Regras do Diabo

regras-do-diabo

Por Alex Brehan

Uma brisa balançou as folhas das palmeiras-reais da Praça da Sé. Era uma madrugada fria e empalidecida pelo luar quase sem nuvens. A enorme Catedral da Sé dominava a serenidade do ambiente com seu aspecto neogótico. Logo à frente, havia o monumento Marco Zero, que se tratava de um prisma hexagonal de mármore, com um mapa em uma placa de bronze no topo.  

No chão sob o prisma, fora pintado uma grande rosa dos ventos. Construído no começo do século XX, o monumento tinha a premissa de ser o ponto central da cidade de São Paulo, sendo referência para a numeração das ruas, estradas e linhas ferroviárias. Claro que era apenas uma tentativa de esconder seu verdadeiro valor.

A calmaria acabou quando um carro luxuoso invadiu a praça, parando próximo a estátua de bronze do Apóstolo Paulo. Um grã-fino na casa dos trinta vestindo um terno italiano preto saiu do carro. Seus olhos cinzentos eram sedutores e seu semblante era de um homem de negócios. Foi até o porta-malas e tirou um enorme saco plástico que aparentemente abrigava um corpo. Carregou-o nas costas e andou em direção ao Marco Zero. Deu uma checada no bolso para ver se não esquecera um item importante e quando olhou para frente de novo, viu que não estava mais sozinho.

Em sete das oito pontas da rosa dos ventos havia pessoas também de terno e de expressão nada amigável para o visitante sombrio. Empoleirado na cruz do topo de uma das torres da catedral, estava o oitavo membro da equipe. Ele não se fingia de humano, exibia sua armadura e lança douradas e desfraldava suas asas com penas alvas como neve, pronto para atacar.

– Não deveria estar aqui, Lúcifer – disse a mulher no centro, aparentemente a líder do coro de anjos que protegiam o monumento.

– Vocês costumavam ser mais bem-humorados. As coisas mudaram muito desde que eu caí – disse Lúcifer, ainda com a mão no bolso do terno.

– Sua presença aqui não é permitida. Parta agora ou enfrente as consequências.

– Tenho uma consequência pra você bem aqui – tirou o objeto do bolso, era uma pequena esfera de vidro com alguma substância preta no interior.

Lúcifer jogou a esfera no chão, que se espatifou e liberou seu conteúdo. Sombras escuras se materializaram, envolvendo toda a praça. Tentáculos negros se formaram e agarraram cada um dos sete, apertando seus corpos e suspendendo-os no ar. Eles gritavam de dor enquanto o oitavo anjo, ainda na torre, abriu as asas e deu um rasante com sua lança apontada para Lúcifer.

O velho Diabo tirou do terno um objeto pequeno que rapidamente se transformou em um sabre, com a lâmina tão escura quanto a noite. Conseguiu se defender, quebrando a lança do atacante e perfurando sua armadura. O anjo acabou sendo jogado na base da estátua do apóstolo.

– Eu sempre fui o melhor de vocês. Nunca se esqueçam disso – comentou o soberano do inferno, sorrindo.

Lúcifer retirou o corpo do saco. Era uma mulher pálida de cabelos castanhos, usando um vestido preto. A carne dela estava começando a apodrecer e havia pétalas de rosas entre os fios de cabelo, vindas do caixão de onde Lúcifer a retirara. Ele colocou o corpo sob o Marco Zero e começou a recitar um feitiço. Os anjos presos se debatiam e aos poucos iam destruindo as trevas sólidas.

Quanto o feitiço terminou, chamas irromperam em cada ponta da rosa dos ventos, gerando línguas de fumaça que se encontraram no centro do monumento e desceram até entrar nas narinas da mulher. A pele dela recuperou o tom natural e a carne não estava mais apodrecida. O coração voltou a bombear sangue e todos os órgãos trabalhavam tão fortes como se fossem de um recém-nascido.

Ana acordou ofegante e tossindo. Respirou fundo e deixou escapar um enorme sorriso. Era maravilhoso ver a lua de novo, sentir os cheiros, o sereno da noite. Estava viva mais uma vez.

– Pegue aquele carro e faça o que tem que fazer – Lúcifer a ajudou a se levantar e lhe entregou uma chave. – Você tem uma hora.

Ana correu até o carro. Ao entrar, encarou o cinto de segurança com uma mistura de nostalgia e remorso. Ignorou o sentimento, deu a partida e deixou o recinto justo quando alguns anjos começavam a se libertar. Lúcifer ficaria ocupado por um tempo.

A mulher renascida dirigiu até encontrar um prédio velho. Não era um condomínio luxuoso e, portanto, não tinha porteiro. Ela usou a mesma chave, que se modificou para abrir a portão do prédio. Não era uma chave comum e Lúcifer havia explicado como funcionava antes da “passagem”.

Subiu até o segundo andar e bateu na porta do número vinte e um. Bateu várias vezes e ponderou se deveria usar sua chave mestra. Mas logo a porta se abriu. Luísa estava com cara de sono, que deu lugar à expressão de horror, gritando e caindo para trás.

– Calma, sou eu – Ana a segurava pelos braços.

– Você… Você morreu! – ela gritava e se afastava de Ana.

– Sim – Ana caminhava devagar até ela. – Mas eu voltei – conseguiu tocar Luísa no rosto. – Viu? Estou viva. Voltei só pra falar com você, só pra te pedir perdão.

– Mas… Como?

– Bom, parece que existem sete portais para o purgatório no mundo. E um deles fica bem aqui na nossa cidade, lá na Praça da Sé. Aquele Marco Zero serve de fachada para o portal.

– Purgatório? Isso existe mesmo? E por que você foi parar lá?

– É que, antes de eu morrer… – deu um breve suspiro. – Eu matei o Lucas. Depois do acidente, acordei em um julgamento e… Não dava pra ver direito. Tinha três criaturas feitas de luz, que falavam como se fossem uma. Me julgaram por assassinato e, advinha, em nenhum momento elas mencionaram o fato de eu ter namorado uma mulher. Não parecia ser um pecado para eles. Queria que minha mãe tivesse visto. Enfim… Eles julgaram que eu não merecia ir para o inferno por ter sido autodefesa. Mas eu também não podia ir direto para o céu.

– Autodefesa? – era difícil pra Luísa digerir tudo aquilo.

– Eu nunca quis me casar com ele, Lu – Ana começou a chorar. – Eu sempre te amei. Quando falei que foi só uma fase e queria te esquecer, foi tudo mentira. Eu não aguentei a pressão da minha família dizendo que era um pecado. Aí, minha mãe me apresentou o Lucas. Um policial, um bom homem, “um homem de Deus” – ela deu uma risada melancólica ao imitar as palavras da mãe. – Eu não sabia que homens de Deus espancavam as esposas.

– Por que você não denunciou?

– Eu denunciei, mas ele era policial. Conhecia muita gente e acabava não dando em nada. Eu cansei – engasgou na própria voz. – Devo ter dado umas vinte facadas, não fiquei contando. Não sabia o que fazer depois. Joguei o corpo no porta-malas e fiquei tão nervosa que não coloquei o cinto e nem vi o sinal vermelho. Aí, teve o acidente…

– Sua mãe não me deixou entrar no velório.

– Imaginei mesmo… Eu morri pensando no quanto queria te ver uma última vez – pausou por um instante. – Sabe o Lúcifer, ou o Diabo, como é conhecido aqui? Ele não pode entrar no purgatório, mas sempre dá o seu jeitinho. Ele parece sentir as almas dispostas a desistir do céu por algum preço – encarou Luísa com mais lágrimas escorrendo. – E eu precisava te pedir perdão.

Luísa abraçou a ex-namorada tão forte, era confortante poder tocá-la outra vez. Seus rostos se tocaram e o beijo em seguida foi inevitável.

– Você não precisa pedir perdão nenhum, mas obrigada por ter… dado um jeito de vir me ver. Eu te amo.

Antes que Ana pudesse dar uma resposta recíproca, uma terceira voz surgiu.

– Que bom que deu tudo certo. Agora precisamos ir – Lúcifer pegou Ana pelo braço e a afastou de Luísa.

– Você me deu uma hora – contestou Ana.

– Eu te dei uma hora pra tentar conseguir o perdão dela e você já conseguiu. Você não deu os termos – Lúcifer estalou os dedos e Ana começou a sufocar e caiu no chão com uma súbita fraqueza. – Você vai ter que morrer de novo e, dessa vez, vai direto pra baixo.

– Não! – Luísa se agachou para ajudar a amante e olhava para Lúcifer. – Desgraçado, deixa ela em paz.

– Ela já estava morta quando fizemos negócios.

– Deixa ela ficar mais, por favor.

– Não posso. Mesmo que quisesse, teria que ficar despistando os anjos que não a aceitam aqui.

– Achei que você fosse mais poderoso do que isso – Luísa podia ver pela expressão dele, que a provocação atingiu o Diabo de alguma forma. – Deixe ela ficar mais e depois você leva a minha alma também.

– Eu tenho regras, mocinha. Uma delas é que só faço um acordo de cada vez.

Àquela altura, Ana já perdera a consciência e estava inerte no colo de Luísa, que se esforçou para estender a mão para Lúcifer.

– Me dá dez anos com ela e depois você leva minha alma de bom grado – Luísa aprendeu com o erro de Ana que se deve ditar os termos ao vender sua alma.

– Já disse que tenho regras.

– Ah, qual é? Sua fama na bíblia é melhor do que isso.

O diabo sorriu.

– É. Pra ser sincero, se eu gostasse mesmo de regras, não teria sido expulso do céu. Te dou duas semanas, porque estou de bom humor.

– O quê? É muito pouco!

– Quer dois dias? Melhor pensar logo, ela está morrendo.

– Ok, aceito as duas semanas.

Os dois apertaram as mãos e Luísa sentiu um frio na espinha. Em seguida, Ana acordou tossindo, assustada. Não era ali que achava que acordaria. Luísa abraçou a mulher em seus braços e a beijou.

– Eu achei que… – balbuciou Ana.

– Consegui um tempinho extra pra gente.

– Meus demônios vão despistar os anjos pra não encontrarem vocês – disse Lúcifer enquanto saía pela porta. – Marquem a data na agenda e aproveitem. Nos vemos em breve.

Luísa explicou o acordo que fizera. Ana discutiu com ela por se condenar ao inferno também, mas logo se acalmou. Não havia tempo para brigas. Elas tinham pouco tempo para serem felizes e precisavam aproveitar.

Foram os melhores dias da vida das duas. Tentavam não pensar no que aconteceria quando Lúcifer viesse buscá-las. Acabaram descobrindo que não importa quanto tempo dura um romance, mas sim a intensidade com que se o vive. Sabiam que, no momento em que seus corações parassem, estariam condenadas pela eternidade. Mas por enquanto, elas conseguiam fazer o coração uma da outra bater muito forte.

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s