Estrelas Frias (Pt. 2)

Alex Brehan

Primeira parte

Embora intrigados, os soldados acataram as ordens. A Lumus entrou em hipervelocidade até um ponto seguro e a capitã liderou o ataque em naves menores. Ninguém sabia dizer se a resistência era ruim ou se a equipe da Lumus era muito boa, mas a operação surpreendentemente foi mais fácil do que imaginaram. Quando Karen invadiu a cela de Artur, ele a olhou surpreso:

– Meu amor… – ele se levantou no intuito de abraçá-la, mas parou quando ela lhe apontou uma arma.

– Na primeira vez que eu e você olhamos constelação de estrelas azuis, o que foi que você me disse? – perguntou ela, nervosa. Houve silêncio. – Responda!

– Eu disse que, por mais quente que elas fossem, eu seria capaz de esfriar cada uma delas antes de deixar algo nos separar.

Ela abaixou a arma, com lágrimas escorrendo no rosto e o deixou abraçá-la, mas ela não correspondeu. Quando os soldados chegaram, Karen ordenou que prendessem seu antigo noivo. Ele não entendeu, mas não mostrou resistência.

De volta à nave, Artur passou por diversos testes de clonagem e foi comprovado como o verdadeiro. Depois, foi alimentando, higienizado e permitiram que tirasse a barba e cortasse o cabelo. Com um uniforme emprestado, ele parecia outra vez o soldado que Karen conhecia. Todos os reunidos na cabine de controle estavam curiosos enquanto ele caminhava até a capitã.

– E então? – Karen soava fria por mais que seus sentimentos estivessem balançados. Muita coisa ali não fazia sentido, portanto era melhor se mostrar firme. – O que foi que aconteceu?

– Esperava que ficasse feliz em me ver – disse Artur com a voz amargurada. Karen não respondeu. Depois de um breve suspiro, o soldado começou sua história. – Eu não lembro detalhes de como aconteceu. Lembro de um ataque a nossa nave e de uma explosão. Aí, acordei em um lugar estranho. Achei que estava morto, mas quando notei a gravidade mais densa e não reconheci nenhuma constelação, percebi que estava em um planeta muito longe. Foi aí que eles me capturaram. Zandarianos, milhões deles usando aquele planeta inteiro como campo de treinamento.

– Não é possível – argumentou a capitã. – Eles estão extintos.

– Sim, eu e você achamos ter acabado com todos eles, mas aquele planeta era apenas uma colônia na nossa dimensão. Demorou pra eu entender, mas aí lembrei o que os cientistas disseram já na primeira vez que examinaram a energia escura: que a matéria era capaz de dobrar o espaço-tempo, mas não sabiam como. Aliás, eles descobriram alguma coisa nesses anos todos?

– Não. Continuam na teoria.

– Bom, eu sei mais do que eles agora. Aquela explosão de energia escura de alguma forma me mandou pra outra dimensão, a mesma que deu origens aos zandarianos. Então fiquei preso lá por anos. Até que consegui escapar da prisão deles e fiz o mesmo que você, fui aos laboratórios e descobri como voltar e outras coisas mais. Eles pretendem teletransportar todo o exército de uma vez para nossa dimensão e destruir todos os humanos de uma só vez.

– O quê?

– Eles perderam muito com aquele nosso ataque de vinte anos atrás e não é só questão de vingança. Não querem que outra espécie tenha poder sobre a energia escura.

– Como espera que acreditemos no que você diz? Vinte anos perdido podem tê-lo feito imaginar coisas – parte dela queria acreditar, mas o ceticismo falava mais alto.

– Você me conhece, sabe que eu não inventaria isso.

– Não disse que inventou, mas…

– Eu sei o que eu vi! E a mulher por quem me apaixonei acreditaria em mim antes de deixar a humanidade ser devastada.

– Não sou mais aquela mulher – após um breve silêncio, ela anunciou – Mark, trace uma rota até o planeta Capital e lá veremos o que fazer.

– Não há tempo – contestou Artur. – Precisamos agir agora.

– E o que sugere que façamos?

– Quantos tanques de energia escura vocês têm?

Karen olhou para o subcomandante Kirk que prontamente respondeu:

– Dezenove.

– É o suficiente – continuou Artur. – Uma das coisas que descobri no laboratório foi que a energia escura só funciona porque estamos razoavelmente próximos ao Nyag. Mas se o destruirmos, eles não vão conseguir invadir nossa dimensão.

– Destruir Nyag? Destruir um buraco negro?

– Eu descobri que é possível, só precisamos reverter a polaridade em uma grande quantidade de energia escura dentro do buraco, o que causaria uma espécie de supernova reversa.

– Mark? – Karen olhou para seu subordinado que começou a fazer cálculos no computador.

– Teoricamente, é possível. – Mark hesitou. – Não seria exatamente uma supernova, mas seja o que for, a destruição atingiria tudo ao redor por milhares de anos-luz. O sistema Sul é o que fica mais perto e ele poderia ser dizimado.

– Mas estamos em guerra, isso não seria bom? – sugeriu a novata Julia.

– Não estamos falando de infantarias, mas de bilhões e bilhões de pessoas inocentes. Sem falar que isso violaria os acordos das linhas de fronteira.

– Todos nós vamos morrer se algo não for feito agora – argumentou Artur, causando mais alvoroço nos soldados.

Karen permanecia quieta. Ela podia não se dar bem com as pessoas, mas se responsabilizar por um genocídio era diferente. Entretanto, se ela não fizesse nada, talvez a raça humana fosse extinta.

– Como faríamos? – perguntou Karen. – Dispararíamos toda a energia escura em Nyag?

– Não há como. Precisamos deixar a nave em piloto automático e fugir nas naves menores.

– O quê? Você quer jogar a Lumus em um buraco negro?

– É o único jeito.

– Não. Vamos mandar uma mensagem ao planeta Capital e…

– Não há tempo.

– Já disse que não! – ninguém a entendia, mas Lumus fora sua única companhia desde que ela se afastou das pessoas. Seu único ente querido em certo modo de dizer.

Artur suspirou e depois partiu para cima de Silas, roubando sua arma de plasma e atirando no soldado. Os outros soldados fizeram menção de disparar, mas Artur foi mais rápido e tomou Karen como refém.

– Abaixem as armas agora! – ameaçou Artur e viu os tripulantes obedecê-lo. – Tracem o curso até Nyag agora ou a capitã de vocês vai morrer.

– Artur… – Karen estava totalmente desorientada com o cano da arma empurrando sua têmpora. – Você…

– Sim, você estava certa em não acreditar na minha história. Não sou um farsante, é você que nunca me conheceu direito. Eu te amei um dia, mas sempre amei mais ao meu sistema. Fingimos a minha morte para servir de símbolo. Um dos heróis que venceu os zandarianos dado como morto foi o estopim da guerra e o sistema Central teve respaldo para atacar os demais. Agora é a sua vez de ajudar a sua nação.

– O quê?

– Não existe nenhum ataque dos zandarianos, não existe outra dimensão. Eu passei os últimos anos trabalhando como agente oculto nessa guerra. Aquela nave da qual vocês me resgataram era falsa. E agora você vai jogar sua nave no buraco negro e acabar com o sistema Sul. Todos sabem que você ficou fria e amargurada nos últimos anos, vão achar que foi um surto depressivo que a fez cometer isso. O sistema Central ficará isento de qualquer culpa e você será julgada como louca. Mas por uma boa causa: o sistema Norte não terá mais nenhum apoio e, sozinhos, eles não têm chance contra o sistema Central. Achei que o seu amor seria o suficiente para te convencer a fazer do jeito fácil, mas não importa. Todos nessa nave vamos morrer, mas nossa nação vai vencer, meu amor.

Karen não sabia nem o que pensar, a grande tragédia da sua vida foi um golpe militar e seu noivo era um fanático. Todos esses anos sofrendo e se afastando de tudo e de todos só por causa de uma mentira. De repente, sua vida não fazia o menor sentido.

– Atira logo – disse a capitã ao antigo noivo e depois falou mais alto para seus tripulantes. – Depois que ele me matar, acabem com esse desgraçado.

– Cale a boca – Artur hesitou, não esperava aquela atitude. – Coloquem essa nave na rota com Nyag agora.

Nada havia saído como Artur planejara, Karen não era tão previsível como imaginou. Na preocupação, Artur acabou se distraindo e não viu que Silas ainda estava vivo. Deitado no chão em cima de uma poça de sangue, Silas cuidadosamente tirou sua arma reserva do coldre e atirou um feixe de plasma que perfurou o ombro de Artur.

Artur gritou de dor e deixou a arma cair. Karen deu uma cotovelada no estômago do ex-noivo, seguido de um cruzado de esquerda, que o derrubou no chão. A capitã recolheu a arma e apontou entre os olhos de Artur. Ele sorria com sarcasmo, sabia que ela não seria capaz de matá-lo.

– Você disse que esfriaria cada uma daquelas estrelas antes de deixar algo nos separar – disse Karen com raiva na voz. – E no entanto, você deixou seu fanatismo destruir a nossas vidas.

– Somos soldados, meu amor. Nossas estrelas esfriaram no dia em que nos alistamos.

– Sabe outra coisa que é fria também? – ela o encarava com ódio enquanto ele sorria. – O corpo de um soldado morto há vinte anos – e apertou o gatilho.

O plasma atravessou a cabeça e queimou o metal do chão. A boca continuava sorrindo, até o último momento ele não acreditava que Karen o mataria. Ao que parecia, nenhum dos dois se conheciam direito. Talvez o amor deles tenha sido apenas uma metáfora sobre a temperatura dos astros.

A capitã levantou com lágrimas escorrendo e foi amparada por seus soldados.

– Vão embora – Karen disse a tripulação enquanto enxugava o rosto. Eles obviamente não entenderam. – Vocês não ouviram o que ele disse? Essa nave foi peão de um joguinho do nosso governo. Com certeza vão querer apagar as evidências. Não vai demorar para sermos caçados e abatidos – observou que a Dra. Selly amparava os ferimentos de Silas enquanto o resto da tripulação ainda estava em choque. – Alguém fique responsável de ajudar Silas na fuga e partam logo.

– E a senhora? – perguntou Kirk.

– Lumus é a minha nave e eu sou a capitã dela. Não vou abandoná-la. Mas vocês sim. Fujam para os outros sistemas e contem o quão podre o Central é. Isso é uma ordem.

Alguns tristes, outros confusos, mas a tripulação soube se organizar para fugir nas naves menores o mais breve possível. Karen voltou a sua cabine, o verdadeiro coração daquela nave. Agora ela podia dizer com certeza que Lumus fora o único amor verdadeiro de sua vida, já que o outro foi uma grande ilusão.

Depois de algumas horas, a tripulação conseguiu fugir em rota ao objetivo proposto pela capitã. Karen ficou sozinha, do jeito que queria ficar. A aposentadoria estava chegando, mas não da forma que ela esperava. Era provável que aquelas fossem suas últimas horas. Decidiu gastá-las observando a constelação de estrelas azuis. Na companhia de Lumus, ela estava em paz. E acabou descobrindo que Artur estava errado. Ainda existiam muitas estrelas quentes, até mesmo para um soldado.

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