Princesa Infernal [Parte 2] – O Senhor do Conhecimento

Escrito por: A.J. Perez

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Princesa Infernal – Capítulo 2: O Senhor do Conhecimento

O vento feroz castigava o infindo deserto rubro, com rajadas tão impetuosas que poderiam arrancar a carne dos ossos de mortais, assim como o Divino havia feito em Iram dos Pilares séculos antes para conter os adoradores do Arauto do Grande Devorador. Soterrando os hereges com ele em uma tumba de areia e fúria  com todo o poder da magia enoquiana.

Sobre a desoladora paisagem árida um grupo de titânicas rochas cor de ferrugem se projetavam como garras agonizantes em direção ao céu, assumindo a forma de perturbadora de uma mão retorcida com sua palma levemente voltada ao firmamento profano acima do abismo.

Na palma da grande mão uma fortaleza modesta poderia ser observada. Bruta como o próprio inferno, mas até mesmo ali onde a luz e a graça do divino se recusavam a chegar as aparências eram capazes de enganar e diamantes não lapidados poderiam ser encontrados. Assim era a casa do Saber de Yekun, o anjo caído do conhecimento.

O véu da existência se rasgou em um círculo de fogo e enxofre, criando um portal redondo no ar, de onde Lúcifer, o senhor do inferno, surgiu em toda a sua glória seguido de perto por sua filha Samirah, a princesa infernal.

— Então? — ralhou a majestade em indagação a filha.

— Ele deve estar lá dentro, quase nunca ficamos aqui fora! — ela gritava para sobrepor a voz ao barulho do vento, enquanto seus cabelos negros, tão longos que quase arrastavam no chão, chicoteavam com violência no ar.

— Acho bom que ele não esteja mentindo ou vou jogar Yekun na cela mais profunda do decimo círculo infernal! — resfolegou o anjo caído.

— Mas não existe decimo círculo… — A garota apenas olhou para o pai que sorriu em escárnio, e entrou no prédio.

Mesmo Samirah sendo a filha de quem era e possuindo a hereditariedade do trono do inferno, não sabia de todos os segredos do pai, a própria existência dela era um deles. A garota jamais soube quem foi sua mãe, nem o provável destino cruel que a acometeu, sim cruel, afinal como ela sempre fora educa para lembrar, aquilo era o inferno, e no inferno não existem finais felizes.

Deixando de lado os pensamentos mórbidos que passaram por sua mente sobre os horrores e torturas que poderia existir em um decimo círculo infernal secreto. Ela adentrou o prédio.

Diferente da titânica e barulhenta megalópole de Carceres, o interior do prédio era silencioso como uma tumba. Ali divergindo de qualquer outro local em todo o hades ela podia desfrutar do que acreditava ser o mais próximo da paz que teria em sua eternidade. Os passos tímidos dela ecoavam no chão de mármore negro polido do hall de entrada. Samirah inspirou o ar. Completamente limpo e sem odores, o sorvendo como se como se estivesse sedenta dele. Aquele era, sem duvida seu local favorito, e isso enfurecia seu pai.

— Vai ficar ai parada que nem uma gárgula esperando um humano virar as costas pra lhe arrancar a espinha, menina?

— Desculpe pai, é que não é todo lugar que é assim… silencioso.

— Eu sei, por isso odeio esse lugar…ele  me lembra de… — Lúcifer não falou nada, apenas olhou ao redor com desprezo e ressentimento.

— Casa? — indagou ela com certo pesar na voz.

O rosto de Lúcifer se tornou duro como uma pedra, mas ela podia sentir a fúria no pai crescendo como as labaredas do lago ardente.

— Nós estamos em casa! — ele praticamente gritou pra ela — Agora deixe de ficar supondo e me leve até o seu tio, Yekun.

Ela baixou e cabeça e passou adentrou o prédio guiando o pai.

Logo após a porta seguinte a construção se transformava em uma imensa biblioteca, Yekun sempre se vangloriava de ter a segunda maior coleção de livros de toda a existência, perdendo apenas para a Grande Biblioteca de Prata da Cidade Dourada.

Eles seguiram por muitas horas andando por entre corredores infindáveis de conhecimento milenar até finalmente avistarem ao longe Yekun, acompanhado de uma mulher tão bela que até mesmo Lúcifer ficou encantado com tamanha beleza.

— Esses aqui tem uma grande história! — disse o Senhor do Conhecimento para a mulher, mostrando pesados livros com as capas levemente chamuscadas — Os retirei as presas de Sodoma enquanto o Divino despejava fogo celeste para destruir a cidade.

— Me lembro desse dia, muitas vidas mortais se perderam e mergulharam no oceano da não vida, uma lastima, mas foi necessário.

— Era a vida deles contra a de toda a existência, quem sabe o que aquele arauto do devora… — o anjo viu Samirah e o pai se aproximando deles — Saudações majestade, princesa. — ele sorriu para a jovem que retribuiu instantaneamente.

O anjo possuía um porte atlético, cabelo cacheado castanho lhe descia até os ombros emoldurando o rosto, sua aparência era jovial, não mais que 30 anos. Barba rala bem como os pelos no peito a mostra pelo longo corte em V da camiseta de linho cinza de aspecto medieval, mas ainda assim com um leve toque moderno. Ao redor do pescoço trazia um cordão que carregava um pingente de cristal celeste. Usava uma calça de abrigo solta na mesma cor que a camiseta, e sempre se encontrava descalço.

— Yekun, minha filha falou que você requeria uma audiência, não teria concedido a menos que não estivesse acompanhado de tal dama. — Lúcifer estendeu a mão pegando na da mulher e a levando a até os lábios, onde beijou-lhe as costas de modo gentil e sedutor — É uma honra te-la em meus domínios, Tempo. já fazem milênios desde a ultima vez que a vi. continuas bela, como sempre foi, e sempre será.

— Luz da Manhã, é bom revê-lo meu velho amigo. — ela lhe agradeceu com um sorriso comedido, e então voltou os olhos tão verdes como os de Yekun para Samirah.

— Saudações, Nobre Aspecto do Tempo. — A princesa vez uma reverencia diante do aspecto que lhe abriu um largo sorriso.

— E você deve ser a famosa Samirah! — Tempo se aproximou e tomou o rosto dela gentilmente entre as mãos.

— Famosa? eu?

— Todos os reinos sabem sobre Samirah a herdeira de Lúcifer, seu nome é tão famoso quanto a sua beleza, até os anjos da Cidade Dourada Sussurram sobre quão bela é aquela que um dia sentara do Trono do Inferno.

— Não pretendo possuir ele, prefiro nunca me sentar nele de preferencia. — Samirah riu de modo nervoso — O inferno está em ordem e forte com seu rei.

— Em seu lugar qualquer pessoa desejaria reinar. Ter todo o poder e o trono para si.

— Apenas um todo deseja o trono de um Rei.

— Ora vejam só, ela tem mais juízo que você meu velho amigo. — Comentou Tempo de forma jocosa olhando para Lúcifer por sobre o ombro.

Samirah enrubesceu ao perceber o que havia insinuado acidentalmente sobre seu pai. Afinal ele havia sido colocado de Regente do Inferno após ter se revoltado contra o Divino.

— Puxou a astucia da mãe pelo visto… assim como a beleza. — completou o Aspecto deslizando a mão pelo cabelo da jovem.

Samirah travou ao ouvir aquilo, seria possível? Tempo conhecia sua mãe?

— A, a… a senhora conhece minha mãe?

— Se eu conheço sua mãe? — Ela olhou para o governante do inferno e por um breve instante seu olhar cintilou de fúria — Sim criança, eu conheço seu mãe.

— Tempo eu vim aqui pra discutirmos… — o Rei do abismo parou ao ver a mão da mulher lhe sinalizando para se calar.

— Não se preocupe criança, cedo ou tarde — ela abraçou Samirah — o tempo trás todas as respostas.

A mulher se virou e encarou Lúcifer.

— Você dizia?

— Tem algo para me comunicar Tempo?

— Sim, infelizmente. Você notou uma queda no numero de almas mortais que chegam ao inferno?

— Não, os números oscilam o tempo todo. Qual o motivo da pergunta?

— Estive com minha irmã, Morte. Somos bem próximas como você sabe. Ela me mostrou preocupação com um certo assunto que pode lhe dizer respeito.

— Que seria?

— As almas mortais estão sumindo Lúcifer. Quando Morte chega elas já se foram.

— Mas continuamos recebendo mortais todos os dias.

— Não são todos, mas os números vem aumentando. Minha irmã está preocupada.

— Aumentando quanto?

— Um terço das mortes e subindo.

— Um terço? Isso é impossível!

— Não, Luz da Manhã, não é… esta acontecendo.

— Vou mandar um agente para terra investigar imediatamente.

— Já temos alguém de olho… — respondeu Yekun de modo receoso.

— O que quer dizer com isso? Andou dando ordens pra algum anjo?

— Não! Eu apenas aproveitei que um amigo iria para a terra e pedi que ele…

Lúcifer agarrou a garganta do outro anjo tão rápido como um raio.

— Pai, não!

— Tem sorte de minha filha estar presente aqui Yekun… Nunca mais faça nada sem me consultar antes, já não basta ter divido o conhecimento com os mortais…

Ele soltou o anjo com olhar de desprezo.

— Quem mandou pra terra?

— Lucian…

Lúcifer revirou os olhos.

— De todos os anjos no inferno… mandou logo ele.

— Ele é problemático, mas é leal a sua majestade.

— Disso não posso discordar.

— Por qual motivo é tão importante investigar pra onde as almas humanas estão indo? — questionou a princesa.

— Não ensinou muito a sua filha sobre a cosmologia. — ralhou Tempo.

— Ela é jovem demais pra isso…

— Eu tenho idade suficiente pai! Pelos 9 círculos, eu tenho 784 anos!

— Ensinou a ela a contar a idade em anos mortais? — Lúcifer indagou furioso o anjo ao seu lado.

— Não pai, eu aprendi sozinha! Não sou mais criança.

— O que são seus 784 anos contra as infindáveis eras da minha existência?

— Nada, mas eu estou aqui e quero ajudar como puder.

— Não pode nos ajudar criança. — Tempo falou de modo quase fúnebre — Conte a ela Lúcifer.

O Governante ponderou, mas ele confiava em Tempo então desabafou para Samirah.

— A força vital da existência vem das almas dos mortais. Se as almas estão desaparecendo significa que logo o equilíbrio do cosmos vai ser desestruturado e desmoronar. A nossa força vital vem deles.

— Se as almas pararem de chegar ao inferno, paraíso e as terras do verão eterno, — era Tempo falando — a própria existência vai se despedaçar, assim como nós. Todos nós.

— Se as almas não chegarem… — Samirah estava em choque — todos no céu e no inferno vão morrer? Nós vamos morrer?

Os três a sua frente anuíram com a cabeça…


 

Continua…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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