Quando os pássaros se calam…

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Por L. Orleander

Tatuagens doem…

Possuem aquela ardência momentânea e ao mesmo tempo, aquela dor prazerosa  da agulha perfurando a fina camada que chamamos de pele, formando aquelas pequenas gotículas rubras.

Um vermelho carmesim, unido a tinta preta…

Aquela era a primeira e com certeza eu voltaria para fazer outra… Outras…

– A senhora já escolheu? – perguntou – me o rapaz com um pouco mais de trinta anos diante de mim.

– Este! – respondi com enfase, apontando para o desenho no catalogo. Não era da cor que eu amava, mas era a forma que me interessava sobre maneira, me ajudaria a recordar- me do necessário.

Vermelho…”

Apenas a menção da palavra me fazia suspirar e vislumbrar a cor quente e viva, era essa cor de meu cabelo. Assim como os lençóis de minha cama, a parede do meu quarto e as cortinas de minha janela.

Ela exercia um certo charme, eu diria até poder sobre mim, não a cor, mas o que ela representava.

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Eu o assistia se exibir todos os dias como um pedaço de carne fresca, prestes a ser degustado, era proposital. Bebendo água feito uma criança, deixava com que ela escorresse pelos cantos da boca, molhando o peito nu, no intuito de me provocar.

O gosto musical péssimo invadia meu quarto nas manhãs de Domingo como aquele parente chato que nós desprezamos até mesmo no modo simples de agir, me causava náuseas.

Eu o olhava com desprezo e ele me olhava com cobiça, eu precisava dar um fim naquilo. Eu faria um favor a mãe, que sempre o mandava procurar um emprego e a irmã, que se sentia injustiçada.

Leandro, era o nome que eu ouvia os amigos gritarem embaixo da janela, era apenas mais um verme nesta maçã podre e fétida que chamamos de sociedade.

A oportunidade me surgiu tão breve jogo , sem muito esforço e eu sentia cada célula de meu corpo clamar por mais este jogo, um jogo que até então ele insistia e jogar sozinho.

“Vermelho… Pequenas gotículas vermelhas…Carmesim…”

Em minha mente ainda ouço o arfar profano sobre meu corpo. Ofegante, suor escorrendo pelo peito, olhos fechados, prazer estampado na face. O corpo enrijecia os músculos a cada movimento frenético.

Roupas estavam espalhadas pelo chão, no quarto de motel barato.

Olhos tão verdes e cabelos tão negros me devoravam em tesão.

Aquela boca carnuda me instigava a arranca – lá em pedaços e mastiga – la com voracidade, na esperança de saber se o sangue que ali habitava era tão doce e apetitoso quanto os lábios.

As mãos frias tocavam – me o corpo e aquilo me causava arrepios.

Vermelho…”

Eu pensava na cor e mordiscava o lóbulo da orelha o que o fazia fechar os olhos em resposta.

Minhas unhas cravavam – se fundas na carne, era – me desesperador a sensação de rasgar a pele e ter a ponta dos dedos molhadas no meu precioso líquido. Quente, viscoso e cheiroso. O néctar dos Deuses.

Leandro urrava de prazer, o sexo o alimentava, mas o calor me deixava em êxtase.

Passei a ponta de meus dedos nos lábios, enquanto a bela ave de rapina lá fora grasnava em tom de alerta, a hora se aproximava.

Ele era apenas mais um verme… Mais um de tantos que eu já havia matado…

Na manhã seguinte ninguém se quer saberia de sua existência, as pessoas sempre esquecem coisas, é assim que elas deixam de existir por aqui.

Leandro atingia o clímax de seu prazer, seu pequeno e ínfimo, ultimo momento de vida. Ele urrou uma vez mais e explodiu em mim, caindo cansado sobre o travesseiro com cheiro de baunilha barato.

O corpo tremeu em pequenas convulsões silenciosas, enquanto ele espumava feito cão raivoso, o sangue pulsava na jugular, meus dentes tinham vontade própria, era hora de me alimentar. Quente.

Ainda lembro – me de vê – lo sorrir com desdém, antes de me beijar e fazer – me ajoelhar – se diante de seu membro, engasgando – me forçosamente…

A agulha entrou um pouco mais fundo e senti a tensão do tatuador ao ver isso, em um desespero mudo de fechar o ferimento, eu via através do espelho.

O sangue negro corria sobre o bico do corvo recém tatuado, enquanto eu sorri…

‘”Vermelho…” – algo sussurrou em minha mente.

Os olhos do tatuador estavam perdidos no nada, sem brilho e sem vida, enquanto a pele colava – se aos ossos, tornando – se em seguida poeira. Ninguém se quer me viu sair.

O Sol ia alto no céu, o chapéu negro escondia minha pele e o óculos, meus olhos.

O corvo grasnava, cortando o céu como quem rasga um véu…

 

 

 

 

 

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