Hamelin

Hamelin

Por Lillithy Orleander

Quando o dia raiou e a praga pelo Weser se emancipou
Grandiosa paga seu povo deixou de dar.
Sentados ao banco da igreja se quedaram.
Em toda cidade nada além do vento e do ruído de pequenos passos se ouviam.
Lágrimas caiam e a grande montanha a seus risos, engolia…”

A singela cidade surgiu do nada, ao redor de um mosteiro, no ano de 1282, Hamelin (Hameln), nome agradável e fácil de pronunciar, quem decidiu que o seria? Não sei ao certo.

Um povo farto, simples e alegre, aqueles lugarejos que todos se conhecem e todos vivem bem, claro há uma briga ou outra pelo gado que invadiu um canteiro ou uma plantação, uma discussão tola pelo caneco de bebida em uma taverna. Mas além disso era um povo feliz, rodeado de suas ínfimas fofocas cotidianas.
Era tudo tão normal e simples que ninguém se quer se importava com o resto do mundo ou o resto do mundo se importava, cidade pequena, vocês sabem como funciona…

Como eu sei? Eu estive lá…

Ninguém sabia de onde eles vieram, um dia eram apenas três ou quatro nas sacas de trigo, no outro era no armazém de milho, nada parecia para – los, ou mata – los em definitivo.

A que me refiro? Ratos!

A praga devastava a cidade, crianças recém nascidas morriam com suas mordidas, enquanto outras tinham febre, alguns colocavam telas em suas casas na esperança de mantê – los longe das janelas.

Mas não havia jeito, nem modos, nem venenos, magias, ou seja lá o que tentaram, nada surtia o efeito esperado.

Por meses a fio foi esta mesma tormenta, a cidade tornava – se fétida  com os roedores que apareciam mortos, mas para dois morto, cinco apareciam e era facilmente passado a bocas pequenas que a cidade fosse abandonada e tudo deixado para trás. O que a maioria realmente teimosa, não aceitou.

Onde já se viu aquilo, deixar que uma praga devastasse e se adonasse da cidade, era intolerável.

Foi quando cheguei ao prestimoso lugar, andei por dias sem ser notado, era me sabido da alegria e do modo cortês como eram tratados os forasteiros, mas em minha curta estadia, não conheci este lado, não acredito que tivessem a intenção, as preocupações eram maiores, mas quedei – me pensativo: “E se eu…”

Eu não me aproveitaria da situação, isso jamais, mas também eu precisava sobreviver e a paga foi acertada, mesmo muitos rindo de minha audácia e me chamarem de louco aos sussurros e murmúrios, da mesma forma que o vento cantava em Hamelin, as paredes falavam e os ratos, guinchavam.

Pareciam feras vorazes ao primeiro acorde, havia anos que eu não tocava, todos se assustaram e subiram em mesas, bancos, cadeiras e o que encontraram pela frente, eles parecia, que iriam atacar a qualquer momento.

Ainda me lembro de todos se  calarem quando minha companheira de longa data se tornou melodiosa, os guinchos cessaram e os malditos roedores se tornaram estáticos.

A expressão dos que ali estavam era de espanto, uns torciam as roupas surpresos e havia aqueles que tampavam a boca com as mãos segurando o ar.

A meus olhos, eles pareciam dançar, caminhei pelas ruelas da pequena cidade chamando – os até mim, a população era maior que os habitantes, o que por um instante me assustou, eles poderiam ter exterminado os seres humanos dali, e ficado com seus despojos e quem sabe com a cidade.

Será que ela ainda se chamaria Hamelin, caso isso ocorresse?

Parei ao topo mais alto em direção ao Weser, a ordem, era não lutar contra a correnteza da sinuosa água, eles caiam um á um, de grandes e gordos á pequenos e filhotes, afogando – se mais rápido do que se podia imaginar.

Estava feito e água agora silenciosa carregava seus mortos para longe, em algum lugar as senhoras das águas abandonariam os pequeninos corpos, o odor seria abafado pelo ventos e a carne retornaria a terra – mãe, nada se perderia.

A cidade festejava, barris da melhor cerveja, pelo menos do que havia sobrado dela, eram servidos.

A alegria retornava a Hamelin, era hora de partir e minha paga reclamar.

Não houve acordo, e escorraçado fui, não havia tristeza em meu olhar e nem dor, do salão com representantes importantes saí e para trás não olhei.

A névoa subiu a cidade naquela noite, o brilho fantasmagórico dançava e as pequeninas aladas de cores variadas dançavam entre risos de sino e piruetas elaboradas.

A felicidade dava adeus a ingrata cidade.

Os afazeres da manhã seguinte, um Domingo quente, um povo religioso, um sermão de alegoria cristã em ação de graças.

O benfeitor? Esse era apenas um instrumento divino que fora esquecido.

Caminhei pela cidadela maldita tocando a mais perfeita melodia, elas vieram até mim. Vieram sim.

Saltitantes, coloridas e cheias de vida. Grandes, pequenas, magrelas e robustas, o brilho festivo iluminavam – lhes as faces rosadas.

Elas não mais se lembravam, minhas crianças, passavam por teus progenitores como se estes fossem estranhos, enquanto estáticos, pranteavam seu adeus mundano…

Para a montanha caminharam e os portões do lago encantado lhes foi aberto, não mais morreriam, nem dor sentiriam.

Na bela terra da Dama do Lago, eternas crianças, minhas pequeninas, seriam.

Hamelin? Bom, não mais voltei…

Hoje a cidade se refez, é linda, conheço gente que esteve por lá a poucos dias.

Eu? Eu sou como o vento…

Caminho aqui e acolá, 

E a muitos filhos, venho lhe dizer,

 Hei de carregar.

Se no sorriso da criança tu não olhar,

E o que prometeres deixar de cumprir

Aos apelos da Dama irei atender

E em pranto teu peito há de partir…”

FIM?

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