Autonumn Rains

Por Gabi Waleska.

outono

A chuva caindo hoje, não sei porque me fez lembrar de você.

O som.
Suave.
Doce.
Frio.

Aquele outono que passamos juntos foi o melhor da minha vida e ainda desejo repeti-lo.
Cinco anos atrás, ah, eu era tão jovem, inexperiente em meu intercâmbio.

Dois estrangeiros que se conheceram naquela sala abarrotada e quente da Universidade de Oxford. Ainda lembro de como você estava vestido. Casaco de neve, embora ainda fosse verão na Inglaterra e touca preta. Estávamos tremendo de frio, acostumados com o calor brasileiro. Você falou comigo.

Nosso verão maravilhoso, rimos e nos aproximamos. Eu adorava quando você me puxava pela mão para mostrar um pub novo que você encontrou pelas ruas de Oxford e provávamos novos petiscos e novas bebidas.

No dia do equinócio de outono fui até você compartilhar tristemente a nota baixa que obtive e você não me deixou ficar triste. Me levou até aquela árvore enorme na colina e me mostrou o quanto o mundo é belo.

Vê? Quase dá para sentir no ar, a magia do mundo transformando tudo em outono.” Você disse, “Incluindo eu e você.

E. Você. Me. Beijou.
E eu senti, o vento frio, a cor do céu, o som das folhas, o sabor seu. E tudo era outono naquele momento.
E choveu.

Não nos separamos desde então. No Halloween eu te amei, e você me amou também. A chuva nunca parava de cair na Inglaterra. E cada dia mais frio, era um sabor diferente de chocolate quente e café que preparávamos juntos nos nossos apartamentos.

Você era meu encaixe perfeito. Quando dormíamos, nos fins de semana gelados, ouvindo a chuva no teto e os corações um do outro.

Mas.
O
Inverno
Veio.

O natal se aproximava e eu não voltaria ao Brasil. Não tinha porquê abandonar um lugar tão belo e voltar ao calor, de uma família que não era família. Que não era amor. E não sentia minha falta. Mas você…

Você. Voltou.

Você precisava ver sua mãe, que estava adoentada e te telefonava todo dia, ligações internacionais! Ver sua família que trocara cartas e presentes nos últimos meses. Que te amava. Que te queria bem.

Nos despedimos no aeroporto. Você com uma única mala. Seriam apenas duas semanas. Estaria de volta para meu aniversário. E comemoraríamos juntos. Em algum pub. Em minha cama. Em meu coração.

E. Você. Entrou. No. Avião.

Que não caiu, graças a todas as minhas preces. E te entregou em segurança ao solo brasileiro. Caloroso. Vermelho e laranja.

Você falou comigo no Natal. Mas não apareceu no Skype por três dias. Ressurgiu próximo ao ano novo, com um ar feliz, de quem era amado. Me animei com sua alegria. Você sentia falta da sua família. E
disse que sentia
minha falta também.

No ano novo, um rapaz inglês me beijou no pub. À meia noite em ponto. Fingi que era você. E no dia seguinte te mandei recado. Mas. Você. Não. Viu.

Pensei que talvez fosse pelas festas, mas passaram três dias. E então você apareceu na universidade. Mas não falou comigo, entrava na sala de assuntos acadêmicos de intercâmbio.

À tarde fui ao seu apartamento. Mas você não abriu quando bati. Sentei-me à sua porta. Aguardei. Duas. Horas.

E você abriu a porta. Disse não ter me ouvido. Havia dormido. Dei-lhe um beijo, que percebi não ser recíproco. Entrei.

Todas. As. Coisas. Estavam. Em. Malas.

Não podia se despedir?” Gritei. “Não podia me responder?“. Eu chorei. Me odiei.

Você me abraçou. Chorando.
Era o fim.
Eu sabia.

Não percebi, porém, que você deixava uma caixinha e uma carta em meu bolso.

Saí sem dizer adeus. E só uma semana depois li sua carta. Seu pai adoecera, precisava de você. Era isso que sua família não contava, entre tantos telefonemas e cartas, escondiam a dor melhor que ninguém. E você precisava estar lá.

A chuva lava a minha janela. Não tenho notícias suas desde então. Seguro entre as mãos o globo de neve e chuva que você me deu. Estou formada, tenho um emprego. Me perguntei se talvez voltaria a te ver, mas o Brasil é grande, e não tenho mais tempo para redes sociais.

Mas. Me. Lembro. De. Você. Toda. Vez. Que. Chove.

Porque, simplesmente
alguns romances só duram outonos.

Mas não tem um final feliz.

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