A Moira de Guadalupe P.2

A Moira de Guadalupe

Por Raven Ives

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Um número considerável de pessoas aguardava em frente à Associação de Idosos de Guadalupe, com a maioria constituída de turistas. Ao lado de Cibrán, Gaspar tinha os braços cruzados e lábios crispados em descontentamento. O rosto ainda apresentava resquícios de bloqueador solar mal espalhado, deixando uma ou outra mancha branca na pele ressecada pelo sol.

— Por que acordar tão cedo, hein? — O olhar caído graças à noite insone se voltou na direção do amigo. — Não é como se as pedras do Cromeleque tivessem uma data de validade. Poderíamos visitá-la à tarde.

— Você também não estará recuperado dessa ressaca à tarde, então para que adiar? Sem contar não teremos um guia depois — respondeu Cibrán, verificando o horário no relógio de bolso.

A caminhada ao Cromeleque dos Almendres contaria com o acompanhamento de um arqueólogo, responsável pelas explicações mais específicas durante o percurso pelos caminhos seculares. Esse era um dos principais motivos para o interesse de Cibrán, que, assim como o amigo, não era fã de exercícios físicos.

— Acontece que não sou um atleta, camarada. — Ele ajeitou a alça da mochila, onde parecia carregar todos os seus pertences. — Uma hora de caminhada é demais para mim e se eu desmaiar no meio do caminho, adivinhe quem irá me carregar.

— A mulher com quem estava atracado ontem? — Gaspar o encarou por alguns segundos antes de sorrir em resposta, orgulhoso de si. — Tem um grupo de idosos participando dessa caminhada, então diminua o nível do drama, por favor.

Com a chegada do arqueólogo, Gaspar soltou um suspiro penoso, fazendo Cibrán rir de sua falta de disposição. As reclamações saíam de cinco em cinco minutos, ainda que o ritmo imposto pelo grupo fosse confortável até para um sedentário. Muitas paradas aconteceram para que as pessoas pudessem tirar fotos e descansar antes de prosseguir.

Ao atingirem o Menir dos Almendres, mais da metade do caminho, Gaspar mal se aguentava. A camisa estava ensopada e o desodorante começava a dar sinais de que não resistiria por muito tempo. Com o amigo sendo um ex-fumante recente, Cibrán não esperava menos. Precisou incentivá-lo a continuar, com a ajuda de uma senhora simpática que participava da caminhada pela terceira vez.

Quando finalmente atingiram o destino final, o Cromeleque, Gaspar se sentou próximo a uma pedra e permaneceu ali, arfando, enquanto o amigo ouvia as explicações do arqueólogo. Os outros estavam mais preocupados em tirar fotos, mas Cibrán acabou o alugando com mais perguntas do que o esperado. Não sabia quando teria outra chance de fazê-lo.

— Sem condições de eu aguentar a volta. Me deixe aqui para morrer — brincou Gaspar ao ver o amigo se aproximar.

— Claro que vai. — Cibrán o ajudou a se levantar. — Ainda temos que visitar as igrejas de São Matias e Nossa Senhora de Guadalupe, esqueceu?

Gaspar o xingou tanto que atraiu a atenção de outros turistas. Coube a Cibrán, sem graça, pedir desculpas pela falta de educação do amigo. Como já esperava, ambos conseguiram voltar sem problemas para Nossa Senhora de Guadalupe, ainda que muito cansados. A primeira coisa que Gaspar fez foi se sentar na calçada e sorver os últimos goles de água da garrafa.

— Descanse um pouco, porque daqui a… — Cibrán levou a mão ao bolso e, de repente, seu olhar se tornou alerta.

— O que foi? — perguntou Gaspar, esbaforido.

— Meu relógio — respondeu, apalpando os bolsos. — Meu relógio de bolso sumiu!

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