Entre nós…

en...Por Lillithy Orleander

Ainda me lembro nitidamente como se fosse hoje…

Eu não devia ter mais que quatro anos, eu dormia em um berço me madeira escura, coberto por um mosqueteiro de tile branco e pontilhado com pequenas bolinhas vermelhas de veludo.

Havia três pessoas, de feições distorcidas e ao mesmo tempo assustadoras. Elas me queriam morta. Eu era apenas uma criança e aquilo deveria ser apenas um pesadelo.

Os anos passaram e as coisas apenas pioraram.

Eu os ouvia gritar, chorar, ameaçar, sentia – os se aproximar, mas não os via, com exceção dela.

Meu pai fingia que não era nada e as vezes agia como se eu não existisse. Enquanto minha mãe, metida a religiosa doente, dava ouvidos as irmãs da igreja e dizia que aquilo era coisa do demônio, que estava tentando trazer o mal para o mundo me usando.

Eu odiava aquilo, e só a vi desistir de tal loucura, quando seu pastor me sacolejou de um lado a outro, entre gritos, para expulsar o tal demônio, dando – me um tapa no rosto e arremessando – me contra a parede, aquele ato de religião extrema me rendeu seis pontos na cabeça.

A fé de minha mãe morreu ali, era hora de recorrer a “medicina do homem”, o diagnóstico: Esquizofrenia.

Ela me olhava do outro lado da sala sem nada dizer, os olhos pareciam piche e o véu que cobria seu rosto era encardido, o vestido cinza tinha mangas compridas e gola alta, o cabelo era como os olhos, escuros. Ela apenas me sorria.

Tentei falar com minha mãe sobre ela, o resultado? Doses maiores do medicamento prescrevido pelo médico.

Os dias passavam depressa e eu realmente acreditava que eu era o problema, tinha algum defeito.

Pode ser um trauma.” – disse uma professora a minha mãe, logo após eu surtar em sala de aula.

A vida na escola era difícil, eu só tinha um amigo, o restante me achava estranha ou tinha medo, e assim eu me afastava das pessoas e ignorava as vozes.

Neste dia foi diferente, por mais que eu tentasse alguém me pedia pelo amor de Deus que mandasse o neto ter cuidado. Será que os remédios não faziam mais efeito?

Então pensei no que a professora disse: “Um trauma.”

Lembrei – me imediatamente de minha infância, minha mãe não sabia, ninguém podia saber.

Eu fugia da casa dos meus tios, como o Diabo fugia da cruz. Mesmo que significasse perder algo que muito queria ou apanhar de cinta.

Ele me abraçava, eu semtia nojo… Roçava a barba em meu rosto, colocando a mão por baixo de minha camiseta, eu o empurravs e fugia.

Eu tinha nove anos, tinha medo do que meus pais diriam, afinal de contas ele era meu tio.

Esse era o trauma, era esse problema que me assombrava com as vozes. Passei do terapeuta ao psicólogo, meus pais receberam a notícia horrorizados.

As sessões não duraram muito tempo, vieram as dores que cabeça que aumentavam gradativamente e a doutora, que mesmo sorrindo, parecia sempre cansada.

Um homem gritava obscenidades na pequena sala e dizia com todas as letras que ia mata – lá e que tudo aquilo era culpa dela.

Nada surtia efeito, doses cavalares de remédio, terapias alternativas, igrejas, mudanças de psicólogo…

Eu me fechei, alguns dias eram fáceis outros difíceis, e para minha infelicidade algo aconteceu e me fez correr para tentar consertar a “falha” que havia em minha mente.

Meu pai faleceu.

Me lembro de chegar na manhã seguinte ao velório e perceber que havia algo errado ali, não tinha nada dele, exceto a voz, me pedindo socorro, dizendo que estavam todos loucos e que a brincadeira não tinha graça.

Ele estava morto! E eu o ouvia nitidamente.

Meus gritos invadiram a sala do velório, algumas pessoas me olhavam assustadas enquanto outras tentavam me conter de alguma forma, terminei desmaiada e urinei em minha roupa.

Fiquei dois dias em estado de choque, as vozes sussurrando, pareciam querer me enlouquecer.

Minha mãe dormia ao quarto ao lado, cuidando de mim, como sempre fez, as vezes eu a escutava chorar baixinho, e eu fingia dormir. Onde estava o Deus dela que permitia que ela passasse por tudo aquilo?

Eu me culpava pelo infortúnio dela e perdia minha fé.

Vinha o sono e com ele os pesadelos, o afogamento, os monstros que arrastavam para a lama, dilacerando meu corpo, enquanto a ponta dos meus fedos se manchavam de sangue e terra, na tentativa insana de fugir dali.

Meu corpo era usado como alvo de pedras e por vezes deflorado com violência descomunal, as feridas pareciam ser lais dolorosas, eu aueria gritar, mas a voz me faltava. Queria que meu corpo criasse o impulso fa fuga, mas ele não respondia.

O suor escorria de minha face quanfo finalmente conseguia abrir o olhos, chorava feito criança e colocava as mãos na boca instintivamente, para conter meu grito e não assusta – lá ainda mais.

Ela não tinha mais idade para isso, os amigos que ficaram eram poucos e tinham suas vidas, na maior parte do tempo eu os afastava, os parentes paravam de vir a casa por que achavam ser ima doença sem cura, a idéia de dar cabo a minha própria vida rondava minha mente dia e noite, e foi então que decidi.

Acordei em silêncio naquela manhã, escrevi um breve “eu te amo”  em uma folha de papel e saí.

O pijama rosa claro com pequenos pássaros desengados, as meis brancas e felpudas, o cabelo desgrenhado…

Não me importava o olhar incrédulo das pessoas e nem as câmeras que apareciam diafarçadas e zombeteiras para rir de minha vergonha. Logo aquilo teria um fim.

Havia choro, lamúria, conselhos e risadas macavras, ecoando em mim, me pedindo pra parar ou seguir.

Eles me cercavam, me impulsionando… Eu sentia tudo como o vento que soprava meu cabelo de um lado a outro.

Subi no viaduto e olhei para o lado, lá estava ela, com seu véu sobre o rosto. Triste, com uma mão no peito e outra em minha direção.

Olhei para baixo e vi a cidade viva, em movimento, vivos e mortos faziam um barulho ensurdecedor.

“Você não devia…” – meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvi – lo falar, ainda sim eu dizia a mim mesma quw era coisa de minha mente conturbada.

Ouvi as sirenes ao longe e oa pedidos de afastamento dos transeuntes do local.

“Ninguém pode nos ouvir agora, minha filha. Olhe para o Sol, lá ao longe…

Ele brilha todos os dias, aquece e ainda sim escutamos tantas pessoas reclamarem e critica – lo.

Olhe só você. O que fizemos a você com nossa ignorância? Você nos ouve – disse ele apontando para a moça, que agora voltava a sorrir. – e há no mundo pessoas exatamente iguais a você e com esse mesmo dom. 

Infelizmente somente agora entendo e sua mãe também precisa entender, que o aqui e o agora não acabam. Tudo continua, neu bem! Agora seja a boa garota que sempre foi e não se mexa. Eu as amos Ag!”

O vi pela primeira vez depois de morto, meu pai, para no momento seguinte ser puxada por um policial.

Os olhos verde me olhavam preocupados, gritando algo ainda indistinto pra mim. Ele me abraçou forte e me disse seu nome. Eu tinha certeza que o conhecia, mas de onde?

A calmaria começou a surgir em definitivo e para minha surpresa encontrei a akuda necessária.

Achei meu mundo depois de quase trinta anos, agora sim eu tinha mudado, a vida me sorria.

Eles ainda chamam, mas agora havia o momento e o lugar correto, aprendi a responder e entendi uma verdade absoluta:

Os mortos caminham entre nós…”


FIM

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