Dia 7… – Um novo som, para uma antiga música

  • 7m

Por L. Orleander

Ok, não posso viver sem você, não posso ignorar sua presença. É, eu acho que chegou a hora de procurar uma clínica de reabilitação e me internar, dizer ao médico que me vicio tem piorado cada dia mais, e que é impossível me manter longe da camisa de força.

Eu disse que pararia de escrever, como também havia dito que queimaria tudo que era seu que ainda está aqui, e o que eu faço? Trago mais…

Não consegui, sou fraca, como tantas vezes você disse:

Frágil… Mas sei que aí dentro existe uma mulher forte capaz de reerguer sempre que cair. Até lá, estarei com você…”

Chorei naquele dia, você me ouviu, me perguntou como eu estava, e o nó na garganta se desfez…

Noite passada, outro Inferno em Terra nada de sono. Lágrimas, mas me mantive sóbria, cansei de te matar em mim, me matando aos poucos.

Ainda me lembro da única vez que vi você chorar, me preocupei, a dor que perpassou meu peito, parecia me arrancar um pedaço. Pensei em coisas graves e chorei por não poder te ater á meus braços, quem ousava roubar o teu sorriso e transforma – lo em lágrimas? Sorriso esse que eu sentia tão meu.

Era apenas uma lembrança triste, me disse você quando bateu – me a porta, meus braços se estreitaram, e ali te senti tão pequeno e indefeso, nem parecia que o “irmão gêmeo do mal” morava ali.

Nos deitamos no escuro e ficamos ali escutando as suas músicas, quietos até que você se acalmou e eu o escutasse ressonar profundamente, dormindo tranquilamente.

Engraçado, eu me sentia feliz pela sua dor, não por você senti – lá, mas por eu estar ali, ao seu lado, velando seu sono, cuidando de você. Era eu sua companheira, e nada e nem ninguém no mundo podia mudar isso.

Lembro como se fosse hoje seus dedos enrolados em meu cabelo quando acordei, o silêncio no quarto e seu sorriso, acho que foi o mais lindo que já vi.

O cabelo bagunçado, a barba por fazer, eu poderia ter passado o dia todo ali.

Você passou a semana, e foram as melhores lembranças, minha felicidade eternizada…

Garfunkel ainda tocava quando nos levantamos do sofá, enquanto na minha mente dançava a lembrança da moça fazendo um cover que ficará perfeito, e você corria a mão no celular pra me mostrar outra versão de The Sound of Silence¹, você a salvou em alguma pasta perdida do meu notebook e eu prometi procurar mais tarde para colocar no celular, ela me lembrava você.

Eu fico aqui lembrando os detalhes, o som da sua voz e sua risada, a camiseta desbotada, aquela que você deu fim numa tarde chuvosa depois de eu te zoar pela milésima vez.

Era Inverno, eu lia algum artigo de revista dessas fúteis que fazem as mulheres pirarem, quando ouvi sua música, larguei meu chá e corri pra sua casa, achei que tinha acontecido algo, você me pediu pra ir, mas foi ríspido e não me deu detalhes.

Sabe, eu não gostava de ir lá. Sua cama, era ameaçadora, seus móveis… Me lembravam aquele episódio do Doug que a mobília quer comer ele.

Mas meu motivo não o medo do filme de terror, eram os corpos que já estiveram ali. Corpos, abraços, beijos, sexo… Meu ciúmes…

Eu sentia mais do que deveria…

A casa parecia silenciosa, abri a porta e uma música que eu não conhecia, soava ao fundo vinda do seu escritório. Te chamei umas duas vezes, acho eu, e você respondeu de lá.

Os livros, os cadernos, as agendas, uma nova prateleira organizando seus arquivos, enquanto a outra estava quase vazia, achei muito bom, estava tudo arrumado agora, como eu não via desde… Acho que nunca esteve arrumado… Rs

A mesinha antiga deu lugar a uma maior, de costas pra porta estava você terminando de ligar o notebook ao lado do seu computador, um porta canetas e alguns rascunhos de suas poesias:

Seu lugar na minha casa. – disse você. – Viu, agora você pode ficar mais vezes…

É um convite? – perguntei por perguntar

– Um desejo… – ele respondeu.

Passei quase o mês e te vi dar os mais lindos sorrisos, contar as melhores histórias, me explicar tuas cicatrizes e comer a melhor comida que um homem pode fazer, você era caprichoso, gentil e cuidadoso, e essa sua face eu não iria esquecer.

Eu estava apaixonada…

Eu descobri isso a cada instante daqueles dias, um novo amigo, um novo irmão, um companheiro…

Não existiam mais segredos pra você e eu se quer queria os teus, lhe entregava de bom grado, você fazia eu me sentir segura e naquele momento era exatamente aquilo que eu queria.

Acho que foi aí que tudo começou a ruir, eu passei a sentir e você percebeu isso. Foi nesse meu pequeno deslize que te perdi…

19:47 hs – Terça  – Feira – São Paulo – SP

Mari

CONTINUA…

 

 

¹Música de Simon & Garfunkel, 1964.

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