A Moira de Guadalupe P.1

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Por Raven Ives

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Havia cheiro de café no ar. Café forte. Cibrán inspirou fundo enquanto desligava a água do chuveiro e enrolava a toalha ao redor da cintura. O banheiro parecia enevoado graças à água quente. A umidade grudava em seu corpo, criando uma camada fina de gotículas sobre sua pele negra. Pelo vão da porta entreaberta, o toque do celular chegou até ele pela quinta vez. Tinha certeza de que se tratava da sua mãe preocupada em busca de notícias. Só no dia anterior foram mais de dez chamadas do período da manhã até de noite.

Cibrán soube no momento em que aceitou morar com ela, após o divórcio onde perdera boa parte de seus bens, que seria visto como um rapazote mais uma vez. Algo que não era há pelo menos duas décadas. Com uma mão na frente e outra atrás, decidiu bancar o filho pródigo e retornar ao seio do lar. A viagem a Évora só acontecera porque as passagens foram compradas meses antes. Para alimentação, transporte e estadia, a ajuda do amigo de infância. Cibrán e ele entraram para a universidade de Coimbra juntos, decididos a cursarem o mesmo curso: licenciatura em história.

Enquanto Gaspar saiu da universidade apenas com o diploma, Cibrán se formou com a data do casamento marcado para alguns meses depois. Conhecera sua futura esposa durante uma aula em que dividiram a mesma matéria. Aurélia cursava história da arte e os dois acabaram se envolvendo. A união parecia inevitável para qualquer um que os visse juntos. O divórcio, mesmo dezessete anos depois, foi uma surpresa para todos. O motivo para a separação parecia tão incerto quando a razão que ainda os mantinha juntos.

— Disse para a sua mãe que você estava no banho — comentou Gaspar com a atenção voltada à pulseira do relógio. — Ela pediu para ligar de volta.

Cibrán colocou a toalha em cima da cadeira próxima à janela e começou a ajeitar o cadarço da calça. De onde estava, podia ver as pessoas se movimentando para agilizar os preparativos para a festa do solstício de verão. Era a primeira vez que eles visitavam a freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe. Encontrar um tempo vago com a vida corrida de professores do ensino secundário era muito complicado.

— Ela pode esperar até que voltemos do Cromeleque. — Cibrán colocou o celular no silencioso, jogando-o dentro da bolsa carteiro, onde estava sua máquina fotográfica.

Sobre a cama de Gaspar, a mala estava aberta, com as roupas — limpas e sujas — espalhadas pela superfície acolchoada. Os dois estavam ali há pouco mais de um dia e já lembrava o quarto que ambos dividiram durante a faculdade; uma grande bagunça. A cama de Cibrán parecia a única coisa arrumada por ali. Sobre sua mesa de cabeceira, o relógio de bolso que pertencera ao seu pai reluzia sob a luz matutina; os ponteiros indicavam 8h32. Precisavam se reunir com o resto do grupo antes das 9h. Passariam uma hora visitando pontos históricos, incluindo o Cromeleque dos Almendres.

Seu pai, nascido em Évora, sempre exaltara a beleza do lugar. Ele fora, de certa forma, um dos maiores incentivadores da carreira do filho. E para um historiador, Cibrán se via na obrigação de visitar o sítio arqueológico pré-histórico.

— É melhor irmos — disse, colocando o relógio no bolso da calça e vestindo a camisa que deixara dobrada sobre o travesseiro. — Não quero perder essa visita por nada.

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