O Fantasma da Torre

LS3.pngPor Lucas Samuel

Não pôde deixar de sorrir ao ver Argo à sua frente.

O rapaz era corajoso, sem dúvidas, mas uma eterna criança. Desde que avistaram a Torre o jovem ficara agitado e pôs-se a galopar, gritando e brandindo sua espada.

Hunter queria ter essa energia, mas seu corpo doía de combates passados e fios brancos já eram visíveis em sua cabeça. Era um caçador conhecido em todo o reino por sua bravura e habilidade, contudo o peso dos anos já se acumulava em suas costas.

Andava lentamente, respeitando o ritmo de seu já velho corcel, Vento Noturno, enquanto espreitava a mata ao redor. Os galhos balançavam suavemente, tocados pelo vento frio que vinha do leste. Duzentos metros à esquerda, por trás de uma colina, erguia-se a lua, um olho amarelo na face do céu. E à direita, ainda bem longe, lá estava a Torre, a causa de sua viagem. O Chefe de Vila Castanha mandaram chamar-lhe após vários assassinatos ocorridos na região. Todas as vítimas possuíam marcas de estrangulamento e, o mais estranho, todas eram homens.

Os relatos das testemunhas eram dos mais variados. Uns disseram ter visto uma enorme serpente que enrolava a vítima, outros ouviram uma voz horrível antes do ataque de um fantasma. Há ainda quem dissesse ter visto uma mulher pálida que estrangulava os homens com seus cabelos. Mas em todas as versões a Torre permanecia. Quem (ou o que) cometia os crimes estava ligado ao sinistro local.

– Morra! – gritou uma sombra saída das árvores. Vento Noturno empinou-se nas patas traseiras, impedindo Hunter de ver a criatura. Já tinha o machado em mãos quando tocou o solo. Para sua raiva e surpresa, Argo era o ser surgido da mata.

– Cuidado com isso, pai! – O jovem disse, sorrindo. – Não quero ter a cabeça lançada fora de meu pescoço. Sou mais bonito assim.

– Chega de brincadeiras, Argo. – Hunter sentiu o coração acelerado pelo susto. – Este é um lugar amaldiçoado. Cale-se.

O jovem meneou a cabeça concordando e bateu os pés em sua montaria, partindo a galope em direção à Torre.

Não havia semelhança alguma entre eles. Argo era ruivo e magro, de pequena estatura. Já Hunter era alto, moreno e corpulento. Era também cauteloso, ao contrário do jovem, imprudente. Ainda podia lembrar-se da tarde em que lutara com um lobo, tendo a sua perna direita quebrada e os dentes da fera abrindo-se sobre seu rosto antes de cair morto, atingido por uma flecha pelo menino órfão. Desde então, Argo era a sua família.

Hunter prosseguiu em silêncio. A lua já estava alta e agora podia ver Vila Castanha, situada num vale à direita da colina da Torre. Não havia luzes acesas nem sinal de movimento. O silêncio era total e perturbador. Minutos depois ouviu o som de cascos vindo em sua direção. Nix, a égua negra de Argo, passou correndo por ele e sumiu na floresta. Assustado por não ver o filho, galopou nervosamente até a Torre, sentindo o medo e a incerteza tomarem conta de si.

Caiu de joelhos ao lado do filho. Seus olhos estavam arregalados, seu rosto e pescoço, roxos e inchados. O corpo estava torcido num ângulo horroroso e sangue corria de sua boca sem sorrisos. Uma mão invisível agarrou seu peito e lágrimas brotaram dos seus olhos. Sentiu-se impotente e vulnerável e chorou por muito tempo o filho morto. Olhou para cima, para a Torre, a lápide para o cadáver de Argo, e suas lágrimas cessaram. A raiva correu por suas veias e sentiu-se estranhamente forte. Quem tivesse feito aquilo pagaria com sangue a morte do filho. Cobriu o corpo com sua capa e escalou a velha construção. Apoiava-se nos galhos retorcidos de um carvalho que circundava a Torre, cinzenta e coberta de musgos que dificultavam a subida. Depois de alguns minutos alcançou a janela e rolou para dentro, com o machado em mãos.

Um frio percorreu sua espinha e seus cabelos eriçaram-se ao vê-la. Era alta e extremamente magra, com a pele pálida rente aos ossos, iluminada pelo brilho das tochas nas paredes. Veias completamente negras eram visíveis em seus braços e pernas. Os olhos opacos observavam-no. Olhos frios, inertes, mortos. Como os de seu filho. Cobria-se com uma túnica grosseira de lã marrom. Já ouvira pessoas dizerem que unhas e cabelos cresciam após a morte, mas aquilo era demais. As unhas do monstro eram vinte punhais afiados, porém, o que mais chamava a atenção eram seus cabelos. Negros, brancos e grisalhos, moviam-se no ar como serpentes de quinze metros de comprimento, prontas para atacar.

            – É você o meu príncipe? – A boca da morta-viva não se movia, mas sua voz ressoava pelo aposento. Um som frio e monótono.

– Maldita! Por que matou o meu filho, sua bruxa?! – Hunter ouviu-se dizer. A dor, a raiva e o medo queimavam dentro de si.

Não sou bruxa. Mas sou maldita por causa de uma. E não matei ninguém. Eles escolhem a morte. – A criatura respondeu, sem desviar o olhar.

– Não insulte o meu filho, assassina! – gritou como um animal selvagem e a atacou com seu machado, fazendo um corte profundo em sua perna, por onde esguichou sangue coagulado. A mulher gritou. Dessa vez o som saiu de sua boca, duro e seco, e pareceu a Hunter que era a primeira vez em anos que voltava a falar.

Cruel. – a voz propagou-se, e antes que pudesse desferir outro golpe, Hunter sentiu fios pegajosos agarrarem seus braços e pernas, erguendo-o no ar entre teias de aranha presas no teto. Debatia-se, em vão, tentando alcançar o machado, caído entre os pés da zumbi.

– Você é cruel como todos. Sempre me maltratam e nunca se importam com quem sou. Vou te contar minha história, homem cruel. No passado fui bela e chamavam-me Rapunzel. Nunca saí dessa Torre, mas recebia, todos os dias, a visita de uma bruxa que cuidava de mim. Ela me mandava jogar meus cabelos pela janela e subia, agarrada a eles. Isso me fazia chorar de dor, mas eu nunca reclamei. Era a única que me fazia visitas. Mas um dia recebi outra pessoa, um príncipe. Ele e eu nos amávamos e iríamos fugir juntos, para o seu castelo. Mas a bruxa descobriu o plano e ficou furiosa. Eu tive dois bebês, porém ela os tirou de mim. E quando o príncipe voltou, ela cortou meus cabelos e ele morreu na queda. Depois disso me matou e aprisionou minha alma. Eles me foram devolvidos – Sua cabeleira nodosa agitou-se. –, mas meu príncipe não. É por alguém como ele que procuro.

– É por isso que mata os homens. – disse Hunter, esquecendo-se por um momento dos fios que o prendiam e do corpo de Argo lá embaixo. Os olhos de Rapunzel continuavam sem brilho, mas algo em sua voz o fez sentir-se desconfortável.

            – A bruxa me disse que eu terei outro príncipe. – A voz medonha penetrava sua mente e ecoava em seus pensamentos. – Voltarei a ser como antes ao receber um beijo de meu novo amor. Só assim a maldição se quebrará.

– Por que ela lhe daria um remédio contra o próprio veneno?  – Hunter esforçava-se para pensar, ignorando os ecos da voz de Rapunzel em seus ouvidos. Sabia que era arriscado conversar com um monstro, mas ela não era como os que havia enfrentado antes. Sentiu-se culpado por manter um diálogo com a assassina de seu filho, no entanto, prosseguiu.

– Não se deve confiar nas bruxas, garota. Sei o que estou dizendo…

            – Cale-se! – Os fios apertaram-se em volta do seu corpo. – Ela se arrependeu do mal que me fez. Você, por sua vez, continua a me machucar. –A mulher tocou com as unhas o ferimento na perna, por onde via-se o osso fraturado, e retesou o corpo, com uma expressão de dor na boca em decomposição. – Você não é o novo príncipe. Você é mau, é mais um que escolhe morrer.

Sua voz não era enérgica. Pelo contrário, parecia desanimada, como se estivesse prestes a cumprir uma obrigação da qual quisesse escapar. Seus cabelos apertaram-se entre os braços e pernas do caçador, enquanto mais fios surgiam e entravam em seu nariz, asfixiando-lhe. Abriu a boca desesperadamente à procura de ar, encontrando tão-somente o tormento. Hunter sentiu os fios gordurosos grudarem em sua língua e garganta, avançando por seu estômago, que revirava. Seu corpo estava encharcado de suor. “E se a bruxa estiver certa?” – perguntou-se, lutando para viver. – “Apenas um beijo e estarei livre.” Já não conseguia pensar direito. Sua cabeça martelava de forma terrível. Tremia desenfreadamente e sua visão estava embaçada. Com o pouco de força que lhe restava, olhou suplicante para Rapunzel. Para sua sorte, ela pareceu compreender. De uma só vez estava de volta ao chão, agarrando a garganta enquanto vomitava, tossia e puxava o ar em desespero. A morta continuou encarando-o, em silêncio. Minutos depois, Hunter disse, fracamente:

– Eu a beijo.

Rapunzel permaneceu onde estava, trazendo-o para junto de si com seus cabelos. – Meu novo príncipe – Sua voz era doce, embora soasse como o arranhar em aço. –, beije-me e quebre o feitiço.

O velho caçador tremia de medo. Estava envolto novamente naquelas correntes, com o bafo nauseante de Rapunzel entrando em suas narinas. Suor frio escorria por suas costas. Os olhos sem vida fizeram-no novamente arrepiar-se. Imaginou o jovem Argo tendo aquele olhar como visão derradeira e sentiu um nó de culpa no peito. Mas, infelizmente, não podia voltar atrás. Não queria morrer e sentia que a mulher era também uma vítima. Sua boca foi de encontro àqueles lábios roxos e gelados. Dois segundos se passaram e caiu sem forças, sentindo uma dor intensa no coração. Sua visão escurecia enquanto via Rapunzel olhando o corpo e os braços, esperando a volta de sua beleza. Viu também seus olhos, e neles havia tristeza.

Já não podia enxergar quando ouviu a voz pesarosa da morta-viva, o último som que ouviria.

Não se deve confiar nas bruxas… Nunca….

FIM?

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