In Memorian…

pés1

Por L. Orleander

“Sunday is gloomy
My hours are slumberless
Dearest the shadows
I live with are numberless…” ¹

Os pés ainda estavam balançando de um lado a outro, dando seus últimos espasmos… O último suspiro de resistência á Dama Negra.

Sentei -me aos pés da cama e assisti silenciosamente ao sangue subir em meus olhos, fazendo com que a pupila dilatasse e perdesse aquele falso brilho que tanto demonstrei.

Meu corpo lutou até o último instante, a dor deveria ter desaparecido de imediato, pelo menos achei que assim seria. Me enganei, não era poético, nem teatral e nem libertador.

Minhas mãos ao redor daquilo que me tirava o ar, me tornei meu próprio monstro, alucinado e com medo, ainda não era o fim. Mas por que?

Meu corpo estático, lamentos e lágrimas por ele ali, sem vida, sem cor e sem voz. O que eu fiz?

As sombras cercaram – me ora rindo, ora sussurrando, sufocando – me, colocando – me de joelhos diante de meus próprios olhos rubros.

O ar cheirava a podridão e eu não me sentia em meu lar, o aconchego que ali houverá dava lugar ao desespero.

Aves de rapina grasnavam enquanto alimentavam – se da carne em decomposição de tantos outros que me olhavam estendendo as mãos: “Me ajude…”, clamava o sussurro quase inaudível.

O corpo jazia em vestes velhas, a carne colada aos ossos misturadas a sangue e lama, cães deformados arrancavam tendões e brigavam pelos míseros pedaços pútridos.

Corpos ladeavam a margem do caminho gemendo de dor, enquanto alguns convulsionavam e vomitavam o que havia dentro de si, o cheiro era acre e me dava náuseas, outros ainda choravam e olhavam o sangue verter aos borbotões de seus pulsos que pendurados, não deixavam se quer as mãos se levantarem.

Chovia cinzas, sangue, sal e algo igual a ácido, queimava quando tocava a pele, a lama negra prendia meus pés me impedindo de caminhar, me mantendo parado, afundando – me na carnificina de corpos boiando ao meu redor, me prendendo a mãos que arrastavam – me para o fundo.

Era um pesadelo ruim, de tantos que eu vivia todos os dias antes de sorrir, para os que me amavam.

Eu ouvia suas lágrimas… Milhares… Bilhares…

As perguntas, os porquês, as canções… Meu legado!

Senti a força de mil mãos arrancarem – me o ar, no mastro hasteado, estava eu pendurado, pedindo socorro, vertendo lágrimas, sem ser visto ou escutado.

Tem dias que tudo volta, se repete feito um filme macabro que corre de trás pra frente, os vermes comem minha pele e se arrastam por minhas veias, a dor lancinante quer sair por entre os lábios mas a corda que me prende a impede.

Ouço risos de escárnio e vejo minhas roupas tornarem – se farrapos, meus olhos são apenas duas órbitas secas movimentando – se de um lado a outro.

Ela chora por mim… Ela ora por mim… Pede ao céu uma segunda chance.

Olha a multidão diante de si e se faz de forte como um dia a conheci, eu posso suportar a dor por ela, por que ela vai me achar e me salvar.

Eu posso suportar dez infernos por ela, para que ela tenha a chance de ser feliz, não serei eu mais o fardo que a faz chorar silenciosa quando eu finjo dormir.

Por ela… Eu não a matarei mais…

Essa é a última vez que ouço a chorar meu amor, e depois tudo passará , voltarei a te ver sorrir nos dias de Domingo.

Não te verei se preocupar e logo mais você seguirá sua vida, o pôr do Sol, vai brilhar no seu sorriso.

Eu ainda os ouço cantar… Forte, vivo e com a alma…

Alma… Quando será que deixei eles levarem a minha?

 

¹ – Gloomy Sunday – Billie Holiday
“Domingo é sombrio
Minhas horas são insones
Queridas são as sombras
Com que eu vivo, são inúmeras…”

 

 

 

 

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