Selvas de pedra ainda são selvas (Pt.2)

selvas

Por Alex Brehan

Parte 1

Na noite seguinte, os entes místicos e deuses pagãos remanescentes se encontraram em uma floresta densa da mata brasileira. Os exércitos tanto de curupiras como de lobisomens estavam lá, em linhas opostas. Os curupiras se pareciam levemente com a individual Caipora, mas seus cabelos eram mais vermelhos e seus pés virados para trás. Os lobisomens, diferente do cinema americano, não eram encorpados e de pelagem cinza, mas esguios e amarronzados, parecidos com o lobo-guará.
Iara se apoiava sobre uma pedra à beira do riacho, com sua calda de peixe sob a água. Boitatá, a cobra gigante com olhos de fogo, se enrolava próximo ao circulo de deuses indígenas.

Os deuses pareciam fracos devido ao baixíssimo número de adorações que haviam recebidos nos últimos séculos.

No centro de tudo isso, Jaci e Guaraci discutiam constantemente, como se dispostos a gastar o mínimo de energia que ainda lhes restavam para vencer o argumento um do outro. Guaraci parecia um cacique dourado, com penas amarelas e vermelhas por todo o corpo, seus olhos ardiam em chamas. Jaci tinha a pele azul e cabelo comprido cinza, seus olhos refletiam uma energia branca azulada.

O silêncio dominou o recinto quando Caipora apareceu com seu convidado vindo de longe. Já havia muitas décadas que ninguém o via e, para não assustá-los, Saci decidiu usar suas roupas antigas que se restringiam a uma bermuda e capuz vermelho. Entretanto, ele se sentia humilhado em sair pulando em uma única perna outra vez, era quase um retrocesso. Então decidiu não se desfazer de sua prótese.

– Boa noite, caros amigos.

– Você cresceu! – disse um dos deuses pagãos.

– Sim. Tive a ajuda de um xamã… de um velho pajé… – achou melhor valorizar a própria terra. – Ele conseguiu retirar aquele aspecto juvenil eterno que eu tinha. Mas não foi pra contar essa historia que eu vim.

– Você não é mais o mesmo – gritou um dos curupiras.

– Como eu tive que explicar a Caipora, minhas trapaças atingiram outro nível. Mas ainda sou eu.

– Você se tornou sujo como todos os humanos – dessa vez foi Jaci quem atacou.

– Será que eu posso falar?

Enquanto eles discutiam, Caipora sorrateiramente deu a volta na multidão caminhando até Boitatá. Assim, como a mula sem cabeça, a cobra não era exatamente uma entidade mística com intelecto avançado. Estava mais para um animal do que um ser racional. E Caipora, que sempre teve empatia com todo e qualquer bicho da mata, sempre fora uma espécie de treinadora da grande cobra de olhos flamejantes. Ela se aproximou da serpente e lhe acariciou a cabeça. Boitatá respondeu o carinho, começando a se levantar.

– Shh… Calma. Espera um pouco – sussurrou Caipora.

Na multidão, Saci continuava seu discurso:

– Vocês não conhecem os seres humanos. Eu passei décadas com eles e posso dizer uma coisa: Tupã estava certo. Eles precisam aprender com os próprios erros.

– Mas os erros deles vão destruir nossas florestas – contestou Jaci. – Vão acabar nos matando.

– Foram as crenças deles que nos deram origem para começo de conversa – argumentou Guaraci.

– Ele está certo – continuou Saci. – Devemos esse livre arbítrio a eles. Começar uma guerra agora só iria…

Antes que ele conseguisse terminar seu argumento, viu o Boitatá dar o bote em sua direção. Saci se esquivava para os lados, mas a enorme cobra continuou atacando com presas afiadas. As outras entidades tentaram acalmar o bicho, mas ninguém conseguia, parecia determinado.

Finalmente, Boitatá conseguiu morder as duas pernas de Saci com sua enorme bocarra. Quebrando sua perna física e destruindo sua prótese. Saci gritou de dores ao cair no chão quando Boitatá se preparou para dar o golpe final.

Um assobio agudo. Boitatá parou.

Caipora saiu de traz da multidão e assobiou novamente, mas em outro tom. Boitatá entendeu a ordem e enrolou seu longo corpo prendendo completamente o corpo Saci, que gemia e sufocava.

– Muito apertado? – Caipora se aproximou fingindo estar com dó. – Afrouxa um pouquinho, amor – disse dirigindo-se à cobra gigante, que obedeceu.

Saci tossiu e respirou mais forte enquanto Caipora voltava sua voz à multidão.

– Estão vendo, meus companheiros? – ela apontou para o Saci. – Ele era um de nós, mas foi corrompido. Tão corrompido que defende os humanos. Tão corrompido que ficou fraco. Até o Boitatá não o reconhece mais como um próximo, apenas como outro homem aproveitador que quer derrubar nossas florestas.

– Isso é um exemplo, meus irmãos – Jaci tomou partido do discurso. – De como a humanidade pode destruir os mais fortes de nós – foi até Caipora e a abraçou. – Oh, minha pupila, você se saiu melhor do que eu esperava.

– Larguem-no agora! – vociferou Guaraci. – Ele é apenas um de nós que escolheu um caminho diferente. Temos o livre direito de escolha.

– Se temos escolha, eu escolho lutar! – Jaci gritou e, com isso, o exército de curupiras se armou com seus arcos e flechas. Do outro lado, os lobisomens levantaram suas lanças e rosnaram com presas à mostra.

– Por Tupã! – gritou Guaraci.

Deu-se início a batalha. Os curupiras dispararam uma saraivada de flechas, alguns lobisomens se feriram, mas outros conseguiram se esquivar e correram até seus atacantes. As lanças perfuraram barrigas e dorsos, as mandíbulas dos lupinos estraçalharam alguns pescoços. Os curupiras mais ágeis escapavam para cima das árvores de onde disparavam suas flechas. Outros iam ao combate corpo a corpo mesmo.

Porrada, sangue espirrado, ossos quebrados, dentes encravados na carne, pelos marrons e fios de cabelo vermelhos voavam pelo ar. Folhas de árvores caíam, a natureza chorava ao ver seus filhos se matando.

Iara se escondia no riacho próximo à luta. Os deuses davam ordens aos exércitos, funcionando como generais no campo de batalha. Saci continuava preso pela cobra gigante e Caipora continuava por perto.

– Dê uma boa olhada no que seus preciosos humanos fizeram – disse Caipora.

Saci começou a rir.

– Foram vocês mesmo que causaram isso, não culpem os humanos.

– Mas foram as ações deles que desencadearam nossos desentendimentos. Por que estou discutindo com você? Não está em posição de fazer nada. Nem está lutando.

Saci deu uma gargalhada dessa vez.

– Não estou porque não quero.

– Ah, é? Quer me pregar uma peça como nos velhos tempos?

– Eu disse que não tinha mudado tanto assim. E eu já te preguei uma peça no momento em que cheguei aqui – a gargalhada aumentou.

– Cale a boca! Boitatá, aperte ainda mais. Pode sufocar – encerrou a ordem com um curto assobio.

A cobra gigante fez conforme o ordenado, mas Saci continuava rindo.

– Você precisa prestar mais atenção no que você mesmo fala, Caipora – disse Saci e depois fechou os olhos.

Uma súbita ventania invadiu a floresta. As árvores dançaram e as folhas soltas no ar começaram a voar em círculos. Os ventos ficaram mais fortes e um tornado se formou bem onde Boitatá estava. As correntes de ar fizeram com que a cobra soltasse Saci e acabasse voando longe na floresta. A batalha foi interrompida porque os soldados tiveram que se segurar para não serem rastejados pelos ventos. Caipora foi levada pelas rajadas, dando um mortal para trás involuntário. Conseguiu se segurar em um tronco de árvore, protegendo os olhos com o braço.

Saci se mantinha no centro e no topo do tornado. As correntes de ar mudavam de uma forma para que ele se mantivesse flutuando no centro do fenômeno climático. Caipora não entendia. Como aquele menino que flutuava em um redemoinho agora era um homem que criava tornados?

– Quando você se tornou tão prepotente, Caipora? – a voz de Saci agora soava mais grave e era escutada por todos. – Você mesmo disse que Tupã se enfraqueceu porque as pessoas não acreditavam mais nele. Agora me diga: você sabe quantos seguidores eu tenho na política? Tem ideia de quanta energia de adoração eu acumulei somando as das lendas com as do meu público? Sou muito mais forte do que vocês jamais serão. Aprendi com os humanos que quando se tem boa reputação, se tem tudo. Se vocês se dedicassem um pouco mais a estudá-los ao invés de querer aniquilá-los.

Caipora tentou responder, mas os ventos eram tão fortes que qualquer coisa que falasse soaria inaudível. Iara ainda observava do seu riacho, segurando-se nas pedras, uma vez que a correnteza também fora afetada.

– Será que ficaram tão cegos que não enxergaram o óbvio? Iara sempre odiou Tupã – Saci apontou para a sereia escondida na água. – Sempre quis vingança de quando ele a ordenou que parasse de seduzir e se alimentar dos mortais. A “cura” que ela trouxe só terminou de matá-lo.

            Assustada, Iara terminou de se afundar no rio para escapar, mas as fortes rajadas de vendo criaram um redemoinho no rio, elevando a água, como as trombas d’água, muito comuns no mar. A sereia ficou presa no funil de água, que a levou para fora do riacho e a jogou no chão, sob os deuses.

Ela imediatamente acionou sua magia e sua longa calda de peixe se transformou em pernas e estava pronta para se defender, mas tanto os curupiras como os lobisomens apontaram suas armas para ela. Os ventos ficaram mais fracos e o tornado foi diminuindo até se formar o clássico redemoinho, por onde Saci flutuava, uma vez que agora era impossível ficar de pé.

– Confesse, Iara – gritou Saci.

– Eu não sei do que está falando. Eu só queria ajudar.

– Por que você me procurou?

– Porque, ao contrário deles, eu sabia que você estava mais forte do que todos. Que acabaria sendo um candidato para liderança. Queria ficar do seu lado desde o começo – virou-se para a multidão. – Quantos aqui não votariam nele?

Houve murmúrios por toda a multidão.

– Eu votaria nele – disse um.

– Ouviram como a voz dele nos ventos? Ele quase soava como Tupã, falando pelos trovões. Eu voto no Saci – disse outro.

Aos poucos um coral começou a gritar o nome “Saci” com os punhos pra cima. Os curupiras e os lobisomens se uniram naquela causa. Até mesmo Guaraci começou a apoiar o novo candidato. Jaci e Caipora, no entanto, continuavam emburradas.

Sem dúvida, aquele menino crescera para se tornar um político… mas não na selva.

– Me desculpem – Saci começou seu discurso com tristeza na voz. – Não posso liderar vocês. Eu pertenço aos humanos agora. Jamais me encaixaria aqui outra vez – houve um breve silêncio. – Mas uma coisa eu preciso deixar claro: Tupã estava certo. A humanidade precisa seguir seu curso. Vocês não podem interferir. Se vocês tentarem alguma coisa, o caos vai se instalar. Pro mundo, vocês não existem. Se aparecerem do nada, eles vão agir como animais assustados. Muito sangue místico vai ser derramado, muito mais do que foi hoje. Independente de quem vocês escolham como líder, tenham em mente tudo o que eu disse aqui.

Em seu pequeno redemoinho, Saci foi embora da mata para nunca mais voltar.

Algumas semanas no hospital o fizeram sarar sua perna. Outra prótese foi feita sob medida rapidamente, essas coisas eram rápidas para as pessoas importantes.

Em uma noite nublada, Saci descansava em seu apartamento, fumando seu charuto cubano quando recebeu uma ilustre visita. Trovões eram ouvidos de longe enquanto Jorge Paes, o presidente do partido, entrava em seu apartamento.

– Você cuidou muito bem da situação – disse Jorge enquanto se servia um copo de uísque. – Iara foi condenada, Jaci e Caipora sossegaram por enquanto. Tudo sob controle.

– Você não sente nenhum pouco de remorso por condenar Iara injustamente?

– Ela sempre me odiou. Uma hora ou outra seria ela quem me daria o bote.

– E em quanto a enganar todos eles, fingir sua morte para tantos entes que te amavam?

– Você é o mestre das trapaças, por que se importa?

– Não sei, eu só…

– Você se cansou de ser o Saci assim como eu me cansei de ser o Tupã muitos anos atrás. Eu lhe ensinei a combinar as duas energias vindas de adoração e lhe dei a melhor vida que poderia imaginar. Acha mesmo que tem espaço para remorso nisso tudo?

Após pensar um pouco, Saci, ou Samuel, disse:

– Não. Eu estou muito bem assim.

– É assim que se fala. Agora precisamos ver as campanhas de reeleição.

Após terminarem sua reunião, Samuel ficou novamente sozinho com seu charuto. Por um instante, teve saudades do cachimbo. Pensou na Caipora e nos seus antigos amigos.

– Você estava certa, Caipora – ele disse enquanto olhava os prédios lá fora. – Uma selva de pedra ainda é uma selva. E a lei da selva é que a gente sobrevive como pode, não é? Temos sempre que nos adaptar, não importa o custo.

Era uma mistura de sentimentos: o remorso pelos entes místicos e a vontade de continuar vivendo a vida que conquistara. Ele deixou tudo de lado e se serviu do mesmo uísque e pediu ao seu motorista particular que o levasse para jantar em um restaurante caríssimo.

Caipora estava certa sobre o Saci ter sido corrompido pelos humanos. O que ela não sabia, porém, era que ele havia se tornado muito mais humano do que ela poderia imaginar.

 

 

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