Donna – Vida boa, Vida breve (Pt. 4)

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Donna

Capítulo 4: Vida boa, Vida breve

Escrito por: Lua Morgana

*

Existem situações que acontecem em nossas vidas que nos fazem acreditar que só aconteceram, para vir o melhor depois…

Hernando e eu estávamos vivendo uma “lua de mel” sem casar antes. Ele me levava para viagens, me dava roupas caras, joias, dinheiro, comida boa… Vivi cada minuto como se fosse único, mas todas as coisas boas, requeriam algo em troca.

Desde a primeira vez que nos vimos, notei que ele parecia um cara de máfia, igual daqueles filmes antigos que minha mãe assistia, isso me deixou excitada, eu era jovem e adorava um perigo, era estimulante. Porém, na prática mesmo, não era lá essas coisas. Tudo bem que eu vivia uma vida de luxo, tudo bem que eu morava em um apartamento luxuoso em miami, mas como eu disse, tudo na vida é cobrado, nada é de graça.

Depois de uma semana que começamos a namorar firme, Hernando me fez uma proposta que mudou minha vida a partir dali:

—Donna, lembra que eu disse pra você, que se fosse pra ter vida boa do meu lado, precisaria fazer uns favores? – Hernando disse em tom firme.

—Sim, claro. Favor sexual eu já faço… – Sorri maliciosamente.

—Não é nada disso, estou falando sério, estou falando de negócios. O negócio da família. – Ele sentou e pegou uma bebida.

Fiquei sem graça e sentei de frente pra ele, esperando que ele falasse pra eu me prostituir ou algo do tipo… gelei.

—Pois então diga, homem… – Não movi um músculo, estava tensa.

—Então, Donna, você percebe que eu tenho uma vida luxuosa e ótima, tenho dinheiro, carros caros… isso não é de graça. Isso é fruto do trabalho da família. E se você quiser usufruir disso ao meu lado, terá que ajudar de alguma forma. E, por enquanto, só vejo uma forma de você ajudar… – Deu um gole na bebida e acendeu um cigarro – Preciso que você transporte drogas de um país para o outro para mim, ou melhor, para nós. – Olhou-me curiosamente.

Dei uma gargalhada alta.

—Porra! Isso é sério? Você só pode estar me zoando…

—Para de ser infantil, Donna… É claro que estou falando sério. Você acha que dou o cu para ganhar essas coisas que tenho? – Ele gritou.

—Não grita comigo! Primeiro me explica direito essa história. – Indaguei.

—Vou te explicar como funciona tudo, mi amor, você não precisa fazer quase nada…

Foi aí, então, que tudo começou…

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As primeiras viagens foram difíceis, pois eu era novata no ramo. Eu não poderia demonstrar nenhum tipo de nervosismo. Como eu era nova, bonita, bem-vestida e aparentemente rica, não levantava suspeita nenhuma quando passava pelos policiais em aeroportos e etc. Nenhum deles me indagou em nenhum momento.

A cada viagem eu me sentia mais confiante, mais poderosa. Nunca achei que me envolveria com tráfico internacional de drogas na minha vida, mas, trabalhar como garçonete não me daria as bolsas Chanel que tenho hoje e nem meus vestidos Louis Vuitton.

Aproveitava minhas viagens para conhecer os países, as comidas típicas, a moda local… Era surreal. Em tão pouco tempo minha vida mudou da água pro vinho, de uma garota do interior – leia-se caipira – para uma mulher descolada e rica da cidade grande. Nem nos meus sonhos mais incríveis imaginei que conheceria vários países em tão pouco tempo.

Hernando viajava comigo às vezes… Porém, nunca íamos juntos, só nos encontrávamos no hotel. Era estimulante viver essa vida perigosa, a gente raramente se via desde que comecei a transportar as drogas, então quando a gente se via, era um choque. Ficávamos grudados no hotel pelo menos um dia inteiro, fazendo o que mais gostávamos de fazer: amor.

Quando eu ficava sozinha, me questionava se era exatamente essa vida que eu sonhei para mim… porque ter coisas caras era maravilhoso, mas e a solidão, o que se faz com ela?

Mudar tanto de país, mudar tanto de hotel, de cidade, nunca me deixou criar raízes. Nas primeiras viagens era “UAU, que vida MARAVILHOSA”, depois que pega o gosto, passa a ser vazio, rotineiro, sem graça.

Resolvi em um momento indo a Paris, que queria me estabelecer em algum lugar… queria voltar para meu apartamento e criar uma família. Já faziam anos que eu estava nessa loucura de viagem o tempo inteiro, queria criar memórias fixas, ter pessoas na minha vida… estava difícil viver sozinha o tempo inteiro.

Eu queria fazer uma surpresa para Hernando, chegar em casa, no nosso apartamento e dizer que queria ficar e ter filhos, quem sabe. Queria casar, algo assim, algo para me sentir parte de um todo, não só uma peça nesse jogo de drogas e dinheiro.

Fiz o que eu tinha que fazer em Paris, fiquei umas semanas lá, comprei coisas novas, mandei presentes para minha mãe, MJ – Imagina a cara da MJ quando vir o que mandei para ela!- Fazia tempo que eu não me sentia entusiasmada com algo… esperava que Hernando se sentisse assim também!

Assim que pude, peguei o primeiro voo rumo à Califórnia.

Era pleno verão, as praias estavam lotadas! Nossa, como eu senti falta daquilo… saltei do táxi que me levava até meu apartamento e corri para encontrar Hernando. Abri a porta toda feliz e nosso apartamento estava vazio, apenas os móveis ali, como se fosse uma casa de mostruário. Não havia vida ali. Parecia que Hernando não ia lá faz tempo, as flores que deixei antes de ir à Roma estavam mortas, cheirava a tristeza. Senti uma pontada de tristeza no meu coração… mas não me deixei abater por esses pensamentos ruins.

Deixei minhas malas e fui para o pier. Hernando vivia mais no iate do que no apartamento, devia ser isso, só podia ser isso. Ele estaria lá bebendo, dormindo, pescando, sei lá… Queria fazer uma surpresa para ele, ele não sabia que eu iria chegar hoje. Logo hoje.
Cheguei de mansinho, sem fazer barulho, queria surpreender. Tirei meus óculos de sol e olhei bem, bem mesmo. Queria surpreendê-lo e fui surpreendida… o gosto amargo da decepção foi difícil de engolir. Por uns minutos não conseguia respirar.

A vida é boa, a vida é bela, mas é muito, muito breve.

“Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida
Vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa”

(Cazuza)

CONTINUA

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