Fábula do Desconhecido

kaebel

Caminhando pelo desconhecido palácio deparei-me ao acaso com o que me pareceu ser um homem, a julgar pela altura e largura de ombros. Estava distante demais para que ouvisse minha voz, mas perto o suficiente para que meus olhares lançassem primeiras impressões.
Uma túnica negra era tudo o que vestia. Sua barra chegava a varrer o solo e as mangas largas desciam para além da linha dos pulsos e ambas as mãos pareciam estar enluvadas em metal. Numa delas segurava um cajado de madeira, maior que sua própria altura, que já era notável. Na cabeça um capuz lhe cobria quase todo o rosto, mergulhando sua identidade na escuridão.
Me aproximei a passos firmes, para lhe transmitir confiança, que importunamente me faltava. De perto, porém, a situação não era muito diferente da anterior. Mesmo sob a luz seu rosto permanecia invisível para mim, escondido atrás de uma robusta máscara de ferro, moldada em expressão solene, apenas com tímidas aberturas para que seus olhos encontrassem ou meus. Estremeci.
Se a intenção daquele misterioso ser era passar despercebido falhou miseravelmente, mas se quisesse apenas esconder sua identidade eu poderia dizer que teve êxito, exceto por um detalhe. Ele fedia.
E não era um fedor qualquer, provocado pelo suor do trabalho, a sujeira das roupas ou o desafeto ao banho, nem mesmo aquele era o fedor de um doente ou ainda o cheiro desagradável de excrementos. O homem fedia como um cadáver e, pelo tanto que posso dizer dos meus dias de guerra, aquele cheiro era de carne humana, há muito apodrecida.
Passei então a notá-lo com mais atenção. Ele se movia com uma suavidade temperada de exagerada tensão, como se temesse que partes de si rolassem pelo mármore do palácio. No rastro de seus passos sangue espesso se misturava a vermes gordos pela abundância de alimento. O cajado certamente lhe servia de apoio, já que as pernas careciam da força que só a vitalidade pode trazer. Quando ele ergueu o braço num movimento penoso sua manga escorregou até a altura do cotovelo, revelando a verdadeira natureza de sua carne, pútrida e esmigalhada, unida à força por suturas imundas e tiras de couro. Por todos os deuses do céu e da terra, aquele homem estava morto, e andando.
Com passos arrastados ele se aproximou o suficiente para que eu quisesse virar o rosto e vomitar. Me contive e tive que engolir o desagradável fruto de meu asco. O estranho se manteve em silêncio, talvez preferindo deixar suas emoções reclusas dentro do metal de sua máscara. Seu olhar não demonstrava nada, nem medo, nem angústia, nem piedade.
“Seja bem-vindo”, ele disse, com a voz rouca, desgastada e abafada pela máscara que lhe escondia os lábios. Exceto pela voz tudo nele era silêncio, não havia o pulsar de um coração e nem sequer respiração, mesmo assim eu não sentia medo. O desconforto inicial causado pelas primeiras impressões fugira de mim sem eu me dar conta. Onde antes reinava o medo nascia a esperança. Sem aviso prévio ele se retirou e eu, sem pedir permissão, o segui…

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s