Virtutis Arcane: O poder arcano parte 1

Sem Título-1

Eu peço seu perdão, pois há muito o que falar sobre a vida de um arcanista, e eu sou o único que pode contar toda a sua história. Este é meu fardo, bem como o que me aguarda depois. O final não é um grande mistério. Está escrito nas pedras estilhaçadas e paredes esfaceladas ao nosso redor e é sussurrado nos boatos que saem de todas as bocas.

Mas, quando o assunto é sobre seres de magia arcana, nada é tão simples, e esteja certo de que o que você viu e ouviu não é o fim.

Enquanto eu convalescia em minha cama, após os clérigos descartarem risco de vida, eu não tinha nada para fazer além de revisitar as lembranças distantes dos dias antigos, em busca do padrão que prenunciasse esta grande catástrofe. Eu conheço ela melhor do que qualquer um, melhor do que ela própria, embora ela jamais vá admitir isso. Ela pode muito bem ser a mais poderosa maga de nossa era. Seu coração é puro e ela não quer nada além de fazer o bem, mas ainda suas ações a fazem tola, que às vezes se crê invencível. Erros da juventude e da genialidade. Não há regra que ela não quebrasse, e ela jamais entendeu o significado das palavras “não pode” e “não deve”. Foi assim desde que nos conhecemos, há tantos anos.

Em um dia parecido com este.

 Ragnus, veio até meus aposentos trazendo um jovem à sua frente. Eles eram tão diferentes quanto fogo e gelo. Ragnus tinha uma aparência régia e resplandecente, vestido com uma bela túnica preta, coberta de joias de ouro, enquanto a jovem parecia um pássaro amedrontado e curioso com a cabeça indo de um lado a outro e os olhos disparando por toda parte, fascinados pelos objetos em volta: os livros nas prateleiras, armas arcanas cujo uso era um mistério para sua cabeça. A túnica da jovem não passava de trapos rotos e manchados de suor e poeira. Ela passaria facilmente por uma das crianças de rua que atormentavam os mercadores ricos no bazar de Valyr. Seus cabelos negros eram um ninho de passarinho, embaraçados e quebradiços, empastados de lama e pó como o resto. Sua pele estava queimada de sol e seus lábios estavam rachados e descascando.

— Então, esta é a garota? — Perguntei a Ragnus, olhando para a criança andrajosa diante dele.

Ele olhou para a garota, hesitante.

— Eu a encontrei no pátio duelando com Mariz, Alexs e Tabata. — A voz do feiticeiro evidenciava irritação. — Eles estavam ansiosos para aceitar o desafio.

— Ela não parece machucada — respondi. — E quanto aos outros?

— Tabata e Mariz estão sendo atendidos pelos médicos. Já Alexs machucou somente o orgulho próprio.

A menina sorriu ao ouvir aquilo.

— Talvez tenha sido melhor assim — observei. — Aqueles três bem merecem uma lição de humildade. Falarei com eles mais tarde.

— Mas você vai falar comigo agora, papai — disse a menina. Ela tinha uma voz forte de comando, amplificada pela coragem nascida da confiança infantil.

— Ela fala! — Comentei e sorri para Ragnus.

— Ah, fala — disse Ragnus, secamente. — E bastante, desde que o senhor a tirou do castigo de Algeron.

— Por que você me trouxe aqui? — Perguntou a menina, olhando para o alto e vendo na face do caçador uma expressão séria.

— Eu sou Ragnus, alto conselheiro dos Isegrin e mestre dos cavaleiros do Santuário Celeste.

A menina ficou em silêncio por um bom tempo, me observando.

Eu ri.

— Diga-me, filha, por que você veio ao Santuário? Com certeza você ambiciona algo mais do que mandar meus aprendizes para a enfermaria.

— Eu não sou sua filha, não mais…

O seu olhar penetrou em minha alma como um cão devora o frango na caça.

– Eu sou uma caçadora arcana agora, e vou vingar a morte da mamãe, coisa que o senhor não fez.

— Eis aí uma declaração ousada — ironizei. Tive que me esforçar para conter a calma ao ouvir a menina usar o título de “caçadora arcana”, reservado apenas aos celestiais mais poderosos da história, sempre citados pelo povo e pelos conhecedores das artes arcanas com medo e pavor.

— Não são só palavras — retrucou, com um tom sinistro.

Ergui a mão para acalmá-la e disse:

— Então me mostre.

Eu mal acabara de falar quando um forte sopro de vento cruzou a minha mesa, espalhando todos os papéis, livros e tinteiros, derrubando tudo no chão em um monte desordenado. Minha expressão permaneceu neutra, e foi interpretada pela menina como um pedido de bis. A jovem abriu os braços e criou duas bestas de fogo de pequeno porte de pura magia sombria na palma das mãos. A flecha que estava nela era dourada como ouro e se duplicou como um espelho, a explosão de ar soprou seus cabelos em desalinho, e as chamas refletiram naqueles olhos castanhos.

Eu dei de ombros, dizendo:

— Um mero truque de iniciante.

A jovem rilhou os dentes, frustrada lançou duas flechas em minha direção, embora o calor persistisse. Com outro movimento do braço, serpentinas incandescentes, vermelhas e cor de laranja, ganharam vida e dançaram em cima de minha mesa. A jovem moveu o braço novamente e fileiras de livros saíram das prateleiras e ficaram suspensos no ar. Ela os fez flutuar numa fila pela sala e eles a cercaram girando como se capturados por um redemoinho. Então, empilhou os livros um a um, no formato de um trono, sentou-se nele e me encarou.

A novata ergueu uma sobrancelha e eu respondi com um aplauso comedido.

— Isso é o melhor que você pode fazer, menina? — Perguntei.

 Movi a mão displicentemente e as chamas em minha mesa se apagaram. Os livros em que ela se sentava caíram no chão, desordenados. A jovem se levantou com um pulo e evitou cair junto com o trono.

— As pessoas temiam os caçadores chamados arcanistas. Eles deixaram o mundo à beira do caos muitas vezes, e seu imenso poder incontido fazia a terra tremer com seus planos. Eles se associavam com renegados do Inferno Ardente e faziam pactos para condenar todos nós. Trapaceavam a morte e destruíam o próprio tecido da realidade. Você bagunçou os objetos de um velho e ateou fogo numa mesa.

— Eu consigo fazer mais — argumentou ela, defensivamente. — Um dia eu vou ser a maior caçadora do mundo, e vingarei a morte de minha mãe.

— Pela minha experiência, é possível esperar um longo tempo por esse dia e ainda se desapontar quando ele finalmente chegar.

— O senhor ouviu falar do milagre no Vale das Garças?

— Eu ouvi falar dessa história. Algo sobre uma jovem que tentou melhorar as coisas, derrubando um draconiano que matava as pessoas pela região — respondi distraidamente. — Parece que chamaram essa menina de caçadora arcana.

— Essa arcana sou eu — orgulhou-se a jovem. — Fazia meses que o número de mortes e torturas estava aumentando. As redondezas estavam sombrias demais. O povo do vale achava que não havia nada a fazer a não ser esperar que os cavaleiros os salvassem. Mas eu sabia que podia fazer o que os deuses não podiam, já que estava por perto, decidi ajudar eles.

— É mais prudente não falar dos cavaleiros tão levianamente. Você verá. -Ragnus olhou vidrado nos olhos da menina.

A jovem ignorou o comentário e continuou:

— Eu procurei por toda parte. Coletei sangue de poços no fundo da terra e dos últimos fiapos de carne que restavam em leitos rachados. Juntei toda a carne e sangue que consegui e a lancei ao vento para criar uma tempestade para atrair o draconiano para caça-lo. Nada aconteceu a princípio, e as pessoas me chamaram de tola por ficar agitando os braços. Mas eu sabia. As horas se passaram e o céu escureceu. Nuvens cinzas diáfanas apareceram, preenchendo o horizonte e aumentando de tamanho até obscurecer o sol completamente. As nuvens pesadas liberaram uma forte energia que ficou da cor da noite, e suas sombras se espalhavam pelo vale, as arvores pareciam ganhar vida, e o cheiro de carne podre  deixava o clima mais agradável. Os que tinham rido começaram a acreditar. O som de trovão ecoou de todas as direções e clarões de luz acenderam as nuvens por dentro. O ar ficou úmido e eu senti o enxofre na pele.

A névoa desceu das montanhas e tornou-se uma doce neblina para a caça, ao sentir o cheiro minhas flechas perfuraram não apenas o draconiano que estava ali, mais também a fenda que libertou ele e o prendeu novamente, levando ele de volta ao submundo. A terra bebeu todo o sangue dele e o vale voltou a fluir. Isso é o que eu posso fazer.

Ragnus parecia incrédulo. Ele disse:

— Nenhuma criança conseguiria fazer isso.

— Só porque você não consegue não quer dizer que eu não consiga — disse a jovem ao cavaleiro.

— Eu também não acreditei, a princípio — expliquei a Ragnus — Mas ouvi as histórias a respeito. Aconteceu exatamente assim. Exceto por alguns detalhes que ela não mencionou.

O sorriso desapareceu do seu rosto, embora seu queixo ainda estivesse erguido em desafio. Insisti:

— Depois que o draconiano se foi, algo maior apareceu, muito pior do que um simples hibrido. As pessoas apontaram os dedos para a arcanista que havia o libertado acusando a mesma de que ela trouxe o demônio da montanha.

Com a voz suave, ela explicou:

— Os que tinham me louvado exigiram que eu fosse expulsa. Eu só queria ajudar. Não sabia que iria acontecer isso.

— As pessoas não confiam em arcanos. Elas temem o que não compreendem. Qualquer arcano treinado no Santuário saberia dos perigos envolvidos no que você tentou fazer. — Ofereci um sorriso à menina e continuei. — E devo dizer… Se eles tivessem tentado a mesma coisa, não creio que teriam conseguido nem metade do que você fez.

A jovem percebeu minha mudança de atitude e pediu:

— Então me ensine, me deixe ser uma caçadora melhor, me deixe ser melhor que minha mãe.

— Eu considerarei isso. Mas agora que tocou no assunto, deixe te falar uma coisa, nenhum caçador será e foi melhor que sua mãe, e por mais que você leve o sangue de uma caçadora e de um cavaleiro, ainda não tenho certeza se você tem o que é preciso para estudar aqui. Você tem muito a aprender, mais ainda a desaprender, e não sei se você tem força de vontade para ir até o fim.

— Você não sabe o que diz! Eu sou mais forte que os seus aprendizes. Traga todos aqui e eu vou lhe mostrar! Eu enfrento até você se for preciso, pai. Não importa. Atravessei mar e deserto para estudar aqui, e eu vou.

— A decisão não é sua. É minha — afirmei.

— Deixe-me ensiná-la — Ragnus interrompeu abruptamente.

— O quê?  — Indaguei.

A jovem olhou desconfiada para o cavaleiro.

— Tem algo diferente nela. Como você disse, pode não dar em nada, mas eu e você vemos potencial nela, e primeiro ela tem que se provar uma lutadora e depois quem sabe uma caçadora nata. Pode acontecer, um dia, de nós precisarmos dela, e então nos arrependeremos de tê-la mandado embora. — Ragnus sorriu. — E talvez eu veja um pouco de mim nela.

A jovem sacudiu a cabeça e reclamou:

— Eu não quero você. Quero que o meu pai ali me ensine.

Ragnus franziu a testa.

— Você devia estar feliz. Eu lutei contra os Tyranytars quando você não passava de um brilho no olho do seu pai. E não fiz isso para acabar ensinando magia e luta a uma criança mal-educada, mas eis a minha oferta.

— E minha resposta é não — desdenhou a criança

Eu fiquei em silêncio enquanto considerava se devia permitir tal parceria. Ragnus não tinha ninguém para desafiar suas habilidades e era quase do meu nível. Toda a sua experiência com certeza fascinaria a menina e prenderia sua atenção. Mas eu tinha algumas preocupações.

— Quietos— exclamei ao me levantar. — Vocês dois como irmãos, deveriam…. Antes de terminar a jovem salta diante de mim e solta um grito de susto.

—Irmãos? Como assim? Eu não poso ser irmã de um cavaleiro celestial fraco que nem ele, ele nem deve saber usar as magias de um arcano. — A jovem olhava fixamente com ódio nos meus olhos.

—O conhecimento de seu irmão sobre magia tanto arcana quanto de caça rivaliza com o da mãe de vocês, e creio que vocês descobrirão que têm muito em comum. Não poderia haver melhor professor. Se eu fosse você, rezaria para que ele não te deixe debilitada antes de começar as aulas. Aceite-o, ou então vamos ver como você se sai sozinha. A história está cheia de arcanos esquecidos que nunca deram em nada, e será uma pena pois seria um belo jeito de pelo menos se equiparar a sua mãe.

A jovem olhou fixamente e com um simples balançar de cabeça se virou e saiu da sala e bateu a porta com força.

—Meu pai, será que ela está pronta para toda a verdade?

—Conte aos poucos cada detalhe, e quando for a hora de falar de sua mãe, eu falarei tudo.

—Agora vá, e ensine a Alice a ser a melhor caçadora arcana que Isegrin terá.

 

 

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