Princesa Infernal [Parte 4] – Despertar

Escrito por: A.J. Perez

Princesa Infernal – Capítulo 4: Despertar

Só havia o vazio.

O Nada reinava em absoluta inexistência.

Então houve luz.

Como a fusão de um milhão de estrelas, rugindo em expansão, quebrando o nada, tornando-o em algo mais.

Estilhaços como de milhares de espelhos preencheram os golfos negros, tilintando uns contra os outros enquanto flutuavam sem rumo.

“O… que é… isso?”— questionou uma voz arrastada como se tomada por um torpor.

Dois estilhaços de espelho cada um contendo uma imagem se colidiram, derretendo em seguida, girando e se fundindo até se tornarem outro, agora o reflexo neles se movia.

“Eu me… lembro de algo…”— disse a voz ainda sem entender a situação.

Logo uma reação em cadeia se iniciou, os fragmentos se batiam de modo frenético uns contra os outros procurando seus pares. para em seguida irem atras de outro par. ficando cada vez maiores, mais complexos.

Os pedaços de memoria se espremiam ao ponto de trincar, quando um calor alem de qualquer entendimento os atingiu.

Eles derreteram, formando um cintilante silhueta feminina.

“Eu me lembro…”

Ela estava em um oceano gélido e escuro. Afundando lentamente rumo ao abismo. Acima dela a água era banhada por uma luz vermelha, fraca. tremeluzindo sobre o movimento das águas que se movimentavam na superfície.

Suas grande e imponentes asas rubras estavam cheias abertas assim como seus braços enquanto ela lentamente descia. Até que ela parou.

Um voz feminina soou aos ouvidos dela.

— Olá criança. —  a voz era incrivelmente gentil e amorosa.

Mirah tentou olhar para trás, mas não conseguiu. A mulher colou seu corpo ao dela, a garota podia sentir ela atras de si a envolvendo em um abraço de afeto enquanto os negros e longos cabelos de ambas as mulheres se misturavam em meio as águas.

— Eu morri? — questionou Samirah.

— Sim, você foi morta.

— Eu… deveria desaparecer… a espada… a espada celeste destrói a alma. — ela não sentia tristeza ao falar. O oceano anestesiava seus sentimentos.

A mulher riu baixo.

— Ah Samirah. Doce criança, você não faz ideia do que é. Nada pode destruir você, ao menos por enquanto.

— Não entendo…

Você entenderá, em breve… eu posso sentir. Por enquanto você apenas deve pensar nisso como um presente da sua mãe.

— Você… conhece minha mãe?

— Sim. Mas quem ela é, o que ela é, cabe a você desvendar. Não temos muito tempo, não posso segura-la mais. Tenho um amigo ele vai manter você em segurança. Até que retome aquilo que é seu.

— Espere, por favor me conte mais…

Não posso, sinto muito.

O corpo dela se moveu com uma velocidade surpreendente rumo ao superfície.

— Quem é você?

Eu sou Morte…

***

O ar invadiu os pulmões de Samirah enquanto ela abria os olhos fazendo seu corpo se arquear para cima, enquanto ela o puxava com toda a força, como se tivesse estivesse buscando oxigênio depois de uma longa apneia.

Ela se moveu para o lado, seu peito doía, ela pôs a mão entre os seios na busca de uma cicatriz, mas não encontrou nada.

Ela se permitiu deitar mais uma vez e olhou ainda de modo desfocado as grandes e frondosas arvores acima dela.

Respirou fundo e então abriu os olhos em choque. Olhando incrédula mais uma vez para o que havia visto.

Arvores frondosas e verdes entraram no seu campo de visão, acima delas entre as copas altas podia se ver o firmamento claro de um azul intenso e vivo.

Ela ficou paralisada por alguns instantes, até que um grupo de pássaros cruzou sua visão, dando o voo rasante logo acima dela. Ela deslisou as mãos surpresa, sentindo as folhas verdes que brotavam do chão ao seu redor. O calor gentil do sol aquecendo a tudo, enquanto um coral de pássaros cantava ao longe.

Que lugar era aquele?

Ela nunca tinha visto nada assim em toda a sua vida, tudo era vibrante, colorido, vivo.

— Isso é o Paraíso Celeste? Por que a morte me mandaria para o paraíso…

Ela se lembrou de Yekun, e sentiu o raiva ferver dentro dela.

— Aquele traidor… — os dentes dela se travaram, pressionando uns contra os outros quase ao ponto de quebrarem — Como pode fazer isso comigo, como fazer isso com… com meu pai.

Era a primeira vez que ela pensava em seu pai, e agora o horror do que poderia ter acontecido com ele lhe vinha a mente. Yekun havia matado ele? Yekun seria capaz de matar Lúcifer?

Não” pensou ela se pondo eu pé, “Sou tola, mas meu pai não é.

— Logo ele enviará a guarda infernal me buscar. Tenho certeza. — ela sacudiu a cabeça tentando afastar os pensamentos ruins quando viu uma criatura quadrupede próxima dela e congelou.

Instintivamente sua mão buscou a espada na cintura, ao encontra-la ela fechou a mão ao redor do capo de vagar. poderia ser um predador feroz.

O animal de pelagem castanha de um tom vivo e varias pintinhas brancas ao longo do torço se aproximou gentilmente dela a olhando com curiosidade.

“Morte disse que enviaria alguém.” pensou ela.

— Olá, morte enviou você? — Questionou Mirah a criatura, que a um segundo olhar com mais atenção parecia incrivelmente delicada agora.

A pequena corsa se aproximou curiosa e lambeu a mão dela. A  garota recolheu a mão assustada, mas o animal não recuou. Apenas ficou a olhando.

Tomando coragem ela deslisou os dedos pelo pescoço no animal de modo gentil, enquanto se abaixava em frente a criatura.

— Você é um animal? Que estranho, não tem garras, ou presas mortais… Não parece querer me comer. — Ela fazia um comparativo mental  com todas as bestas violentas e brutais que habitavam o inferno, nunca havia visto uma criatura tão gentil antes.

— Você sabe onde acho o amigo da morte?

O animal apenas comia algumas folhas presas na roupa dela, em seus longos cabelos negros.

— Então você come isso? — Samirah olhou ao redor vendo que tudo ali era verde e parecido com as folhas que a corsa mordiscava — Você tem tudo isso de comida disponível, o tempo todo? Por isso não é agressiva, no inferno as coisas são bem diferentes.

Ela pegou uma folha verde no cabelo e pôs na boca.

— É meio sem gosto, mas ainda assim um pouco amargo. — sentenciou enquanto comia a folha.

Ao longe ela ouviu algo familiar.

Conheço essa musica… tenho ela no meu aparelho acústico. Ela começou a seguir a melodia e o canto, conforme se aproximava cantou junto. estranhamente a musica a lembrava de casa.

“Hellhounds at my heels
sharpen my wit, a raw deal
Don’t matter anyhow
My pace just wears them down
On and on” [1]

Conforme ela se aproxima do som, ela soltava mais a voz, seu corpo se movia em um balanço ritmado, ela nunca tinha sentido aqueli antes, seria algum efeito do paraíso?

“Don’t you get me wrong
I know I don’t belong
I’m just howlin at the moon
My curse will carry through
On and on” [2]

Ela saiu do meio das arvores e encontrou um terreno diferente, era de um cinza negro e rígido, um tipo estranho de caminho feito de uma unica pedra gigantesca. Do outro lado uma estranha e alongada casa com inúmeras estranhas criaturas de metal colorido. Acima do prédio um gigante estranho acenava repetidamente pra ela segurando algo que parecia uma perna de animal.

Sem pensar duas vezes ela se pôs a andar na direção do gigante, afinal devia ser ele que morte havia enviado.

Subitamente uma das crias de metal passou muito rápido por ela desviando e fazendo um barulho estridente e logo após gritar.

— Sai da estrada maluca, quer morrer!?

Ainda assustada ela olhou ao redor dando uma pequena corrida na direção do gigante olhando pra os dois lados para se certificar que nenhuma outra besta colorida estava se aproximando.

— Olá! — disse ela acenando para o gigante — A Morte enviou você?

Ela ficou encarando ele por algum tempo sem resposta.

— Olá! — gritou ela pondo as mãos ao redor da boca.

O som alto de algo se quebrando chegou até ela quando alguém atravessou uma janela do lugar, aterrizando sobre as centenas de pequenas pedras que circundavam o prédio.

— A morte mandou você? —perguntou ela pro homem caído.

— Chama a policia… disse o homem cuspindo um liquido vermelho da boca.

Três outro homens surgiram saindo da porta do prédio.

— Falei que você ia se ver comigo seu merd… — o homem parou de falar ao ver Samirah — olá, doçura. — o homem cuspiu algo preto da boca — parece perdida — posso ajudar?

Ela os observou por alguns instantes.

— Vocês são humanos…

Os homens riram.

— Isso não é paraíso, é a terra?

— Ela tá doidona… — disse um dos homens.

Um rugido chegou até ela quando outro animal de metal saiu da estrada e parou a poucos metros dela.

Ela pode ver um humano sentado dentro dele.

— Entra!

— O que? — disse ela olhando pra ele sem entender.

Ele se esticou e abriu a porta do carro.

— Morte me enviou, entra no carro agora!

Ela correu sob o olhar dos homens e assim que entrou no carro ele acelerou.

— Fecha a porta! — ralhou o homem.

Ela puxou a porta, mas sem  força suficiente.

— Mas que droga. — Ele se esticou e bateu a porta dela com força enquanto viravam e entravam na estrada — Coloca o sinto…

— Eu já estou de cinto, disse ela olhando pra cintura.

— Jesus Cristo! — disse ele puxando o cinto de segurança e colocando nela.

— Então você é Jesus?

O homem a olhou com a cara fechada.

— Não, não sou.

— Achei que estava se apresentando…

— Eu entendi o que você achou.

— Até faria sentido… sabe o filho de Divino, sou a filha de Lúcifer… Diplomacia.

— Morte… eu te odeio…

E juntos ganharam a estrada.


 

Continua…

 

Tradução da Musica: Hellhound (Cão do Inferno) de Shawn James

[1] “Cães do inferno estão nos meus calcanhares
Aguçam minha inteligência, uma coisa cru
Não importa de qualquer maneira
Meu ritmo apenas os desgasta
Sem parar”

[2] “Não me interprete mal
Eu sei que eu não pertenço
Eu só estou uivando para a lua
Minha maldição me levará a diante
Sem parar”

 

 

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