Selvas de pedra ainda são selvas (Pt.1)

selvas

Por Alex Brehan

A orquestra começou a tocar. Era uma festa de gala, com todos os convidados bem vestidos, de terno e vestido. Uma noite calorosa em São Paulo, especial para aqueles empresários e políticos reunidos em uma enorme cobertura. Estavam comemorando um novo projeto que encheria muitos bolsos corruptos, mas que a mídia faria com que a população acreditasse que era para o bem maior.

Samuel já tivera outro nome, outra vida que ele preferia esquecer. Hoje, ele era um deputado federal querido por muitos de seus eleitores. Ele não era muito alto, tinha a pele negra e o cabelo curto. Um cavanhaque despontava acima da gravata vermelha, que embelezava o terno preto. Ele caminhava sem dificuldades e ninguém percebia que sua perna esquerda não passava de uma prótese caríssima.

Várias pessoas o bajularam naquela noite, querendo um pouco de sua atenção. Mas ele não ligava para eles. Tinha uma missão ao estar ali. Uma missão dada pelo presidente do partido. Ele sabia que ela apareceria a qualquer momento.

Então ela apareceu em meio aos convidados grã-finos: uma mulher de cabelos negros que cascateavam nas costas desnudas por um longo vestido azul. Ela segurava uma taça de champanhe enquanto Samuel caminhava até ela.

– Você está andando muito bem – disse ela ao notar que ele se aproximava. – Será que consegue dançar?

– E você, Iara? Será que consegue dançar com essas pernas mágicas? Uma das minhas pernas é verdadeira pelo menos.

– Você já foi mais engraçado, Saci.

– Dá pra não falar esse nome alto? – sussurrou após olhar para os lados. – Afinal, por que está aqui?

– Estou viajando para os rios do sul, em busca de uma cura.

– Cura?

– Você não soube? Tupã está morrendo.

– Tupã? Achei que deuses fossem imortais.

– Deuses pagãos não. São como nós, imortais até que algo os mate – ela silenciou por alguns segundos e continuou. – Eu resolvi te encontrar de uma forma que não chamasse atenção. Vim aqui te avisar. Eles virão atrás de você.

– Eles quem…? Ok, já imagino quem sejam. Mas por quê?

– Porque você é uma entidade que desertou e vive entre os humanos agora. Você sabe que muitos queriam acabar com os humanos porque eles estão destruindo a natureza, mas Tupã nunca deixou. Se ele morrer…

– Ele não vai morrer. Duvido que algo seja capaz de matá-lo. E se você diz que é capaz de encontrar uma cura…

– Sim. Claro… – ela hesitou. – Bom, independente do que acontecer, nunca se esqueça de que eu sempre estive do seu lado.

– No quê?

– Em escolher o que fazer da própria vida. Ser livre para viver como um humano.

– Achei que humanos fossem alimento pra você.

– Tenho uma nova dieta.

– Eu sei. Faz muito tempo que Tupã a obrigou a parar de seduzir homens na praia pra depois devorá-los. Achei que você quisesse vingança.

– O que está no passado vai ficar no passado. De qualquer forma, está dado o recado. E nunca se esqueça: sempre estive do seu lado. Divirta-se na sua festa – e ela saiu da cobertura de volta à sua jornada.

Saci, ou Samuel como agora preferia ser chamado, ficou pensativo até que outro bajulador político começou a alugar o seu tempo.

As semanas seguintes foram de muito trabalho nas futuras campanhas de reeleição. Os incontáveis anos de travessuras nas fazendas lhe ensinaram bem como trapacear em qualquer lugar, inclusive no cenário político brasileiro. Ele conseguia esconder toda a sujeira embaixo do tapete e o público o adorava. A reeleição era certa.

Muita coisa ele aprendeu com o presidente do partido, que era seu mestre na política e em outras ciências não convencionais.

Certa noite, após uma reunião com o partido, Samuel apreciava seu charuto na sala de seu apartamento, na metrópole de São Paulo.

– Trocou o cachimbo por um charuto cubano? – uma mulher de pele avermelhada estava empoleirada na janela, como se viesse de fora do prédio. Vestia roupas indígenas em um corpo atlético como de alguém que fazia acrobacias de galhos em galhos na mata. Havia tatuagens coloridas por todo o corpo e a cabeleira vermelha era bem volumosa, quase escondendo as orelhas pontudas. – E o gorro vermelho virou uma gravata. Você ficou tão sem graça. Vai me dizer que abandonou o redemoinho também?

– Caipora? Era só o que me faltava… Você escalou até o trigésimo andar?

– São Paulo é uma selva de pedra, mas ainda assim, uma selva. A lei da selva é sobreviver e se adaptar – disse ela já caminhando pela sala.

– Já é a segunda vez que um de vocês me procura. E sim, eu nunca mais usei o redemoinho… Tupã está bem?

– Ah, então você já estava ciente e nem se preocupou em nos visitar. Bom, se interessa saber, ele morreu.

Saci pareceu tenso com a notícia, esperava que de alguma forma, o grande deus tupiniquim superasse a enfermidade e continuasse a reinar nas florestas pela eternidade.

– Como isso aconteceu?

– Olhe o mundo à sua volta. Alguém acredita nos deuses indígenas? Todo o poder que eles acumularam pelos séculos de adoração está se esvaindo. Eu e você estamos melhores do que eles porque ainda falam de nós pelas cidades do interior. Mas os deuses estão cada vez mais esquecidos e fracos.

– Na verdade… – Saci tinha algo a acrescentar, mas julgou que não era o melhor momento. – Enfim, você ainda não me disse por que está aqui.

– Eles estão se reunindo, todos os deuses brasileiros. Fracos e tristes, mas ainda vão se reunir para votar em quem será o próximo líder. Nós, as entidades folclóricas, também temos direito de voto. E todos querem a sua presença.

– Porque eu desertei e me tornei um humano e posso representar os dois lados.

– É, isso mesmo. Como sabe? – Caipora estava confusa.

– Foi só um palpite – disfarçou. – Olha, eu estou feliz com minha vida como humano. Não quero me envolver com assuntos místicos das florestas.

– Foi o que eu disse para eles, o Saci morreu. Um humano engravatado nasceu e tomou seu lugar.

– Eu não diria que morri, só mudei. Como você mesmo disse, troquei o cachimbo por um charuto. Mas ainda prego peças por aí, engano milhares de eleitores todos os dias. Sou o mesmo trapaceiro místico de sempre.

– Ah, me desculpe, “Sr. Loki Brasileiro” – fez uma falsa reverência.

– O que importa é que aprecio a vida que vivo agora e farei qualquer coisa para protegê-la.

– É por isso que você deveria vir comigo.

Saci não conseguiu esconder a confusão.

– Você lembra a posição de Tupã sobre os humanos destruírem a natureza? – continuou Caipora.

– Ele sempre achou que a humanidade deveria seguir seu curso, que eles aprenderiam com os próprios erros e que não deveríamos interferir

– Exato. Mas nem todos compartilham esses ideais. Os candidatos a novo líder são Guaraci e Jaci.

– O Sol e a Lua são oponentes, que irônico – Saci riu.

– Talvez. O problema é que Guaraci quer continuar as mesmas regras de Tupã. Enquanto Jaci quer que os humanos parem de destruir nossas florestas. Ela está preparada para uma guerra. Já convocou todos os curupiras e várias criaturas místicas. Guaraci convocou os lobisomens para defender os humanos, mas o exercito dele é um numero muito menor. Você entende a crise que estamos vivendo?

– E você? De que lado está?

– Eu só quero que os entes místicos não briguem entre si. Você é o único que viveu os dois lados. Vão dar ouvidos a você.

Saci galgou até um grande espelho na parede, ajeitando sua gravata vermelha. Vendo o eterno menino folclórico que se tornou um homem importante. Era muita conquista para se deixar para trás só por um jogo de interesses de criaturas sobrenaturais. Ele deu um longo suspiro e tomou sua decisão.

Continua…

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