Está com Você

Está com Você.jpgPor Raven Ives

“Correndo através do estacionamento

Ele me perseguiu e não parava

Peguei, está com você

“Tag, You’re It”, da Melanie Martinez

As sacolas de compra pesavam ao ponto de deixar marcas nas mãos delicadas da menina, que atravessava o estacionamento quase vazio do supermercado. A garoa que umedecia seu casaco vermelho mantinha os moradores em casa, onde ela gostaria de estar com uma xícara de chocolate quente, mas precisara comprar os ingredientes que faltavam em sua despensa para fazer os biscoitos que sua avó tanto gostava.

Acabou parando um instante e colocou as sacolas no chão para ajustar as alças de plástico sobre o tecido das mangas, evitando boa parte do incômodo. Enquanto o fazia, notou o carro parado a alguns metros de distância; o som do motor chegava aos seus ouvidos sem dificuldade, dado o silêncio que pairava sobre o local. Os vidros fumês a impediam de enxergar quem, segundo sua intuição, observava-a do banco do motorista. A sensação incômoda aumentou ao lembrar que o veículo estava ali desde que chegara para fazer as compras.

A jovem desviou o olhar, puxando o capuz para cima e o colocando com cuidado sobre os cabelos longos, que pareciam mais rebeldes que o normal naquela tarde. Os passos se tornaram mais apressados, porém não o suficiente para criar uma boa margem de segurança do carro que começou a segui-la. Olhou rápido para trás, vendo uma mancha preta se aproximar soltando uma fumaça escura pelo cano de descarga. O coração também acelerou e sua mente gritava, implorando para que corresse. Quando deu por si, corria para longe do supermercado, sabendo que se voltasse não conseguiria adentrá-lo a tempo.

As sacolas escaparam de suas mãos e o retinir melódico das garrafas de vidro se chocando com o chão logo ficou para trás, junto com a poça de leite que se espalhou quando os pneus da caminhonete passaram por cima. A menina era uma boa corredora, mas não podia competir com o carro. No momento de desespero, ignorou suas limitações e fez o melhor que pôde. À medida que se afastava do supermercado, sentiu-se ainda mais sozinha. Não havia ninguém a quem pudesse recorrer em busca de ajuda; janelas e portas fechadas, pessoas trancadas em casa num dia frio de inverno. Era onde eu deveria estar, pensou por um instante, agindo por instinto ao desviar do caminho usual para seguir em direção às árvores que orlavam a calçada contrária. Sua mãe, em vida, sempre pedia para que a filha não cortasse caminho por ali, mas a jovem nunca ouvia e isso mudaria em tal instância.

Escutou o carro frear de maneira brusca, embora sua atenção estivesse em desviar dos galhos e troncos de árvores ao redor. Aquela floresta havia se tornado uma segunda casa desde a infância, por isso conhecia cada canto com primazia. O som seguinte foi o da porta do carro sendo fechada com violência. A menina não sabia como a pessoa era, se era um corredor ágil ou não. Talvez tivesse uma arma em punho e quisesse “brincar” um pouco de pique-pega antes de concretizar suas intenções ferais.

Seu coração trovejava no peito aflito, com o suor escorrendo pelo rosto contorcido de medo. Sabia que estava chegando ao centro da floresta, mas não se permitiu esperanças. Arriscou um olhar para trás — o capuz do casaco caindo nas costas —, o que foi um erro, pois não viu o tronco coberto de musgo à sua frente. A queda se deu em câmera lenta e sua testa atingiu o chão, deixando-a tonta por tempo suficiente para que as passadas estranhas se aproximassem. Por um instante pensou que a respiração pesada que ouvia saísse de sua boca e nariz, porém não tardou a sentir o hálito morno em seus cabelos.

Apesar de a terra cobrir boa parte do rosto da menina, pôde sentir o odor de suor que o homem exalava. Os dedos que tocaram sua bochecha eram grandes e grossos, com as unhas roídas. Quando os viu se aproximar dos seus lábios, abocanhou-os até provar o gosto de sangue se espalhar pela boca ressecada. O ruído guinchado que escutou precedeu o chute violento em sua barriga, fazendo-a soltá-lo. O ar parecia inexistente e mal sentiu a mão simiesca se embrenhar em seus cabelos, puxando-a com estupidez até ficar em pé. A visão turvada fazia de seu agressor uma figura disforme que eclipsava todo o resto.

— Não há som mais bonito que o do arquejar de uma vadiazinha como você. — Seus ouvidos captaram as palavras como se estivessem submersos em água.

A menina acabou engolindo o sangue, deixando um rastro metálico em sua língua que fez sua mente despertar do entorpecimento. Então gritou por ajuda, mas a única resposta foi a risada do agressor, que passou a língua áspera do pescoço da garota até a orelha, roubando-lhe as palavras. Seu corpo se agigantou sobre o dela, imprensando-a contra uma árvore.

— Te peguei. Tá com você — sussurrou antes de jogá-la no chão.

O som da fivela do cinto batendo no chão foi seguido pelo o que homem assumiu como o choro convulsivo da menina. Isso o excitava tanto quanto a escolha da vítima e a perseguição; tudo parte de um ritual que cometia há quase uma década, indo de cidade em cidade e escolhendo sempre as melhores meninas que botava os olhos. A que estava a sua frente oferecera pouco problema, muito solitária e desatenta. Ela implorou por isso, pensou ele, aproximando-se e levando a mão ao cós da calça, dando-se conta de que sua faca não estava ali; um objeto imprescindível, pois gostava de colocá-la sobre a pele fina do pescoço das meninas enquanto cometia o abuso.

Virando-se, encontrou-a a menos de um metro. Ao se abaixar para pegá-la, notou que o choro da vítima havia se transformado em uma risada. Franzindo o cenho, olhou por cima do ombro para se deparar com a menina a alguns centímetros de distância, em pé. Surpreso por não a ter escutado se mover, levantou-se com a mão firme ao redor do cabo da faca, mas algo no semblante da jovem o fez estacar como as árvores que os rodeavam.

O riso cessou, dando lugar a um sorriso que mostrou a língua passando pelos dentes pontiagudos que não estavam ali antes. Ela o olhou dos pés à cabeça, vendo com contentamento quando a ponta da faca cravou na terra, ao lado do agressor; um divertimento impagável em ver o caçador se tornar a caça. Ele a encarava sem conseguir expressar uma reação em relação ao que via, arfando ao ver às íris da menina, antes purpúreas, ganharem um tom de vermelho vivo.

— Tudo bem — disse ela, tirando o casaco e o jogando de lado enquanto sua compleição se tornava mais forte e as unhas, maiores, como garras —, tá comigo.

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