Dia 6… – Singelo

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Por L. Orleander

 

Não guardei as coisas ainda…

A caixa está lá no porta – malas do carro, parece um corpo que preciso esconder pra poder enterrar, credo.

Bebi tudo o que não devia ontem, aumentei o som no último e discuti com você novamente, ou melhor, com a sua maldita memória e essa porcaria de diário deitado numa almofada.

Sentei ao lado do sofá e caí no choro. Você era uma droga. Minha droga, e eu estava sofrendo de abstinência.

Peguei o celular e corri o dedo na lista de contatos seu número ainda estava lá. Disquei e ouvi cair direto na caixa postal, era sua voz. Soltei o celular e fui pra cama, resultado: outra noite insone, isso já estava virando parte da minha rotina.

Lembrei de cada briga que tivemos e do seu maldito mal costume de me chamar de imatura e infantil quando eu lhe cobrava algo ou simplesmente cansava de discutir e lhe virava as costas, apagando você de toda minha vida e colocando suas coisas porta afora. Eram míseros dois dias, a vontade de falar era enorme, mas meu orgulho com certeza era maior.

No fim você voltava com tulipas e gérberas. Trocávamos um pedido de desculpas, atípico do casal que não eramos, que ironia não?

Eu odiava você e me odiava ainda mais por saber que na verdade eu te amava demais e tinha medo de te perder, fosse lá para o que fosse.

As vezes ficávamos tão livres um do outro, que até o fato de eu ficar “confusa” por um novo alguém me amedrontava, sabe me apaixonar por outra pessoa de uma hora pra outra? Pois é, eu preferia mentir e dizer pra mim todas as manhãs quando eu olhava no espelho do banheiro e via seus pés fora da cama: ” Você se apaixonou pelo único  cara que não deveria ter se apaixonado…”

Até a minha cabeça sabia disso, mas eu era teimosa e ignorava o aviso, como dizia uma amiga, eu deixava pra tentar te esquecer no “amanhã”. Amanhã esse que eu nunca conseguia fazer chegar.

Eu me lembrava da minha escova de cabelo no seu banheiro, naquela manhã. E de te perguntar por que ela estava na pia e não na minha mala.

Você se levantou da cama em silêncio, rumo ao lado esquerdo do guarda – roupa e abriu as portas. Os cabides dispostos com as poucas roupas minhas que ali haviam, foi a sua resposta.

“Não preciso esconder você…”

Nunca mais minhas coisas foram pra casa depois daquele dia, mas em meu interior eu me perguntava como as “outras”reagiriam aquilo ou qual era a desculpa que você inventava. Como será que a cabeça delas ficava sabendo que outra habitava aquela casa? Sei que eu não reagia bem, me era odioso imaginar até seus beijos em outras bocas, mas não éramos nada um do outro, não é mesmo?

Éramos apenas bons amigos se divertindo as vezes.

“Ele não as trás aqui.” – me disse sua irmã uma vez, enquanto me ajudava com a louça suja, naquele almoço de Domingo que sua mãe apareceu de surpresa, ainda me lembro do olhar de inquisição dirigido á mim quando saí do quarto, vestida somente em sua camisa.

Raios! Pra que ela tinha a chave da sua casa? Dei risada disso ao lembrar, corri de volta pro quarto e te chamei, quando você abriu a porta do quarto ela já estava com o punho em riste para bater. Foi no minimo divertido, vendo agora.

Eram as nossas coisas, só nossas…

Meias, sapatos, calças, malas e agendas misturados, contradizendo tudo o que nós não assumíamos nunca.

Brigamos outra vez, por causa de um comentário idiota de uma amiga, e por causa desse comentário, ficamos um mês sem nos falar.

Estávamos tomando café naquela cafeteria, em mesas opostas, nos encarando como dois desconhecidos que descobrem algo peculiar. Você por sobre o jornal, eu sobre o livro.

Me levantei e sentei – me ao seu lado. Não trocamos uma palavra, nem nos despedimos, apenas saímos da cafeteria lado a lado e sussurramos um “nos vemos mais tarde”.

Você comprou a orquídea roxa naquele dia, quando entrei em casa, o cheiro do pimentão perfumava tudo.

Sinto falta disso, de quando você cozinhava, embora fossem raras as vezes e você preferisse o sabor da minha comida, eu achava graça.

Você dormiu rápido, nem teve nada, assistimos um filme qualquer perdidos cada um em seus pensamentos, apenas nos abraçamos e dormimos.

Acordei com o cheiro do café, uma rosa e um bilhete:

Bom dia, Mari.”

Eu guardei, guardo. Ainda tem seu cheiro.

Corri para o quarto e tirei ansiosa todos os livros da estante pra encontrar em um guardanapo de pano, a rosa seca, sorri feito boba. Ainda tinha aquela memória aqui pra me fazer sorrir, ainda tinha você.

Estou com saudades… Até das nossas brigas…

17:37 hs Quarta – Feira – São Paulo – SP

Mari.

 

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