cada guarda ficaria em um ponto estratégico do caminho.

Seu rosto estava iluminado pela luz dos candelabros e face rosada, um lindo sorriso para uma bela dama, o último a companhar a princesa fui eu.

O silêncio instaurou – se entre nós e os ecos da festa acabaram ao longo do caminho, torcendo as mãos e pensativa Mikaela olhava o caminho a sua frente, era – me difícil não tentar absorver aquela imagem na mente, eu não deveria, mas ela tinha mexido em algo dentro de mim.

– Perdoe – me por mais cedo, Sir

– Lucyus, minha senhora. Mas sou apenas um soldado. – fiz a reverência sem olha – lá nos olhos quando paramos diante de sua porta. – Não há o que perdoar, foi imprudente de minha parte proferir tais palavras.

–  Levante – se Lucyus. E diga – me por que uma mulher não pode governar seu reino sozinha? – perguntou – me ela com os olhos brilhantes me fitando.

Eu não tive resposta ou reação, a luz da Lua alcançava sua silhueta e fazia dela um ser místico.

– São as leis, minha senhora. – respondi dando um passo a frente e parando antes do próximo, minha vontade era de toca – lá. Caí de joelhos e novamente me desculpei por falar.

– Em meu reinado, você será meu conselheiro, Lord Lucyus. Acredite – me. – ela trancou a porta antes mesmo que eu pudesse lhe desejar uma boa noite.

Não consegui pregar os olhos naquela noite, a voz dela ecoava em minha mente junto as feições dela.

Maldita maldição que me afastou de Mikaela…

CONTINUA…

 

 

 

 

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