Lista Amassada

lista-amassada

Por Alex Brehan

Quando checou o relógio, viu que era meia-noite. Lana inspirou profundamente enquanto batucava o lápis em uma folha de papel com algo escrito. Deitada na cama de um hospital, com um monitor cardíaco bipando, ela ponderava sobre quantos dias ainda veria acabar. Seu corpo estava esquelético, uma mancha escura se estendia por toda a região da boca e o cabelo preto tinha um corte ajustado para esconder a constante queda de fios abaixo da nuca. Tudo contribuindo para um semblante cansado e aparentemente mais velho do que seus 37 anos. 

Sentiu fome e experimentou a gelatina de morango que a enfermeira havia deixado no criado mudo junto com um copo d’agua. Não tinha gosto de nada, era só uma substância estranha na boca. Um súbito acesso de raiva fez Lana jogar a gelatina no chão, e em seguida, amassou a folha e também a jogou. O bolo de papel amassado quicou até um par de botas lustrosas. O horário de visitas acabara e por isso a surpresa de Lana ao ver que uma figura peculiar a observava. Era uma mulher de pele clara, com cabelos castanhos ondulados, roupas coloridas, como se fosse garota propaganda de uma loja infantil.

– Oi – disse Lana ainda surpresa.

A figura se espantou e olhou para os lados, checando se estava realmente sozinha.

– Hã… Oi. Você consegue me ver?

– Sim – respondeu Lana em tom confuso. – Quem é você?

– Doce… – relutou em dizer a verdade, mas não era boa em mentir.

– Que nome diferente – Lana riu, depois começou a tossir e alcançou o copo d’agua.

Doce foi até ela, com a intenção de ajudar, mas não sabia como. Resolveu oferecer algo, afinal ela era uma visitante, ainda que não pretendesse ser vista.

– Eu tenho umas balas e uns chocolates aqui – ofereceu Doce com uma das mãos nos bolso. – Você consegue comer?

– Não, só consigo ingerir líquidos. E mesmo que pudesse comer, não sentiria o gosto – tossiu outra vez. – Eu fiquei feliz quando o médico disse que eu não teria que fazer quimioterapia, mas não sabia que a radioterapia na região da boca tinha efeitos colaterais tão fortes.

– Eu sinto muito. Mesmo – era grande o pesar de Doce, tanto na voz como nos olhos.

– Obrigada – houve um silêncio por um instante até que Lana falou – Você é como ele?

– Quem?

– Um cara estranho que apareceu aqui outro dia. Parecia muito surpreso quando percebeu que eu podia vê-lo, assim como você. Eu perguntei quem era e ele gaguejou. Disse que era o “sabor da minha vida”. Depois desapareceu.

– O sabor da sua vida? O que ele quis dizer com isso?

– É. Não entendi também – e tossiu mais vezes.

Doce ficou pensativa e anunciou:

– Eu preciso ir agora – afastou-se e pegou o papel amassado do chão. – O que é isso?

– Por favor, jogue isso fora – respondeu Lana com olhar melancólico e depois a convidou. – Venha mais vezes. Não prometo que estarei viva por muito tempo, mas sei lá.

– Vou tentar – Doce deu um sorriso forçado e desapareceu deixando uma pequena nuvem de fumaça adocicada.

Meia hora depois, em uma clareira de uma floresta distante da civilização, Doce estava impaciente. Reunidos com ela, estavam Salgado, um homem forte de pele negra e pose autoritária; Azeda, uma loira que trajava um vestido de seda, mas com um semblante pomposo e antipático; Amargo, um homem careca, com aparência sofrida e terno amarrotado; e Agridoce, um jovem andrógeno de cabelos compridos cuja cor da pele era um amálgama das cores de Doce e Salgado. A última a aparecer foi uma mulher ruiva com roupas de couro.

– Até que enfim, Pim – enfatizou Doce.

– Relaxa, Docinho. O que aconteceu para nos chamar com tanta urgência? – Pim era apelido para Apimentada.

Doce tomou coragem para falar:

– Uma humana me viu.

Todos se espantaram e começaram a fazer perguntas, com exceção de Amargo, que permanecia surpreso, mas quieto. Salgado pediu por silêncio, ele se tornara o líder do coro há milhares de anos por ser o mais velho entre eles. Ninguém sabia realmente sua idade, apenas que ele era tão velho quanto o mar.

– Tem certeza disso? – perguntou Salgado.

– Será que finalmente ficou louca? – Azeda quase sempre era desagradável.

– A única louca aqui é você – rebateu Doce. – Tenho tanta certeza que falei com ela.

– Sobre o que falaram? – Salgado quis saber.

– Bom… Falamos sobre a doença dela. E ela disse que outra entidade a visitou também. Apresentou-se como o Sabor da Vida dela.

– Outro sabor? – animou-se Pim. – Legal, fazia anos que alguém novo não aparecia.

– Espera – Azeda estava preocupada. – Antes de sair atrás do novato, precisamos decidir o que fazer com a humana. Não é certo que eles nos vejam. Deveríamos matá-la.

– Você é repugnante, Azeda – Agridoce sabia ser gentil e rude, dependendo do momento.

– Ninguém vai matar nenhum humano – anunciou Salgado e voltou ao interrogatório. – Você a viu no hospital? Eu não mandei você parar de ficar choramingando pelos diabéticos?

– Ela não é diabética, ela está com câncer. E o tratamento a deixou sem paladar.

– Não importa a doença, toda vez que você encontra um humano que é privado de comer seus doces, você fica se torturando com pena. E olha o que isso nos causou – pausou brevemente e viu que talvez a situação pudesse ser contida. – Pelo menos não precisamos nos preocupar. Mesmo que ela conte a alguém, vão achar que estava delirando de dor ou que estava tendo visões de que a morte se aproxima.

– Não fale assim. Talvez ela tenha uma chance.

– Se tiver, nunca saberemos. Você está proibida de visitar qualquer ser humano por tempo indeterminado.

– Mas…

– Isso é uma ordem! – falou com energia e depois olhou aos demais. – Encerro essa reunião.

Doce se afastou com olhos aguados enquanto os outros queriam discutir sobre o “novato”. Amargo foi o único que a acompanhou, juntos foram a uma área mais profunda da floresta.

– Você sabia que não precisa obedecê-lo, não é? – Amargo finalmente se pronunciou naquela noite.

– O quê?

– Salgado é o nosso líder porque é o mais velho e não porque é o mais forte. Acredito que ele tenha sido mais forte no passado, mas agora não. Acho que já passou da hora de alguém desafiá-lo.

– Mas quem?

– Você.

– Eu? – Doce sentiu-se abismada com aquele absurdo. – Eu não sou de brigar e muito menos sou párea para ele.

Amargo riu e continuou seu discurso:

– Você é muito mais forte do que imagina. Já parou para pensar por que existimos?

– Na verdade, não.

– Somos o resultado concentrado da consciência coletiva de todos os humanos. Nossa essência vem da adoração que eles têm por nós. Toda vez que alguém aprecia o sabor da comida, uma energia é transmitida para nós. Eu quase não recebo dessa energia, praticamente ninguém gosta de amargo. Todos recebem mais adoração do que eu e, portanto, são mais fortes. Mas você… Todas as crianças te adoram, e grande parte dos adultos também. A melhor parte da festa é o bolo, a sobremesa é mais desejada do que a refeição em si. Você é a mais poderosa de nós.

Com o olhar perdido na epifania, Doce percebeu que aquilo fazia sentido. Ela nunca quis ser a mais forte, talvez justamente por isso ela fosse.

– Salgado não tem chance contra você e ele sabe disso – Amargo continuou. – Além do mais, eu realmente acho que você deveria ver a humana outra vez.

– Por quê? – até então, ela achava que todos eram contra essa ideia.

Amargo suspirou, ensaiando o que falar.

– Ela me viu antes de ver você.

– O quê? Você é o tal sabor da vida dela?

– Sim.

– O que estava fazendo ali? E por que se apresentou daquela forma?

– Você está acostumada a receber energias positivas. Eu não. Sou muito odiado por aí e, por vezes, as pessoas me culpam pelos problemas delas. Sempre escuto a frase como sussurro no meu ouvido: “a vida é amarga”. Muita gente diz isso. Não sei bem como aconteceu, mas essa Lana disse essas palavras tantas vezes que eu acabei sendo atraído até ela. Jamais esperava que ela fosse me ver.

– Sei como é.

– Quando ela perguntou quem eu era, entrei em pânico. Humanos não devem saber que nós existimos. Dei uma resposta enigmática e sumi. Mas me arrependi. Deveria ter dito algo útil a ela, deveria ter dito que a vida não é amarga.

Doce sentiu uma profunda tristeza e teve vontade de comer um de seus doces. Tateando seu bolso, ela encontrou o papel amassado que pegara do chão. Na correria, ela havia se esquecido de jogar fora como Lana pediu. Naquela curiosidade melancólica, ela desamassou o papel e viu que tinha uma lista.

Pudim de chocolate.

Pizza portuguesa.

Brigadeiro.

E o papel seguia com diversos itens deliciosos. Doce se emocionou ao entender o significado.

– Eu tenho que falar com ela de novo.

– Ela quem? – a voz de Salgado surgiu de longe em meio às árvores.

Amargo e Doce se assustaram ao ver seu líder se aproximar com uma cara nada amigável.

– E então? – insistiu Salgado. – Com quem você pretende falar?

– Com a humana – respondeu Doce um pouco nervosa.

– Eu pensei ter deixado bem claro – Salgado começou calmo, mas depois a voz se alterou. – Você não vai mais ter contato com nenhum humano sequer!

– Eu não vou obedecer você – a voz dela foi aumentando à medida que a coragem era reunida. – Nós só existimos por causa dos humanos e se eu puder ajudar a pelo menos um, eu preciso tentar. E você não vai me impedir, a não ser que queira que eu desafie sua liderança.

Sem pensar muito, Salgado agarrou o pescoço de Doce com uma única mão e a levantou, tirando os pés dela do chão. Doce se engasgou e se debateu em meio ao susto, mas logo recuperou o autocontrole. As pequenas mãos dela forçaram os dedos do seu líder a abrir e ela caiu elegantemente no chão enquanto Salgado se afastou com dores no braço.

Receoso e afastado, Salgado conseguia sentir a aura de Doce pulsando com a energia da adoração de milhões de pessoas, provavelmente uma das maiores forças do universo. O grande e temido líder teve medo pela primeira vez. De longe, Amargo sorria por fora e gargalhava por dentro.

– Eu vou encontrar a humana de novo – declarou Doce quase como se fosse uma guerreira poderosa. – Vai querer mesmo tentar me convencer do contrário?

– Não – respondeu Salgado após hesitar por alguns segundos. – Faça o que quiser, não me importo – e foi embora com um profundo mal humor.

Doce abraçou Amargo bem forte.

– Obrigada. Se não fosse por você, eu jamais teria coragem para isso.

– Tudo o que quero é que você ajude aquela humana.

– Venha comigo.

– Acho que ela já teve muito de mim na vida.

Doce sorriu e desapareceu.

Segundos depois, ela estava de volta ao hospital. Àquela hora, Lana deveria estar dormindo, mas ela era constantemente acordada pelas crises de tosse durante toda a madrugada.

– Você voltou – disse Lana em meio a tossidas.

– Eu tinha que lhe devolver isso – Doce estendeu a mão com o papel amassado.

– Eu pedi pra jogar fora.

– É uma lista das coisas que você pretende comer quando se curar, não é?

– Pretendia. Não acredito mais que eu vá sobreviver.

– Meu amigo me contou que você tem o costume de falar que sua vida é amarga.

– O quê? Quem? – de repente, Lana sentiu-se vigiada.

– O mesmo que te visitou antes de mim. E ele está tão triste por você quanto eu – ajoelhou-se perto da cama. – Sei que está sofrendo agora, mas quero que você tente pensar em momentos felizes, talvez em algum deles você estivesse comendo algum item dessa lista. Talvez estivesse com amigos, parentes, amores.

– Meu cachorro também.

As duas riram e Doce encontrou uma paz confortável ao ver Lana sorrir pela primeira vez. Estava fazendo progresso, então continuou:

– Não vou negar que a vida pode parecer amarga agora, mas se você vencer essa luta, você vai experimentar o momento mais doce que poderia imaginar. O sabor da vitória. Você vai dar mais valor a cada dia que viver e perceber que existem mais momentos doces do que a maioria das pessoas percebe – Doce terminou o discurso colocando a folha de papel, desamassada ao máximo possível, no colo de Lana. – Por favor, continue essa lista. Um dia, vamos provar cada um deles juntas. Eu sei as melhores receitas, posso dizer isso com certeza.

– Obrigada – os olhos de Lana pareciam uma gruta de lágrimas.

Ela enxugou o rosto com as costas da mão e alcançou o lápis no criado mudo. Continuou a escrever.

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