Villains – Gang

Escrito por Gabi Waleska.

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Eu esperava o ônibus para qualquer cidade distante já havia meia hora. A minha bagagem consistia em duas mochilas e uma sacola com comidas. Era o meu passado que eu deixava para trás. Toda aquela rebeldia idiota e infantil. Não servira de nada! Eu iria para longe e jamais retornaria. Não tenho nada aqui – eles estão mortos.

Meus adoráveis pais, que sofreram com minha rebeldia sem causa. Que buscaram me dar o melhor, com sua educação religiosa e inocente. Lembro-me quando raspei metade das sobrancelhas. Como minha mãe ficou sem reação e depois pôs-se a chorar. Na época achei graça. Mas hoje penso em como eu fui imbecil. Burro! Confiando nele, como um amigo. Que me convencia a magoar meus pais só “por diversão”, como dizia ele, e eu e os outros rapazes da sua gangue, – agora vejo como meus pais estavam certos – fazíamos.

Mas não bastava os magoar, precisava aterrorizar. Ele tinha que ir lá com seus braços direitos, no meio da noite, só porque ingressei em uma universidade e iria para longe. Sairia de seu comando… Teria algo que ele jamais conseguiria.

O ônibus para à minha frente, e me encaminho ao embarque. A fumaça cheira a borracha quente e gasolina. Entro e entrego o ticket ao cobrador. Vejo meu reflexo no vidro do ônibus. Maldito cabelo! Deveria tê-lo raspado por completo antes de vir. Agora me lembro dele novamente, a marca do grupo, as laterais raspadas, com um topete punk acima. Providenciarei isso assim que chegar ao campi, ou a um hotel, ou seja lá para onde vou.

Sento-me ao fundo e começo a observar as pessoas nos assentos. Mães e pais com bebês e crianças pequenas me dão um embrulho no estômago que causa dor. A dor que senti no dia ainda fresca à minha memória.

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Acordamos de madrugada com o barulho de vidro quebrando no andar de baixo. Meu pai me chamou em meu quarto e minha mãe veio atrás de nós, com o telefone na mão, pronta para chamar a polícia caso fosse algum invasor – ainda poderia ser nosso cão, Bunny, fazendo bagunça. Descemos a escadaria e o silêncio dominou. Vimos os cacos próximo à lareira. Garrafas de Whisky do meu pai estavam quebradas, bem como os copos e vidros da cristaleira. Será que Bunny esbarrara ali?

Seguimos para a cozinha e minha mãe soltou um grito abafado atrás de nós. Nos viramos. Ele cobria sua boca, prendendo as mãos dela para trás, com um sorriso nojento. Não deu tempo de reagir, meu pai caiu ao meu lado e eu senti a dor aguda e quente de algo batendo em meu crânio. Caí também, grogue. Meu pai gemia de dor ao meu lado e percebi que éramos amarrados por duas mãos hábeis.

– É engraçado o que acontece quando se tem amigos – dizia ele, segurando a faca tática que eu vira mil vezes em sua mão – a gente acredita que eles são leais a nós, que eles vão nos ajudar a chegar onde queremos… – Prosseguia, cutucando o canto da unha com a ponta da faca. – É, uma pena quando descobrimos o quanto eles são infiéis e fazem as coisas por nossas costas e nos abandonam como se não sentissem nossa falta! – sua voz era carregada de escárnio e cuspiu a ultima frase.

Eu não podia falar, estava amordaçado, jamais me sentira tão impotente e não sabia o que fazer. Eu avisara um mês antes que iria me mudar, ele agira com naturalidade, me felicitando e me abraçando, se despedindo de mim como se estivesse realmente feliz. Eu agora sabia o que se passava por sua mente. Inveja, porque jamais sairia da merda em que se afundou.

– Agora veja, terei que fazer meu trabalho para mostrar a você quem manda e como você não tem para onde ir. – Falou quase gargalhando, demonstrando poder e loucura. Neste instante mais vidro era quebrado, seus lacaios estavam na cozinha quebrando nossa louça, a porcelana antiga da minha avó. Barulho de gavetas sendo reviradas e peças de móveis sendo chutados até quebrar. Ouvimos tudo e minha mãe chorava soluçando. Eu olhava para ela, implorando perdão com os olhos.

Aquilo era minha culpa. Eu que o segui como um cachorrinho por dois anos. Eu que o levei ali, como se fosse meu irmão. E agora ele invadira nossa casa, para mostrar que eu devo a ele – o que eu devia? Obediência? Servidão? Ou amizade, como ele dizia?

Logo voltaram e minha mãe tentou gritar com a mordaça na boca, seus choro passou do medo ao lamento histérico. Tentei me virar para ver e meu grito ficou preso entre meu coração e minha garganta. O corpo moribundo de Bunny jazia próximo à lareira em meio aos cacos dos porta retratos. Os pelos cheios de sangue e a respiração pesada quase parando.

– Ora, ora, ora… O cachorro era de vocês? Tsc, tsc… Eu avisei para os rapazes não maltratarem animaizinhos! – Sua voz não continha pesar algum. – Agora, vamos ver o que temos aqui – Falou enfiando a mão dentro da camisola da minha mãe, que se debatia com desgosto e mais lágrimas escorrendo pelos olhos.

Neste momento eu e meu pai tentamos sair do lugar, mas os lacaios voltaram a nos golpear, nos lançando ao chão. E foi aí que ele a estuprou. Na nossa frente, me vendo chorar, desesperadamente, tentando reunir forças para avançar, sendo impedido e golpeado. Fiquei à beira da inconsciência. E então ele parou. Olhou para mim com pena e nojo misturados, em seguida, olhou para ela, que chorava convulsivamente.

– Shiii, – falou afagando a cabeça dela – Seu sofrimento não durará mais do que o deles. E dito isto passou aquela maldita faca no pescoço da minha mãe, que tombou de vez e ali sangrou, chorando a morte de Bunny, a sua e provavelmente minha e do meu pai.

Meu pai, que em um ímpeto de força e fúria, levantou-se empurrando para trás os dois cavalos dele, paralisou novamente e se debruçou ao meu lado. Olhei tentando entender se ele fora novamente golpeado. Não, ele estava sofrendo um ataque cardíaco ali à minha frente e eu não pude fazer nada. Apenas vê-lo perecer ao meu lado, e me sentindo mais bosta que em qualquer momento da vida.

– Mas que merda, einh amigo? – Ele veio e chutou o corpo do meu pai. – Um velho imbecil querendo ser super-herói, morre antes de tentar. – A risada no fim da sua voz me levou à fúria fria. Perdi o sentido do certo, do errado, do moral e do que estava à minha volta. Estava vendo vermelho – o sangue da minha mãe – e cinza escuro. Esperaria pacientemente.

Fiquei calado, enquanto ele terminava de estragar a minha sala, quando um dos seus lacaios burros fez barulho demais, que provavelmente chamara atenção da segurança que estava passando na rua e foram embora correndo, como ratos em uma enchente.

Fiquei ali, por alguns minutos, vendo os corpos da minha família jogados ali, por minha culpa. Porque fui eu quem o infiltrou na família e agiu como um babaca. Finalmente a polícia conseguiu entrar e me tirou da sala, cobrindo os corpos deles.

Não falei que sabia quem tinha feito aquilo. Falei que eram quatro e que foi assalto – realmente quando vasculharam a casa dei pela falta das jóias da minha mãe e alguns itens de valor do meu pai. Laudo final da polícia: Assalto seguido de morte. Fiquei dois meses na casa da minha tia. Aquela noite não saia da minha cabeça, mas aquilo não me enfraquecera ou esfriara minha fúria. Mas despertara o pior de mim. Não o vi mais. Estava escondido em seu esgoto. Nem a polícia desconfiara que era ele.

Noite passada saí da casa da minha tia. Ela sabia que eu iria para a faculdade e disse que eu poderia voltar quando quisesse. Agradeci por tudo e fui para a rodoviária. Mas dei uma parada no caminho. Eu sabia tudo sobre ele – onde morava, seus horários, suas manias. E não iria até a casa dos seus pais, para me igualhar a ele. Então desci a escadaria do metrô e observei, atrás de uma porta a velha cabine de trem abandonada em uma linha fechada.

Haviam seis com ele, mas parecia que estavam discutindo. Ele parecia nervoso e por fim o vi mandar saírem todos. Era minha oportunidade. Fui pé-ante-pé até a frente da cabine e joguei uma pedra para o lado onde vinham os trilhos. Dois deles se moveram até lá. Joguei uma pedra na escadaria e mais dois foram para lá. Os outros ficaram de vigia. Teria que ser rápido.

Peguei a arma do meu pai na minha calça, eu a havia pego no quarto deles antes de ir embora, e atirei nos dois que ficaram lá. Não sabia se os havia matado, mas os dois caíram como sacos. Ele pôs a cabeça para fora e os viu arriados. Dando pela falta dos outros, puto da vida, deu a volta na cabine. Eu havia previsto, então fiz a primeira coisa que me veio à mente, ouvindo os passos dos outros voltando. Corri para as linhas abertas.

Fui burro e infeliz. Ele me seguiu com os outros quarto atrás, passei entre os trilhos, porém os trens estavam vindo, e apenas ele teve tempo de passar. Dois deles foram atropelados. Esses não sobreviveram, eu tinha certeza. Mas ele estava no meu pé e eu precisava dar um jeito. Me escondi numa cabine telefônica. Respirei com calma. Ele iria pagar.

Saí da cabine, metrô vazio. Ele surgiu no final da linha. E sabia que era eu ou ele, e ele tinha todas as vantagens e experiência. Eu tinha apenas a fúria. Caminhei até ele. Sabia que não usava armas de fogo, ele era o tipo de arma branca e se gabava por desarmar pessoas com arma de fogo. Paramos a uns quatro metros de distância. Ele me olhava com curiosidade e raiva. Como eu ousava desafiá-lo.

Apontei a arma para ele e puxei o gatilho. Nada. Não haviam mais balas. Mais uma vez burro, que não conferiu a munição. Ele riu.

– Se deseja que eu termine o serviço, meu caro, farei com prazer. – Disse sacando a faca e avançando em minha direção. Eu tinha um plano. Fui para trás até o painel elétrico. Ele me encurralou ali e levantou a faca para atira-la em mim, plano falho o meu novamente.

Corri para o lado em desespero, logo estava na escadaria do metrô, e subi quase sem fôlego. Ele me seguia sem esforços, fomos parar no parque onde eu sabia que daria um fim a tudo. Desacelerei fingindo cansaço. Ele acelerou para me alcançar em com um golpe quase feriu minha perna, mas cortou meu braço.

– Você nunca teve habilidades assim, sabe que esta luta já está ganha por mim. – Se gabava, então chutei sua mão e a faca foi parar longe. Seus olhos se tornaram loucos de ódio por desarmá-lo assim. Corri então para cima e dei-lhe socos cheios de ódio. Seu rosto se feria, mas ele apenas parecia se divertir com isso. Eu comecei a chorar, socando-o, vendo que logo ficaria sem forças.

Então, minha salvação apareceu.

– Moço, isso é seu? – Uma menininha apareceu segurando a faca para mim. Os olhos dele arregalaram-se e ele se encolheu. Ela parecia ter nojo da faca, segurando com as pontas dos dedos.

– É dele – falei para ela, – mas pode me entregar, sai de cima dele, indo até a menina.

– FIQUE LONGE DELA! – Ele gritou.

– Ele está causando problemas? – a criança falou, com a voz fina. Ela não devia ter mais que seis anos de idade.

– Só estamos acertando as coisas – falei, apanhando a faca de sua mãozinha. Ele se encolhia no chão quando me aproximei novamente e percebi que ela caminhava junto a mim. – Olhe, vá para casa, não tem o que fazer aqui e já está ficando tarde. – Disse, e ela anuiu.

Me virei para ele e ele me encarou, não havia mais sanidade no seu olhar parecia desesperado, furioso, perdido, tudo ao mesmo tempo. Ele avançou como um louco para mim, mas a calma dominara-me. Desviei de seu ataque e percebi que a menina havia ido. Ótimo, nenhuma testemunha além de uma criança.

Ele voltou para mim, tentando recuperar a faca, com a qual golpeei seu peito, fazendo-o parar de súbito. Eu me sentia frio e quente. Não sentia dor, nem cansaço. Apenas o sabor da vingança. Ele avançou novamente sangrando, cego de fúria por ter se ferido com a própria arma, então o joguei no chão e subi em suas costas, prendendo suas mãos.

– Sabe, – falei com o mesmo tom que ele usou na minha casa – Você nunca foi bom em perder. Sempre perde o controle quando perde sua arma. E… Como foi que você disse mesmo? Ah… Seu sofrimento não durará mais tempo que o meu. – Pus a faca em sua garganta, como ele fez com minha mãe e comecei a cortar devagar.

Ele se debatia cada vez menos, perdendo sangue, perdendo a vida. Terminei o serviço e vi a menina à nossa frente novamente. Me desesperei, um trauma para uma criança.

– Finalmente, ele está livre. – Ela parecia feliz, para minha surpresa.

– O que?

– Meu irmão, você o libertou – ela rodopiou batendo as mãozinhas. – Desde o acidente, ele se prendeu em uma rede de dor e maldade, mas você o livrou. Agora posso ir pra casa com ele!

– Seu irmão? – gaguejei a palavra. Ele jamais dissera ter irmã.

– Tem muitos anos… Eu morri em um acidente enquanto brincávamos. Ele acreditou ter sido culpa dele. Agora acabou, logo ele estará ao meu lado. Vá.

Ela falou enquanto eu me levantava assustado ao perceber que realmente ela possuía uma áurea diferente, que não notara no embate. Larguei seu corpo ali mesmo, mas levei a faca embora. Deduziriam que ele morrera em briga de gangue.

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Sorri para a janela do ônibus. Livre. Também estou livre para seguir. Abri um livro e comecei a ler uma nova história.

Fim ou não…

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