Princesa Infernal [Parte 1] – Carceres

  Escrito por: A.J. Perez

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Princesa Infernal – Capítulo 1: Carceres

As rodas de metal fundido do estranho trem rangiam conforme suas luzes internas apagavam e acendiam em intervalos descompassados e toda a estrutura bizarra percorria seu caminho sobre os trilhos velhos através de um túnel mais negro que a noite mais densa.

O ar era pesado, não de forma metafórica ou alegórica, ele realmente era pesado. Quase como estar mergulhado em um oceano sem água. A pressão do ambiente faria a cabeça de qualquer humano zunir, para depois conceber outros horrores. Ao encher seus pulmões com muita dificuldade seria quase impossível ter força suficiente para expelir o ar. E mesmo que conseguisse fazê-lo ainda havia a temperatura do mesmo. Tão quente que seria como inspirar fogo.

Porém em meio a esse ambiente caótico e hostil uma jovem viajava sozinha na estranha locomotiva. Suas roupas era uma mistura do clássico com o moderno, uma composição atemporal que por mais distorcida ainda fazia sentido. Que por mais diferente ainda parecia estar completamente na normalidade, seja lá qual fosse a normalidade naquele lugar.

Seu corpo esguio sacolejava levemente estando recostado na lateral do veículo abaixo de uma janela repleta de grades, suas pernas descansavam esticadas no banco ao lado, sobre o peito os braços seguiam cruzados logo abaixo dos seios. Longos cabelos negros, talvez tão grandes ao ponto de tocarem o chão escapavam pelas laterais do capuz pesado que ela usava sobre a cabeça, de onde uma melodia baixa escapava dos fones de ouvido.

E então o ruido baixou, quando a luz de um vermelho moribundo inundou o trem pelas janelas sem vidros, indicando que estavam agora a céu aberto.

A garota se virou levemente sonolenta para ver a infinita e familiar vastidão desolada de um deserto rubro, onde o horror aguardava os bravos.

Um som estridente, quase torturante, encheu o vagão sendo seguido de uma voz brutalmente ameaçadora.

– Próxima Parada Carceres!

A jovem se levantou, arrumando o capuz sobre a cabeça e uma espécie de armadura negra que usava apenas no braço esquerdo. Checou instintivamente a cintura onde sua espada sem lâmina repousava exibindo a empunhadura de ouro e prata, pendendo presa do cinturão duplo ao lado direito de seu corpo.

Sem pressa ela gentilmente colocou os fones do modo mais confortável possível e se dirigiu a porta.

A longa besta metálica rasgava a planície árida cuspindo labaredas de fogo rubro por sua chaminé logo acima do vagão principal que parecia ser algum tipo de crânio metálico em uma forma deturbadoramente diabólica.  Ao longe torres medievais feitas de aço contrastavam com prédios modernos que ao invés de janelas possuíam aço negro polido para refletir o exterior. A cidade era imensa e construída de forma caótica em uma fenda, porém era rodeada de uma imponente muralha.

Antes da maquina adentrar a cidade o largo portão lateral ficou visível a garota. Milhares de pessoas esfarrapadas se espremiam para adentrar a cidade o mais rápido possível, enquanto as últimas eram despedaçadas e devoradas por bestas que surgiam das areias do deserto as centenas, para terem seus corpos reconstruídos como magica logo após e tentarem mais uma vez fugir dali. Todos tentavam sair daquele local “perigoso” sem se quer prestar atenção na imensa placa acima da entrada de Carceres que aguardava os recém chegados que atravessavam o deserto.

“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”

Ela nunca havia tido contato direto com humanos, mas ve – los assim tão de perto sempre a deixava curiosa, ela apenas sorriu ao ver a cena, não um sorriso de escarnio, ela quase conseguia sentir pena deles.

– Bem vindos ao inferno macaquinhos. – disse, os saudando.

O trem atravessou a muralha pela passagem superior revelando A Grande Cidade Infernal de Carceres com construções bizarras desordenadas e desafiando qualquer lei da física conhecida pelos mortais. A cidade seguia até a grande fenda onde ela se revelava um abismo infinito onde as paredes de queda eterna abrigavam prédios em suas laterais até onde não mais se poderia ver. Do centro da queda sem fim, uma torre, mais alta que qualquer já criada no mundo mortal, se erguia do abismo até quase tocar os céus, onde um redemoinho gigantesco girava no sentido horário revolvendo as nuvens tempestuosas cor de sangue.

O trem finalmente parou na estação e ela desceu.

– Deseja que eu a espere? – indagou a voz diabólica do trem atrás dela.

Ela se virou e sorriu para a maquina demoníaca, a grande caveira estava virada para ela a própria carcaça do trem se revolvia em vida profana.

– Obrigada Gulbuk’baal, não será necessário.

– Como deseja será feito. – respondeu o ser se arrumando nos trilhos e partindo em seguida.

A garota seguiu andando pela estação tomada de todo tipo de demônios e diabos. Alguns mais humanoides, outros mais horrendos e ainda alguns que seriam tão “alienígenas” aos humanos que destruiriam suas mentes primitivas com um simples vislumbre mesmo ali no inferno, principalmente no inferno.

Ela passou ao lado do mercado onde um pequeno diabo observou sua espada pendendo na cintura, ela percebeu o olhar da criatura  e focou sua mente.

– Olá donzela. – resfolegou o diabo sorridente exalando um odor de enxofre ao falar. Seu sorriso amarelo e pútrido encheu a face vermelha dele assim como o resto da pele. Chifres apodrecidos lhe saltavam da cabeça onde o cabelo cacheado repleto de grandes piolhos estava embolorado e oleoso.

– Gostaria de negociar algo por essa bela espada celeste? – Ele abriu o sobretudo que pelo corte provavelmente havia pertencido a um oficial da SS, na parte interna dezenas de quinquilharias tilintavam.

– Não estou interessada. – ela foi ríspida e seguiu andando se quer olhou para ele.

– Ora, vamos… Noto pela sua bela e bem cuidada aparência que és uma dama, nobre correto?

Ela seguiu andando sem dar atenção a ele. Ela apressava o passo de cabeça baixa desviando das hordas infernais de comerciantes e aproveitadores do grande mercado do abismo. Ao passar ao lado de uma arena improvisada viu dois humanos lutando. Um esmagava a cabeça do outro repetidamente com uma pedra, enquanto demônios rugiam ao presenciar o combate. Vendo cada vez que a pesada pedra era retirada do crânio do mortal condenado ele começava a se reconstruir e a golpear o adversário para uma nova torrente de gritos e risos.

– Aposto que ele não aguenta esmagar a cabeça dele por mais um ano! – Berrou um demônio rindo.

– Hey condenado! Vou colocar vermes dentro de você se parar de esmagar essa cabeça! – gritou outro demônio para incentivar o homem que começou a bater com mais violência no outro, para o delírio da plateia.

– Então? – a voz estridente e baforenta do diabo lhe chamou a atenção novamente, ela não acreditava que ele ainda estava a seguindo. – Filha de algum Figurão do alto escalão? Arqueduque Infernal talvez?

– Não é da sua conta, e não estou interessada. –  ela apertou o passo em meio a multidão.

– Espadas assim são comuns pra vocês nobre se quiser posso…

Antes que ele terminasse a frase ela girou a mão na direção do rosto dele falando rapidamente.

– Selbedah elfftyr deleeph. – um desenho enoquiano se tracejou no ar nas pontas dos dedos dela formando símbolos do alfabeto celestes que se combinaram em uma única forma como uma kanji oriental.

Imediatamente o diabo foi paralisado e caiu como uma estatua no chão.

Alguns diabos e demônios próximos viram a cena e se afastaram dela abrindo caminho e murmurando assustados.

“Ela fala enoquiano…”, “deve ser uma celestial caída”, “não encare ela”, “aquilo é magia divina!”, “saia do caminho ela pode te pulverizar”.

A música tocando nos fones abafou os comentários para ela , que apenas seguiu de cabeça baixa até a cidade central sendo abordada constantemente por vendedores de artigos de luxo, escravos humanos para todos os tipos de trabalho e qualquer outras coisas que alguém poderia usufruir no inferno.

Depois de várias horas ela finalmente chegou a Ponte dos Condenados, a única via de ligação da cidade com a torre central de Carceres. Ela deu alguns passos na direção da ponte e estendeu sua mão tocando uma parede invisível.

– Sabladureshay elmirah eldhun. – ela sussurrou o encantamento na língua angélica, o antigo enoquiano e a barreira cedeu para deixa-lá passar.

A ponte se estendia por quilômetros até alcançar a torre central conhecida como “Pináculo Infernal”. A cada passo dela a ponte gemia de forma baixa, inicialmente qualquer pessoa pensaria que era uma ponte vermelha de pedra, mas o olhar mais próximo trazia a verdade aterradora para os mortais. A Ponte dos Condenados era composta por pessoas, esfolados vivos, eviscerados e costurados uns nos outros para formar um caminho até o centro do poder infernal. E por ela a jovem seguiu.

***

Dois guardas armadurados da cabeça aos pés ficavam a postos da entrada da torre, suas enormes e imponentes asas angélicas abertas de modo ameaçador se fecharam respeitosamente quando viram a garota e prontamente abriram caminho para ela fazendo a devida reverência.

– Saudações Lady Samirah. – ambos repetiram colocando o punho cerrado sobre o peito.

– Saudações Meinadiel, Ukzael. – ela sorriu de modo gentil em resposta entrou no Pináculo.

Era uma longa jornada, mas ela já a fizera inúmeras vezes, uma vez dentro tomou um dos elevadores em formas de jaula e se elevou até o topo da construção.

Os corredores eram escuros e feitos de pedra de basalto negro tochas vermelhas ardiam nas paredes contrastando com lâmpadas de neon também rubro no teto.

– Próximo! – a voz potente e melódica ecoou pelo salão e corredores adjacentes. Não era uma voz demoníaca, ela tilintava como um símbalo bem orquestrado.

Samirah adentrou sorrateiramente no grande salão sem que a vissem, embora soubesse que “ELE” obviamente já a havia notado há muito tempo.

Diante de um portal mecânico no chão no centro da sala se elevava um trono titânico, forjado em formato de uma onda crescente feita de sangue cristalizado cintilando como se uma energia o alimentasse. No trono estava “ELE”…

Loiro, alto, com olhos azuis opulentes e penetrantes. Um rosto anguloso e perfeito, como uma escultura grega, usava uma coroa sem brilho sobre sua cabeça que imitava enormes chifres de carneiro. Asas maiores que a de qualquer outro anjo estavam gentilmente repousadas ao redor do trono. Elas eram de um tom verde celestial, diferentes de qualquer outro ser mundano, e repletas de olhos, milhares deles. Diziam que ele podia focar cada um dos olhos em uma pessoa diferente dentro dos limites da cidade. Observando tudo e todos de forma austera.

Samirah se posicionou ao lado de um dos Arqueduques infernais que estavam ali, ele se quer notou sua presença.

Ela tentou olhar para o centro da sala, mas se pegou admirando ele mais uma vez, Lúcifer, o senhor do inferno em toda a sua glória.

Ela podia ver um dos olhos na sua asa logo acima de seu ombro, ele olhava fixo pra ela, como se dissecasse a alma da menina. Ela subitamente se encolheu, mas então sua atenção foi desviada para o topo da sala onde uma comporta de aço se abria.

Uma dama de ferro incandescente deslizava em correntes poderosas sob o teto. Gritos de dor escapavam do interior dela até que a porta frontal se abriu e um corpo humano completamente carbonizado despencou de dezenas de metros de altura até se chocar contra o solo. O som de ossos se partindo e órgãos se rompendo com o choque foram audíveis até nos corredores.

A pele negra começava a se regenerar, os ossos estalavam se religando e gorgorejos internos indicavam os orgãos se reconstruindo, mas não havia sangue. Mortos não sangram.

– Você, Salazar Soarez de Magalhães – gritou o porta-voz ao lado de Lúcifer, um anjo que parecia ter uma idade avançada chamado Kadell – Chega até a presença de Lúcifer, Senhor do Inferno, Príncipe Negro do Abismo, e Carcereiro da Eterna Danação, para ouvir de bom grado a sua sentença de punição que será em um dos nove círculos infernais.

O homem nu choramingava, horrorizado ao ouvir aquilo.

– Eu, Lúcifer. – o tempo pareceu congelar na sala quando as palavras dele chegaram ao ar, até mesmo o condenado parecia atordoado com a voz celestial do mestre do abismo que reverberava na sala – Guardião das Almas Condenadas, o sentencio através do poder dado a mim, ao tormento eterno no Oitavo Círculo Infernal, Malebouge, na Quinta Bolgea. Onde será lançado em um lago infindo de piche fervente e torturado por demônios por todas as eras que virão.

O homem gritou em desespero ao ouvir a sentença.

O metal rangeu a uma comporta mecânica se abriu abaixo dele. O condenado despencou aos gritos tendo o corpo incendiado pelo núcleo do pináculo, caindo até a sua prisão eterna.

– Meu senhor, – iniciou Kadell – o próximo condenado é…

– Chega por hoje, – disse o senhor do inferno ao se levantar do trono – a sessão de hoje se encerra, retornaremos amanhã para mais condenações.

Todos começaram a dispersar.

As asas de Lúcifer encolheram de tamanho, os milhares de olhos se fecharam e sumiram, assim como suas asas logo em seguida. Samirah apenas o observava vir em sua direção.

– Meu senhor, disse ela fazendo uma reverência assim que ele chegou até ela.

– Venha comigo Samirah. – ele estendeu o braço para ela que aceitou enganchando o seu no dele.

Eles saíram para um corredor externo onde se podia ver toda a cidade.

– Então… o que a trás a Carceres?

– Não posso apenas querer ver o meu pai?

– Uma filha sempre pode ver o seu pai! – ele passou o braço acima dos ombros dela a puxando para si em um abraço – Mas um pai conhece sua filha, e sabe quando ela vem até ele com segundas intenções, então… por que veio?

– Tio Yekun quer falar com o senhor…

– Ah! Eu sabia! – ralhou ele – aquele miserável, já não basta as dores de cabeça que ele me deu em todos esses milênios agora vem usar minha filha para ter uma audiência comigo!

– Calma Pai! Ele só quer conversar! Ele disse que é muito importante ele está com…

– O que é isso? – jogou o capuz dela para traz vendo os fones de ouvido – Quantas vezes vou dizer Samirah, nada dessas bugigangas de humanos, isso nos contamina! Nos rebaixa no nível daqueles macacos!

– Só pra ouvir musica! – ela deu um passo para trás fugindo das mãos dele prontas para arrancar e destruir seu precioso objeto – é Tão horrendo assim eu gostar de musica? Depois das histórias que ouvi sobre você.

– Não venha com isso…

– Sobre como você regia os corais celestes na Cidade Dourada antes da rebelião. É tão ruim gostar de musica. você pelo menos pode falar pra seus arqueduques que tem algo em comum com sua prole. Algo realmente profundo.

Ele passou as mãos na face e anuiu.

– Então… vai falar com tio Yekun?

– Não, nem você devia! Ele é uma péssima influencia pra você!

– Pai! Você é Lúcifer!? Não sou a expert em cosmologia ou algo assim, mas qualquer um diria que você é a má influencia.

– Por que eles são tolos! Acreditam que fui expulso do céu, quando na verdade meu castigo foi virar o carcereiro da prisão celeste! Não sou mau, eu puno os maus!

– Eu sei, – ela segurou os braços do pai – será que Yekun também não é mal compreendido?

Ele se desvencilhou dela.

– Não me compare a ele! Volte pra casa agora!

Ele virou as costas para ela e começou a se afastar.

– Ele disse que é importante! É algo sobre almas de mortais desaparecendo!

– Não podem ir para um lugar pior que o inferno, não é problema meu! – gritou ele quase ao chegar na porta sem fazer menção de a olhar.

– Ele disse que estaria esperando você com uma uma mulher, uma tal de Oito!

Lúcifer parou. Ele se virou e olhou com curiosidade para a filha.

– Uma dos Oito? – ele andou alguns passo na direção dela ponderando lentamente algo em sua mente – Uma dos Oito Aspectos?

– Ele disse algo asim. Dela ela ser isso, dos Oito, eu não entendi direito ele falou muito rápido praticamente me chutou da biblioteca.

– Venha, vamos encontrar ele.

– Sério! Obrigada pai ele vai ficar feliz em te ver.

– Isso não tem nada de feliz garota se aprece.

– Então o que é uma oito?

– Uma dos Oito Aspecto que regem o mundo mortal. Isso é uma longa história, eu vou te contar no caminho.


Continua…

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