Odvar – Olho de Polvo

odvar

Da união incomum entre um nórdico e uma cristã nasceram cinco filhos. As duas primeiras crianças vieram ao mundo juntas, uma agarrada à outra, como deve ser o laço entre irmãos. Nasceram nas praias negras das ilhas Oakney, como é o costume dos nativos do Mar do Norte desde o início dos tempos. O nascer do sol anunciou a chegada de Judith, que bradou aos céus numa fúria típica dos nascidos de Odin. Pouco tempo depois veio Odvar, seu gêmeo, em absoluto silêncio.

Cada um cresceu à sua maneira, um diferente do outro, mas sempre muito ligados. Judith era esperta, boa com as palavras e melhor ainda com as espadas. Odvar preferia o silêncio e o isolamento de seu quarto. Ao contrário da irmã que sempre fora bela e esguia, Odvar tinha uma aparência que gerava estranhamento, e em alguns casos desconforto. As pupilas eram retangulares, como as de um polvo, semelhança que lhe rendeu um apelido logo cedo. “Olho de Polvo” era como o chamavam, mas as comparações com o estranho animal continuavam. Suas mãos eram flácidas e flexíveis, com a pele rugosa e grudenta nas palmas. Em cada mão possuía cinco dedos longos e ágeis, que apertavam com uma força sobre-humana e podiam se moldar de mil maneiras distintas, serpentes sob o seu comando. Porém, o que mais chamava atenção nas mãos do pequeno Odvar era o seu poder de regeneração. Numa das poucas vezes em que saiu de seu quarto durante a infância foi atacado por um Leão-Marinho. O resultado foi a perda de três dedos da mão esquerda, que brotaram dos tocos decepados pouco mais de uma semana depois, como se fossem sementes jogadas em terra fértil.

Outras características tornavam o pequeno Odvar único. Ele chegava a suar tinta em momentos de estresse e sua pele já chegou a mudar de cor em algumas situações. Era diferente dos seres humanos comuns em todos os aspectos. Muitos dizem que ele foi castigado pelos deuses por ter sido fruto de ventre cristão, mas eu penso o contrário. São dons que poucos podem se gabar de ter.

A inteligência de Odvar também beirava o incomum. Seus olhos viam melhor do que qualquer pessoa e sua mente era rápida como uma flecha. Enfurnado em seu quarto, escreveu diversos tratados sobre a natureza da luz, das marés e sobre astronomia. Sua mãe usava os contatos que tinha na cristandade para lhe dar todos os livros que precisava, e por vezes padres irlandeses e francos vieram visitá-lo tamanha a curiosidade que ele gerava. Além do nórdico ele falava o saxão de sua mãe, o franco, o irlandês dos padres e o latim dos livros, um verdadeiro estrondo. Mas o sucesso também foi sua ruína. Desde cedo Odvar apresentou problemas de sociabilidade, sentindo-se extremamente incomodado entre aglomerações. O barulho e os olhares desconfiados o afetavam e não era raro que tivesse alterações de humor ou até mesmo explosões de fúria nesses ambientes. A única pessoa que o acalmava era Judith, porém o talento da irmã para a navegação o deixou mais solitário do que já era. Para cada hora que a irmã passava no mar Odvar passava três seu quarto, pintando. Seu dom para artes era esplêndido, e o fundo do mar era seu tema predileto. Paisagens que imitavam a visão humana, distorcidas, pontilhadas ou de aspecto sobrenatural decoravam o seu quarto e logo precisaram ocupar também outros lugares. A precisão de seu trabalho era tanta que parecia que Odvar visitava o fundo do mar com muita frequência. Pelo dizem as lendas isso bem pode ser verdade, já que os nórdicos deste canto do mundo se gabam de suas habilidades em alto-mar.

Se isso é verdade ou não só o tempo dirá, mas também não é uma história totalmente descabida. Todos sabem a quem pertenceu o nome Odvar pela primeira vez, e se o jovem aqui citado apresentar pelo menos um décimo do potencial do tataravô, com toda certeza, será um dos maiores homens de nosso tempo.

Frei Cerdwick, ano 896 do Nosso Senhor. 

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