Dia 5… – Papel

    mari611Por Lillithy Orleander

Fez frio hoje e fiquei doente, outra vez. Eu e essa minha imunidade baixa.

“Duas aspirinas…” – ouvi você dizer em algum lugar da minha mente e sorri mexendo na sua caixinha de remédios.

Sua mãe, me ligou de novo, vou lá buscar minhas coisas. Ela me disse rispidamente que não entendia a minha demora pra ir buscar e levou tudo pra casa dela.

Eu te disse outro dia, se ela não gostava antes, agora gosta menos ainda.

Saí mais cedo do serviço e fui lá, sua irmã apareceu pra me entregar as caixas. Ela sorriu como quem pede desculpas.

As fotos estavam ali, como eu as havia deixado da última vez, os imãs ainda seguravam a ponta do porta – retrato, nossos sorrisos despreocupados em lugares diferentes, imagens do nosso “início”. Eu nunca mais voltaria para nenhum daqueles lugares.

Agradeci e procurei o suéter que havia lhe dado, vermelho. Seu cheiro ainda estava ali.

Alguns papéis amassados, tentativas de poemas fadados ao esquecimento.

Cadernos, guardanapos, algumas notas na sua caligrafia desordenada em post- its,  eu admirava sua capacidade artística, enquanto você dizia que não era bom o suficiente.

Quantos livros você teria publicado se tivesse tentado?

Me bateu a nostalgia e me lembrei de como você se sentava na mesinha da escrivaninha, pegava papel e caneta e ignorava o computador, e fazia seus “rabiscos”, (como você chamava).

Eu achava tudo aquilo um emaranhado de garranchos as vezes, mas quando você finalizava o que havia escrito sobre qualquer imagem, eu entendia por que algo em você era tão mágico.

Sentar- me em seu colo, tirar – lhe o óculos e depositar sobre aquele caderno preto, que você andava pra cima e pra baixo com ele. Você sorria e segurava minha cintura sem dizer nada.

Eram nesses minutos, dentro do seu mundo, escondidos na penumbra que eu entendia por que te amava.

Você me beijava com gentileza e ali nós ficávamos sem dizer nada um ao lado do outro.

Guardei as caixas no carro e segurei o volante com força, até ver os nós dos dedos esbranquiçarem, tentando enxergar o caminho á frente. Era a última vez que eu via a casa de seus pais. Parece, que agora acabou de fato.

Tinha um maremoto no peito, prestes a explodir, mas eu precisava me conter. Acho que minha mente decidiu me culpar por ignorar a dor no último mês…

Maldita a hora que resolvi ouvir meu pai.

Não te contei? É, a ideia brilhante de procurar um especialista veio dele.

“Isso não é normal, minha filha. Você não se abre, não vive e não fala. Está parecendo uma máquina, programada para ir trabalhar e voltar pra aquele lugar que você chama de casa. O qual você insiste em manter escuro feito um mausóleo.”

Procurei o Dr. Monteiro apenas pra tranquiliza – lo, me pergunto até agora pra que que eu fui fazer isso? Se eu não estava bem antes por que melhoraria agora?

Era errado querer te esquecer o mais rápido possível e me adaptar ao mundo sem você tão depressa?

Ainda posso ouvir a voz da sua mãe no momento que sua irmã fechou a porta:

“Ela tem uma pedra no lugar do coração. Essa foi a ruína do seu irmão…”

Ela me culpava e eu começava a me perguntar se ela não estava certa.

A chuva continuava batendo no para – brisa e no volante do carro, meus olhos deixavam cair lágrimas espessas.

Pela primeira vez eu perguntei: Por que?

17:56 hs – Terça – Feira – São Paulo – SP.

Mari…

CONTINUA…

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