Os Fantasmas de Nós Dois

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Por Raven Ives

* * *

Antes mesmo de o sinal bater, alguns adolescentes já estavam arrumando o material dentro das bolsas enquanto a outra parte mal tinha um caderno ou caneta em mãos; todos à espera do momento em que estariam livres das paredes descascadas da sala de aula, do ar bolorento intensificado pelo ar-condicionado velho e de mim: um rabugento professor de literatura que os observava repleto de um silêncio austero. O quadro se encontrava cheio de informações pertinentes à prova, que passaram despercebidas para a maioria.

Os alunos pouco se importavam com Machado de Assis ou se Capitu realmente traíra Bentinho. Quem era Capitu, afinal? Muitos não sabiam, mas gostavam de fazer rimas vulgares com nome dela apenas para me irritar. Antes que eles saíssem, levantei-me da cadeira desconfortável para dar o último aviso do dia. Com o apagador em mãos, dei três batidas firmes contra o quadro, chamando a atenção de boa parte dos estudantes. Não pretendia me esgoelar como muitos colegas de profissão o faziam.

— A direção pediu para eu dar um aviso sobre o caso da Annabel — digo, engolindo em seco o bolo que havia se formado em minha garganta. — Há alguns meses que a amiga de vocês está desaparecida, mas os pais dela continuam a busca. Por isso mesmo pedem que permaneçam alertas e comuniquem a polícia caso saibam de algo.

— Ih, fessô, ela deve ter fugido de casa — brincou um dos alunos, arrancando algumas risadas. — Meteu o pé pra outro lugar.

— Só se esse outro lugar for a sete palmos do chão — acrescentou outro, extinguindo os sorrisos dos colegas. — Ah, qual é? ‘Cês acham mesmo que Bebel tá viva depois de tanto tempo sumida? Devem ter passado ela.

Por alguns segundos os alunos se entreolharam, acreditando que aquela hipótese era a que mais fazia sentido. Não os julgava por isso. O burburinho começou a tomar conta da sala, mas logo foi interrompido pelo soar do sinal. No mesmo instante o arrastar de cadeiras se tornou insuportável, as vozes altearam, estridentes, e eu continuei ali, parado em frente ao quadro enquanto todos passavam por mim. Poucos se despediram e nenhum deles recebeu uma resposta minha, pois permaneci absorto em pensamentos.

Annabel, a melhor aluna da classe. “Bebel” para os colegas de turma, com seus cabelos lisos caindo pelos ombros estreitos como uma cascata negra. “Aninha” do sorriso torto e olhar que me dominava ao âmago. Dos meus lábios, em segredo, apenas “minha”. Minha Annabel Lira; aquela que eu soube amar em mistério, guardando-a à sombra de minha alma.

Olho para a sala vazia ao meu redor e fito a cadeira, na primeira fileira da direita, onde ela costumava se sentar. Ainda sinto o perfume único que emanava de sua pele pálida. Recordo sem dificuldade dos lábios rosados se mexendo com graciosidade durante as leituras em voz alta nas aulas. Annabel sempre era a primeira a se oferecer para ler e não escondia o gosto que tinha por literatura, fazendo com que a admiração que nutria por ela só crescesse.

Por um instante, vejo-a sentada em seu lugar de sempre, sorrindo para mim, e então a miragem se desfaz, liquefazendo-se tal qual uma pintura úmida.

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Na volta para casa, dentro do ônibus lotado, cruzando o bairro de Campo Grande na zona oeste do Rio, meus pensamentos permanecem tão turvos quanto a janela ao lado. Tudo parece um borrão, e mal noto a idosa ao meu lado, em pé. Abro mão de meu lugar para ela, que agradece com um sorriso cansado à medida que tomo sua posição no corredor apinhado de gente. Nesse entorpecimento, quase passo do ponto, puxando a cigarra às pressas e tentando atravessar o mar de gente a fim de chegar ao final do veículo, que arranca antes que eu possa sair.

— ‘Pera aí, piloto! Vai descer! — grita um rapaz ao meu lado e logo sofremos com mais uma parada brusca.

Descemos, seguindo caminhos opostos, e sigo pela calçada esburacada, entrando à esquerda e continuando por pouco mais de cem metros antes de avistar minha casa; a estrutura simples e precisando de reformas, herdada de meus pais. O portão range, dando-me boas-vindas ao lar, e quando me viro para fechá-lo…Não, não pode ser. Meus olhos me traem, fingindo enxergar a figura de Annabel a me encarar do outro lado da rua.

Permaneço com o portão aberto até um carro passar, cortando a rua que nos separa e então, da mesma forma que surgiu, Annabel desapareceu. Ofego com o coração ribombando em meu peito e esfrego os olhos, mas ela não retorna. Exausto e me sentindo derrotado, arrasto-me pelo quintal até a porta de madeira.

Na sala, largo minha mochila sobre o sofá e, mantendo as luzes apagadas, sento-me na poltrona que dá para janela, de onde posso observar o jardim. Engolfado mais uma vez em minha própria mente e na quase escuridão do cômodo, recordo-me de minha Annabel. Não acredito que “recordar” seja a melhor palavra, pois a figura dela não deixa meus pensamentos em paz nem por um segundo sequer. Fecho os olhos e a vejo abraçada a mim; tremo com a lembrança, sentindo meu corpo formigar na expectativa ilusória.

De repente seu perfume me nubla os sentidos mais uma vez, como se estivesse ao meu lado. O aparelho de som liga sozinho e não se demora a preencher a sala com a voz de Toquinho,acompanhado de Vinícius, cantando “Valsa para uma menininha”. Ainda de olhos fechados, ouço passos se aproximando e sinto um peso em meu colo antes que braços envolvam meu pescoço em um abraço forte. Os lábios roçam meu pescoço, indo em direção à orelha; o hálito morno, cheirando a morango, traz lágrimas aos meus olhos. Porém, quando tento envolvê-la, não encontro nada além de ar.

— Ah, minha Annabel — murmuro para a sala vazia, levantando-me.

Levo as mãos aos meus cabelos grisalhos e choro a angústia que me mata aos poucos. Choro como criança que perdeu sua melhor amiga. Choro como homem que perdeu sua amante. Choro até olhar mais uma vez pela janela e vê-la do lado externo, perto do jardim que eu havia aprendido a cultivar. Corro para fora de casa e Annabel se foi, mesmo que sua presença ainda pudesse ser sentida de maneira cáustica, eriçando os pelos de meus braços e da nuca.

Ajoelho-me em frente às rosas e puxo uma delas, pouco me importando com os espinhos perfurando a pele de minha mão. Aquele não era o perfume das flores, mas o de Annabel. Em um furor incontrolável, despedaço-a, deixando que as pétalas se misturem ao meu sangue enquanto caem na terra úmida. Não consigo parar, arrancando uma por uma, estraçalhando-as assim como eu me sentia em frangalhos. A risada de Annabel ecoava em minha mente como se ela se divertisse de meu ataque colérico. Então meus dedos vão até a terra e começo a cavá-la, sem sentir as gotas frias de chuva. Ouço alguns grunhidos que, só depois de alguns segundos, reconheço como meus, deixando meus lábios de maneira animalesca.

A chuva engrossa e continuo ali, com as mãos em carne viva, escavacando cada centímetro do jardim; coberto de terra e fúria. Paro apenas quando meus dedos encontram algo mais firme que o solo macio. Ah, Annabel, minha Annabel… Puxo seu corpo sem vida em direção ao meu, abraçando-a. Tento limpar a terra do rosto de traços delicados; ela continuava a mesma menina aos meus olhos. Para sempre imutável em minhas memórias. Imortalizada ainda no frescor de seus dezessete anos.

Em seu pescoço, as marcas de minhas mãos brutas. Em suas unhas, resquícios de minha carne que ali se alojaram enquanto tentara lutar pela própria vida. Minha menininha não teve chances contra o bicho-papão que eu era. Que eu sou. Mas agora não pertencia a ninguém além de mim. Só minha para todo o sempre, alimentando o jardim com sua alma para que pudesse voltar a ser segurada pelas mesmas mãos que a mataram. Minha bela desabrochando em pétalas aveludadas apenas para mim e ninguém mais.

Ainda abraçado a ela, deite-me e assim permaneci, embalado pela valsa de nós dois e para sempre atormentado pelos fantasmas das pessoas que nós poderíamos ter sido.

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