Who Run The World?

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Beyoncé – Run the World (Girls) x

Por Raven Ives

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Era uma semana quente e seca de outubro. Primavera sim, mas, tratando-se do Rio de Janeiro, a única estação existente era o Verão e olhe lá. O poente dava os seus primeiros sinais, pintando o céu com tons de laranja e lilás, quando duas normalistas deixavam a escola para trás, acenando para as outras amigas enquanto rumavam para suas respectivas casas. Ambas nutriam essa amizade desde muito pequenas, já que eram vizinhas. Estudaram juntas do ensino infantil ao fundamental, e não foi diferente quando resolveram continuar essa união durante o ensino médio.

Desde pequenas queriam se tornar normalistas. Maria Clara sempre desejou seguir a carreira no magistério; a profissão de professora a encantava. Já Manoela sempre quis usar aquela típica saia azul escura e as meias 3/4. Cada qual com seus objetivos, concordavam que não aguentavam mais a escola. Queriam começar a trabalhar e ganhar seu próprio dinheiro, faculdade quem sabe, mas independência em primeiro lugar.

Já no último ano, as duas já sentiam falta da diversão, quando tudo é mais fácil e menos corrido, com exceção de uma coisa: o assédio. Seus uniformes as transformavam em objeto de desejo de incontáveis homens. Elas não tinham nada contra fetiche, e Manoela até se aproveitava de tal imagem com seu namorado. Mas entre quatro paredes, com alguém que gostava e a respeitava, não com desconhecidos repugnantes.

Poderiam mentir e dizer que já estavam acostumadas; que pouco se importavam com as cantadas asquerosas que recebiam, mas não. Cada vez que ouviam algo do tipo, a vontade imediata era de revidar à altura, porém, sabendo que isso iria gerar mais problemas, apenas ruborizavam e fingiam que não era com elas.

Evitavam sempre passar por locais cheios de homens, mas os assovios podiam ser ouvidos do outro lado da rua, e os que passavam de carro até diminuíam a velocidade para assediá-las. O pior de tudo era o fato de não terem apoio de outros, incluindo os próprios familiares: “Não olhe para eles, assim não dão motivos. Nem mesmo diga algo.” ou “Também, olha o tamanho dessa saia. Esperava o quê?” Como se o tamanho de suas roupas fosse um convite aberto ao desrespeito.

Era comum ouvirem casos de amigas que passavam pelos mesmos problemas, chegando, inclusive, em casos extremos, onde os homens as assediavam fisicamente. Manoela e Maria Clara se arrepiavam só de imaginar tal possibilidade, mesmo sendo algo nada distante de sua realidade.

— O que ‘cê tá fazendo? — perguntou Manoela, enquanto Maria Clara colocava os fones de ouvido sem fio, que ganhara recentemente.

— Me preparando para não ouvir nenhuma merda vinda daqueles otários.

De fato, estavam se aproximando de um bar nas proximidades da escola, onde sempre tinha alguém desafinado cantando alguma música brega no karaokê. A maioria dos homens costumava mirar as meninas com seus olhares injetados, caídos, e desejosos. Outros, além de olhar, falavam gracejos como se “novinha gostosa” e “bunduda” fossem puro galanteio cavalheiresco.

Mesmo com os fones de ouvido transmitindo sua música “Girl Power” preferida — Run The World —, Maria Clara se sentiu acanhada pela aproximação inevitável. “Ai, minha Santa Beyoncé, me ajuda” pensou ao notar o primeiro olhar. Salvo os dias que percorriam o caminho mais longo, eram obrigadas a passarem por aquela mesma situação. Até sentiam falta dos anos em que seus pais a levavam e buscavam da escola. Ou melhor, sentiam falta da sensação de proteção.

Manoela, ao seu lado, apressou o passo e a amiga a acompanhou. Segurava-se à alça da mochila como se esta fosse capaz de protegê-la de tudo e todos. “É o último ano” pensou, tentando sentir a mínima ponta de conforto que precisava, para enfrentar mais um dia sem mandá-los para o inferno.

Mesmo tentando ater-se ao som da música, Maria Clara se mantinha alerta a qualquer ameaça. Às vezes acreditava que preocupava-se demais; maldava demais, via sinais onde nada existia, mas não daquela vez.

Ela viu quando dois rapazes levantaram de suas cadeiras, um segurando uma garrafa de cerveja, e começaram a acompanhá-las. Não eram muito altos, nem muito fortes, mas isso não importava. Deviam ter a idade de seu irmão mais velho, que beirava os 25.

Tinha certeza que ambos as seguiam. Infelizmente, nos arredores não havia nenhum estabelecimento além do bar, logo, não podiam pedir ajuda. Era provável que os homens do bar fossem incentivar, e as pessoas das casas ignorassem.

Na mente das meninas, aquilo não podia estar acontecendo. Sempre ouviram relatos de outras colegas de classe, até mesmo na internet, mas nunca esperaram — realmente — que algo do tipo fosse acontecer com elas. Torceram por dentro para que tudo não passasse de um mal entendido, que logo os dois rapazes passariam por ambas, diriam alguma gracinha, mas continuariam seu caminho sem que nada mais invasivo acontecesse. Torceram até que a primeira cantada foi proferida.

Manoela chegou mais perto da amiga, e enlaçou seu braço ao dela. Suas mãos suavam frio.

— Clara… — murmurou, e tudo que Maria ouviu em seu tom de voz foi o apelo amedrontado.

— Calma, vai dar tudo certo.

Mas como podia pedir calma quando seu coração estava disparado, sua respiração acelerada, e com os músculos tão retesados que mal conseguia se locomover? Correr era uma opção, só não sabia até que ponto seus perseguidores estavam alcoolizados. Seria muito provável que eles as alcançassem. Ainda assim, parecia a única opção viável a fim de evitar um enfrentamento.

As cantadas continuaram e Maria Clara sabia que aumentar o volume da música não adiantaria de nada. Seria o mesmo que tentar encobrir um problema com uma desculpa; a falta de respeito com uma saia curta.

— Essas daí são tudo puta — ralhou um deles, alto o suficiente para que ambas ouvissem, já que os gracejos não estavam funcionando. — Andam com umas sainhas dessas e fingem que querem respeito.

Disrespect us? No they won’t”, a voz da cantora parecia transmitir a mensagem que faltava. O impulso, o empurrãozinho necessário para que Maria Clara desse um basta naquilo, independentemente do que isso acarretaria.

Poderia correr, sim, mas já estava cansada disso, cansada de homens como aqueles, de atitudes como aquelas. Cansada.

— Liga pra polícia, Manu — disse à amiga, pouco antes de um dos assediadores segurá-la pelo braço e puxá-la.

De repente, toda aquela adrenalina correndo por suas veias exigiu outra resposta além de medo. Algo que sempre quis fazer, uma vontade que sempre reprimiu e tornou-se insuportável ao ver sua amiga sendo vítima de tal agressão. O rapaz que a segurava nem viu de onde o chute — que o acertou no peito — veio, mas o sentiu… com força. Ele foi jogado para trás, soltando Manoela, e batendo com as costas contra o muro de chapisco.

Maria Clara não pretendia dar-lhe tempo para que se recuperasse, então, girando sobre o pé esquerdo, desferiu o segundo golpe; atingindo o calcanhar direito na lateral da cabeça do agressor, fazendo-o cair de bunda no chão, completamente aturdido.

Tentara evitar aquela situação a todo custo, pois aprendera — desde que começara a praticar luta, aos sete anos — que a violência nunca era resposta, ainda mais como forma de revidar; gerando sempre um círculo vicioso. Não, violência não era a resposta em muitos casos, mas naquele, em especial, precisava ser visto como uma intervenção altamente necessária.

Pela visão periférica, notou a aproximação do outro, desviando por pouco do soco que a acertaria na têmpora. Ele não parou, com seus movimentos displicentes, tentando — agora — atingi-la com a garrafa de cerveja. Clara desviou dos golpes até achar o momento certo de girar o quadril e calcanhar, e acertar um chute na mão do rapaz, fazendo a garrafa voar e espatifar-se no chão. Seu gemido de dor passou despercebido, enquanto ela o apanhava pela mão, torcendo-a para dentro — deixando-o com a palma para cima em posição bastante desconfortável e submissa à sua vontade — e forçando o punho para frente. Dessa vez, seu lamento foi substituído pela dor na articulação afetada.

Seu peito estava inclinado para frente, joelhos semiflexionados e cabeça quase indo de encontro ao chão. O semblante de dor era quase fascinante. Clara o atingiu três vezes na barriga, abaixou a perna e, sem botar o pé no chão, voltou pelas costas dele — passando-a por cima da cabeça — e, encaixando o dorso em seu pescoço, levou-o ao chão. O rapaz caiu de lado, e ela torceu seu punho para fora, obrigando-o a ficar com a face na calçada.

— Quem é a puta agora, seu merda?

E antes que ele sequer esboçasse alguma reação, com a planta do pé direito, atingiu a articulação de seu cotovelo. Não havia mais nada a ser feito.

Maria Clara o largou urrando de dor, com o braço quebrado, e se afastou. O outro ainda estava sentado, entre o desperto e adormecido, já Manoela tinha o celular em mãos e uma expressão abobalhada. Ela não tinha ligado para ninguém, pois estava ocupada demais filmando tudo.

Só então permitiu-se olhar em volta, encontrando olhares surpresos dos moradores e frequentadores do bar — esperando que esses nunca mais se atrevessem a mexer com outra garota. Chegou a ouvir, de longe, alguém dizer que já tinha chamado a polícia, mas, naquele instante, a única coisa em sua mente era — na verdade — uma pergunta de resposta muito simples: Who run the world?

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Who run the world?: Quem manda no mundo?

Disrespect us? No they won’t: Nos desrespeitar? Não, eles não irão

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