Enquanto você viver…

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Por Lillithy Orleander

“When it’s time to die
You can cry your heart out
When you’re lying face down
The cards they never lie,
Don’t tell me that you’re sorry
Cause no one else is sorrier than me…” ¹

De um lado a cabeça balançava desacordada, enquanto ela olhava com o rosto infantil manchado de sangue.

O chão agora recebia em jatos menores os últimos respingos do líquido rubro que saia de dois furos meticulosos que saiam da altura dos pulmões, as mãos ainda amarradas, estavam roxas, como se começassem a gangrenar.

Nos lindos olhos azuis, límpidos como o céu no meio da tarde, não parecia haver culpa. Ele era só mais um no meio de tantos…

Era assim que ela os via.

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Nayra observava o rapaz a meses sem se preocupar em ser  notada, mas também vigiava Meire, e infelizmente ela sabia por que, afinal era por esse motivo que acompanhava Willian.

Nunca existiu nada mais difícil do que ele, mas também não haverá nada mais prazeroso de se conquistar..” – pensava a moça de cabelo negros atrás do balcão enquanto secava o copo olhando o rapaz de óculos que estava absorto no que ouvia nos fones.

Ele olhava o copo de cerveja quase no fim, intensamente o fundo do mesmo, nunca parecia triste ou se sentindo culpado por algo, era apenas mais um solitário nesse mundo cão de Zé’s Ninguém.

Não se metia nas brigas que ali aconteciam, e nem puxava conversa com nenhuma moça que se aproximasse, mas também nunca apareceu com a namorada.

A camiseta que vestia devia ser da banda que ele cantarolava as músicas vez ou outra. Meire apenas analisava os detalhes, decorando – os meticulosamente, afinal era este o seu trabalho, estudar hábitos. Fazer tudo com perfeição, ela amava cada parte do processo.

Ainda se lembrava de quando o virá entrar no Irish’s Bar pela primeira vez, ela sabia que seria ele, assim como tinha certeza dos anteriores, ela sorriu, ele falava pouco, apenas o suficiente.

Foram meses vendo – o ficar por horas ali, sentar – se na mesma cadeira, em todas as Quintas – Feiras, pedir a mesma bebida, a “rotina da mesmice” como ela dizia, e revirava os olhos expressando tédio ao falar, mas ela gostava do som de sua voz e isso lhe garantiu um pouco mais de tempo, com isso vieram as conversas e apresentações fora do padrão.

Willian morava sozinho e Meire sorriu quando descobriu isso, Nayra apenas olhava rendida por saber que a outra havia conseguido uma valiosa informação, o que ela achou que fosse mais difícil de tirar, afinal haviam os dias de rabugice e mau humor que ele se quer respondia o “boa noite” da garçonete macabra.

“Homem sozinho, família longe…” – pensou para si.

Meire sentia – se vitoriosa e em sua mente planejava cada passo seguinte detalhadamente, o que usaria, poderia fazer e quando seria enquanto, ela tinha fome e estava ansiosa para tê – lo.

E talvez o dia tivesse chegado…

O batom vermelho manchava o filtro do cigarro com sabor mentolado quando ela o avistou entrando na pequena viela . Estava escuro  e as paredes altas não permitiam que nada nem ninguém a visse ali carros quase nunca passavam e quem talvez os visse não poderia identificar as sombras. Ela sabia que ele viria só, sempre soube, foram meses não?

O tecido de organza azul marinho rodopiou no ar, enquanto o scarpin preto apagava o que ainda existia do cigarro com precisão.

– Willian? – chamou a voz suave, que o fez se virar imediatamente, arrumando o óculos.

– Meire, é você? – disse ele apertando os olhos para enxergar melhor.

– Achei que nem ia se lembrar de mim. – respondeu ela sorrindo com inocência.

“Víbora! Está se aprontando para dar o bote.”– pensou Nayra, que odiava o tipo de jogo que seres como ela faziam.

– Essa lata velha que chamo de carro acabou de quebrar e não consigo achar o motivo e pra ajudar mais um pouco meu celular está sem bateria, sabe aquela tal de Lei de Murhpy? Pois é, resolveu me atacar hoje. Eu ia sair pra procurar ajuda e me aparece você.

Willian sorriu sem nada dizer e caminhou em direção ao carro, tirando a mochila das costas.

– Olha se for água eu moro aqui perto e você pode ir até lá comigo pra buscar, se não se importar.- respondeu ele solicito, olhando a garota de cima abaixo, desejando -a.

“Que merda, está acontecendo comigo?” – pensou ele desviando o olhar do corpo marcado pelo vestido.

Touché” – pensou Meire deixando um sorriso escapar pelo canto dos lábios. Estava feito, ela conseguirá o que viera buscar.

Nayra quis impedir, mas sabia como eram as leis que os regiam, não era seu trabalho. E ela também não lamentava, não tinha o dom de sentir.

Willian abriu o capô do carro e se abaixou para olhar, Meire o acompanhava, respirando lentamente ao seu lado, enquanto ele se quedava cada vez mais nervoso. Olhou para o lado e se perdeu nos lindos olhos, nada mais importava, a pele dela parecia se iluminar, o hálito que ela exalava o fazia imaginar coisas. Ele não podia… Não devia…

O que eu tenho que fazer mesmo?” – pensou perdido nos próprios devaneios, foi quando ela se aproximou mais, chamando seu nome como quem cantasse uma canção de ninar.

Os lábios… Os lábios dela são quentes, vermelhos – sangue…” – a mente lhe pregava peças e lhe fazia de escravo quando ela o beijou, sua mão alcançou a cintura bem definida enquanto a outra a apertava contra seu corpo, desesperadamente.

A dor… Veio rápida e lancinante, como se seus ossos fossem esmagados. O estômago revirava – se, querendo expelir algo para fora, mas era impossível, Willian agora se perguntava o que estava acontecendo, enquanto caia ao chão em posição fetal e desmaiando com tamanha dor.

Meire sorria um sorriso angelical, mas o olhar demoníaco entregava o que realmente ela tinha em mente.

A rua permanecia silenciosa e não havia se quer algum passante para inspirar á entrar naquela viela, Nayra assistia a tudo presa entre o tédio e o desanimo. Era só mais um dia, mais uma pessoa, mas pessoas como Willian eram incomodas, não por atrapalharem, não. Ela sabia bem por que, mas era a lei desde que o mundo era mundo e tudo foi criado.

Meire, carregou o rapaz para o carro como se ele fosse uma folha de papel, sem qualquer esforço, colocou – o deitado no banco de trás e arrumou a mexa de cabelo que havia saído do lugar, olhando – se no retrovisor.

O batom vermelho foi repassado  e o sorriso vitorioso invadiu – lhe a face.

O carro ganhou velocidade pelas ruas movimentadas que haviam próximo dali, mas ninguém parecia se importar com a pressa, a não ser Nayra que a seguia a distância pelo ar, silenciosa como a noite que agora fazia morada.

O pequeno casebre se encontrava no meio do nada, cercado por mato e uma estradinha de terra interditada á anos pela pouca visibilidade que ali havia, Meire sabia que não era esse o motivo.

As pessoas se perdiam, o medo fazia coisas e na calada da noite quando ninguém mais esperava, lá estava ela, espreitando, esperando o momento certo.

O rapaz ainda se encontrava desacordado, mesmo quando foi jogado do carro pra fora num pequeno descuido da moça, que xingou o ocorrido.

O primeiro cômodo do casebre cheirava a coisa velha, carne podre e ferrugem. Haviam coisas penduradas em fios para secar, partes vitais de pessoas anteriores, corações em potes de formol, alguns secos espetados em algum canto ou jogados  pelo chão como se fossem objetos descartáveis, mas os primores de sua “macabra coleção” eram os olhos…

De cores variadas, expostos sobre uma prateleira eles brilhavam dentro de vidros em formas retorcidas, a luz fantasmagórica lhes conferia um tom mais belo, pareciam ainda estar vivos.

Willian foi deitado sobre a maca de aço que havia no meio da sala, em tom azulado com pequenas nuvens desenhadas, a música suave atrás, conferia ao local tranquilidade fugindo do teor bizarro de primeiro cômodo.

O cheiro de jasmins não denunciavam a podridão do local, e nem mesmo as atrocidades que sua dona poderia cometer. Meire enfiava ganchos de açougueiro nos pulsos do rapaz para em seguida  sentar – se numa cadeira de balanço esperando que o rapaz acordasse, ela era paciente, umas horinhas á mais ou menos não iam atrapalhar em nada, afinal de contas agora faltava pouco.

Willian abriu os olhos e sentiu a cabeça rodar tinha algo errado ele só lembrava da dor e de Meire e do beijo, as mãos presas e o peito ofegante, o pavor tomando – lhe a face.

– Olá garotão. – ele não teve tempo se quer de gritar, o gosto metálico invadiu – lhe a boca e a língua foi arrancada sem muito esforço e jogada em pote de vidro de odor característico, ele urrou de dor.

As mãos presas  fecharam – se em punho, e sentiram o ferro frio ali enfiado, ele tentou gritar o mais alto que pode.

Meire sorria e de sua vítima já havia escolhido o que queria, os olhos aterrorizados.

A pinça invadia o glóbulo ocular fazendo com que o sangue vertesse aos borbotões, rubro, fazendo com que Meire saliva – se e lambesse – lhe face, sujando o queixo como uma criança.

– Saboroso, quente e doce! – dizia ela enquanto se dirigia para o segundo olho.

Willian não tinha mais como chorar, tentava a todo custo se debater, em vão, nada surtia efeito.

Sua urina banhava a mesa enquanto ela olhava as duas pequenas bolotas nas mãos como se fossem um tesouro perdido deslumbrada, foi ao primeiro cômodo e pegou o pequeno cutelo que ali havia, não queria mais nada daquele corpo pobre, corpo esse que nada mais podia lhe oferecer.

Puxou os grilhões enferrujados aos ganchos e ergueu o rapaz, a carne dos pulsos era fraca e rasgou – se, mantendo – o apenas naquela posição graças as fivelas que ali foram amarradas anteriormente.

Meire olhava diabolicamente enquanto cortava a pele sobre os músculos com a voracidade de um animal, o sangue de Willian, corria pela maca, rubro, enquanto a dor se apoderava dele sem ao menos lhe trazer a morte por consolo.

Nayra esperava do lado de fora, num misto de tédio e pesar, “ele tinha tudo para evitar…” – pensou ela para si.

Willian sentia cada pedaço seu ser destruído, ser dilacerado e o coração bater frenético, como se tentasse resistir de alguma forma.

Meire o olhou maliciosa e puxou o ser pulsante de dentro do peito, ainda ligado a átrios e ventrículos, e sorriu ao ver tal força.

– Tão quente, tão vivo e tão ocioso… – disse ela fazendo um muxoxo e arrancando o coração de Willian e mordendo – o animalescamente.

Willian deu seu último suspiro e seus pés agora davam os últimos espasmos, o corpo cedendo sobre a maca, Meire jogou um liquido de cheiro forte e acendeu o palito de fósforo.

Willian assistia pesaroso seu corpo material tornar – se uma massa disforme e de odor terrível, enquanto seu espírito transformava – me em cinzas sugadas pelo vão da pequena fresta que na parede havia.

– Por que? – ele perguntou deixando cair uma ínfima lágrima.

O corpo translucido de Nayra atravessou as paredes do cômodo, enquanto Meire começava a limpar – se .

– Por que você não possui alma. Teria sido tudo diferente. – disse ela olhando para o rapaz que agora era apenas um olho tristonho evaporando no ar.

– Nayra, como velhas amigas não? – disse Meire sem olhar pra névoa que atrás de si se dissolvia. – Veio buscar os restos, não é carniceira? – riu debochada.

A voz que sussurrou no cômodo suspirou tediosa…

– Em breve será tú, Meire… Em breve será tu…

O silêncio se fez presente, o corpo crepitando nas chamas, a Lua despedindo – se do céu, e a bela moça arrumando – se com esmero voltava a cidade…

FIM?

¹Dearly Departed – Adrenaline Mob
Quando for a hora de morrer
Você pode chorar o quanto quiser
enquanto você estiver deitado com a cara para baixo
As cartas nunca mentem, não me diga que você se lamenta.
Porque ninguém mais lamenta como eu…

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